26 de maio de 2022
Joseph Agamol

Diálogo com uma jovem sobre o Rock in Rio


– Joseph, fui ao Rock in Rio!
– uia! E aí, curtiu?

– nossa, BOM demais! Tô curtindo muito! Você vai?
– não, eu já fui.
– há dois anos, né? 2017?
– não. Foi… dexovê aqui… 1985… humm… há 34 anos.
Ela me olhou como se imaginasse que, em 1985, ainda se abatiam mamutes à clavadas e todo mundo usasse tanga de pele de leopardo.
– hummmm… e… foi BOM? Quer dizer… tinha… você sabe… ROCK?
Pela cara da moça, via-se que ela pensava que, no Rock in Rio I, os shows eram executados por artistas ostentando vistosas perucas empoadas à Luís XIV e tocando vetustos alaúdes e rabecas.
– se foi BOM?! Putz! Foi MARAVILHOSO! Tinha Whitesnake – e o David Coverdale ainda não parecia com a tiazona do carro de ovos – , tinha AC/DC… Mesmo com toda a lama e…
– peraê! – ela me interrompeu – tinha… argh… LAMA?!
– tinha e muita! Choveu pacas durante a semana do festival! Perdi um tênis atolado no lodaçal e…
– tá, tá, mas… e a música?! Tinha cantora mostrando os peito, potestrando contra o partiarcad… pratiarcra… ah, você sabe, potestrando contra o machismo?
– não.
– tinha gente fantasiada de índio, potestrando contra as queimada nos pulmão do mundo?
– não.
– ah, mas então tinha corinho mandando o Bozonaro tomar caju, né?! Sacumé: rebeldia!
– também não. A bem da verdade, teve até homenagem ao presidente eleito, Tancredo Neves. O Cazuza cantou “Pro Dia Nascer Feliz” justamente sobre isso, essa esperança nascente da nação…
Ela me encarou como se eu tivesse pronunciado herméticas palavras cabalísticas de um esquecido ritual pagão em alguma língua morta, tipo, sei lá, sumério antigo.
– Cazuza?! Tancredo?! Mas… mas… COMO ASSIM O BOZO NÃO ERA PRESIDENTE NAQUELA ÉPOCA?!
Jovens, envelheçam. Correndo, viu?

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Professor e historiador como profissão - mas um cara que escreve com (o) paixão.

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