Dezembro

Foto: Frank Sinatra, Getty Images
Ela olhou o calendário e se espantou: “20 de dezembro! Mas como?! Já?!” Seus dedos buscaram o play e colocaram para rolar um álbum de natal de Sinatra.

Segurou a caneca de café e recostou na bancada da cozinha. Este era um dezembro diferente. Buscou abrigo na memória. Voltou a ser a menina que ia dormir cedo na noite de 30 de novembro, torcendo para amanhecer logo. Ainda de olhos fechados, agora sorrindo, o café um travo doce-amargo na língua, a memória avivada.

Dezembro era mês das rabanadas, o mês da família chegar de longe, de ir para a casa da tia que não tinha tido filhos e que a tinha como a que não tivera, o mês de montar a árvore com esmero, os enfeites acondicionados em uma caixa com algodão, de aguardar ansiosa o dia 25, dos presentes simples que sabia que viriam, sempre vinham.

Era o mês em que o Verão ainda não havia chegado com força e as noites eram ainda frescas e ela até sonhava com renas e bonecos de neve, natais brancos como “White Christmas”, a canção mais bonita de Irving Berlin – e de Natal – que ela só viria a conhecer muitos anos depois.

Era o mês das férias da escola, de sentir os pés livres na terra preta como bolo de chocolate, e na areia dourada como bolo de nozes, o mar batendo na praia e lhe fazendo dormir. Já adulta, dezembro eram resoluções de ano novo, perder tantos quilos, ganhar tanto de dinheiro, esquecer amores antigos, abrir-se para paixões novas, um carro novo, um apartamento novo, um trampo novo, o novo, o novo.

Agora madura, continua sonhando, um sonho misturado com lembranças de toda uma vida, o novo mesclado com o antigo que viveu, viajar para voltar onde foi tão feliz, o amor que era novo tornou-se antigo e bom, alicerces fincados na terra preta de bolo de chocolate, os novos fios brancos como a neve que teimavam em surgir, e as linhas finas próximas aos lábios, como a lembrar das estradas que percorreu, tanta estrada!

Tanta estrada.

Ela abriu os olhos e viu que ainda tinha o café nas mãos. Ainda rolava o álbum de Natal na vitrola. Vitrola, vê se pode?! Ainda sorrindo, olhou o calendário.

Não importava quantos caminhos tinha trilhado ou quantos trilhavam seu rosto:
Sempre haveria a imagem de Frank Sinatra, tomando um café, e esperando para cantar “White Christmas” com Bing Crosby.

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