Cosme e Damião

Foto: Neal Boenzi)

A noite da véspera do dia 27 de setembro era de ansiedade e expectativa para as crianças do subúrbio.

Muitas dormiam mal. E acordavam à primeira hora, tirando pais, tios e avós preguiçosos da cama.

Pouco importava: tinha chegado o grande dia, o verdadeiro Dia das Crianças, o dia de Cosme e Damião e Doum.

Logo as ruas estariam tomadas por um pequeno exército – pequeno no tamanho dos componentes – e sua algaravia desencontrada: o que todos nós queríamos saber, sim, porque eu estava lá, todos os anos, sem falhar, era a casa que estaria “dando doce” – havia as que ofereciam as guloseimas todos os anos, fruto provavelmente de promessas ou fé aos santos meninos, e as de ocasião, pouco importava.

Logo a multidão, democrática e de todas as cores e classes, se aglomerava para receber os saquinhos de papel com as imagens estampadas, acondicionados com as iguarias de praxe: cocadas, pés de moleque, peitinhos de moça, bananadas espetadas em palitos simulando pequenos picolés, corações de doce de abóbora, mariolas e cocôs de rato.

Hoje me parece que a tradição se perdeu, como tantas que ficaram para trás.

Se alguns pais perguntassem a uma criança de hoje se ela se separaria de seu PS5 para passar o dia correndo atrás de doces baratos… creio que ela olharia para eles acreditando que perderam a sanidade.

Para ser sincero, o conteúdo dos saquinhos era relevante, sim, mas… do que gostávamos mesmo era de correr livres pelas ruas, do amanhecer até bem depois do pôr de sol, pequenos senhores de nosso Tempo, reis e rainhas de nossos destinos.

A sensação de que o fim do caminho, o ponto em que a estrada termina, enfim, não era o que importava, mas a jornada, em si, é algo que carrego desde então.

Ao fim e ao cabo, é sobre LEGADO que estamos falando.

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