28 de maio de 2022
Joseph Agamol

Carta aberta a Greta Thunberg


Antes de mais nada, saiba que não farei troça dos males que a afligem, sua mente e sua alma – você já deve ter sofrido pacas com isso, todo adolescente sofre!
Eu, que já perdi a conta de há quantas luas deixei de me incomodar por ser grande demais, estranho demais, tatuado demais, ainda lembro da dor que sentia – e de como agarrei essa dor, olhei bem fundo nos seus olhos translúcidos, e a transmutei, senão em amiga, em alguém a quem eu podia dar as costas.
Nada de troça por aqui, portanto.
(“Troça” é como nós, os jecas, chamamos a lâmina cega do tripúdio.)
Greta, você é muito brava, moça!
“Brava” no sentido de quem segura uma mágoa profunda, que rompe barragens e irrompe na forma de seus lábios crispados em esgares que transformam suas feições – quando seu sorriso é tão doce e bonito, que eu sei, que eu vi! Juro!
Moça, sua mágoa a feriu tão fundo que a levou a acusar a todos de terem roubado sua infância.
Greta, você é sueca, nascida em um país belíssimo e rico, em todos os sentidos. Por aqui nós temos muito a contar sobre infâncias roubadas, mas roubadas a ferro e fogo, sabe?
São favelas e lixões, são tráficos e escolas abandonadas, são tantos nomes que não fariam sentido algum para você, mas eu recito assim mesmo, numa quase prece e berro de protesto:
Maré, Adeus, Baixa do Sapateiro, Vila do João, Perereca, Parque União, tem até uma Nova Holanda, viu, para falar só das que eu vivi e convivi quando tinha sua idade.
Eu sei, moça brava, que dinheiro não é o caminho da felicidade.
Mas eu acredito que o caminho para a felicidade é uma estrada enlameada, cheia de buracos e pedras cortantes.
E o dinheiro ajuda a aplainar esse caminho, pavimentar, cobrir com luzes sinalizadoras e asfalto bom.
Você é jovem, Greta, e um de nossos escritores bons – sim, nós temos um monte deles, o maior é Guimarães Rosa, minha opinião, sabe, ele nunca ganhou um Nobel, o prêmio do seu conterrâneo (azar do Nobel, né?), que não tem a honra de premiar Guimarães – mas eu me distraí, um de nossos escritores dizia algo sobre sentir raiva o tempo todo.
Nelson Rodrigues escreveu que os jovens deviam envelhecer, rapidamente, e, quando isso acontecer, sua raiva vai aplainar, igual ao caminho que citei cinicamente antes nessa carta, e quem sabe você vai voltar a sorrir mais.
Você diz que também roubaram seus sonhos – Greta, a vida é especialista nisso, moça! Que droga! Mas É!
A Vida é aquele tira malvado dos filmes de Hollywood dos anos 80, você não viu, mas é.
E, se você deixar – se você DEIXAR – esse tira malvado vai te algemar, moça, te colocar numa cadeira e pôr uma luz forte na sua cara, até que você não aguente mais e conte tudinho.
E eu tenho algo a lhe dizer sobre isso: o tira bonzinho – sempre andam em dupla, sabe, nesses filmes antigos e demodê? – o tira bom, o Stallone, não vai aparecer para lhe salvar.
Esse é um trabalho que só você poderá fazer.
Eu sei, porque fui jovem, e sentia raiva o tempo todo, até ficar pesado demais para eu aguentar tamanha carga.
Eu só posso dizer sobre tudo isso que tente esvaziar o riacho de sua alma que está de mágoa até desbarrancar as margens da sua mente.
Pode não parecer, mas o tempo que carregamos em nós é um fragmento do que está lá fora, e, ao fim e ao cabo, eles vão se tornar um só.
E, talvez, após tudo isso, você possa se recostar em uma pequena ponte de madeira sobre o rio que corre dentro de si mesma e contemplar suas águas plácidas.

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Professor e historiador como profissão - mas um cara que escreve com (o) paixão.

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