A menina que amava o Natal

Foto: Simon Z

Ela parou por um instante o trabalho e olhou pela janela, a xícara de café esquecida ao lado. “Caraca, hoje é 24!”, pensou, e a simples lembrança de Natais passados trouxe um aluvião de imagens à sua mente e suavizou e umedeceu seu olhar.

Parecia que fora ontem – não, que ontem, parecia que fora HOJE CEDO que ela tinha sido uma menina, que aguardava com ansiedade incontida o dia 24.

Memórias.

Sua mãe preparando as rabanadas, o pão especial, a canela. Sua tia separando os enfeites da árvore, tão delicados que tinham que ser acondicionados em algodão, e mesmo assim todo ano quebrava algum, vê se pode! O jogo de cartas em família, algum tio que lhe deixava provar a cerveja: “só a espuma!”, alertava.

Seu vô que contava sempre a mesma piada e todo mundo ria, por respeito e por costume, a missa do Galo, o filme de Jesus na TV, aquele que não mostrava o rosto do ator, a ceia, comer, comer!, e os brinquedos aguardados, o sono bom.

Lembranças.

A Vida em sua torrente foi levando, foi levando, o vô, o tio, foram tantos, tantos, depois amigos, amores, de roldão, de torrente, e se foram quase tudo de gentes, a Vida levou, levou, e ela cresceu e pegou a estrada e cresceu.

A estrada até hoje.

Parou para enxugar os olhos. “Que droga, ainda tinha que tocar logo “So Far Away” da Carole King nessa hora?!”, pensou, e quando a represa ia se romper, o dique finalmente se abrir, a comporta ceder, o celular tocou.

O rosto amado apareceu no visor, o sorriso claro que ela adorava tanto, tanto, nossa, quase doía tanto amor, viu?, tanta bem querença, e ela sorriu.

Porque, ao fim e ao cabo, a Vida é assim, conhecer o equilíbrio sutil entre o que contrista e o que compraz e saber amar tudo aquilo que permanece.

Feliz Natal, pessoal.

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