A garota que ama correr

Foto: Josh Gordon
Ela amarrou os cadarços dos tênis Asics – um pé de cada cor, os tênis, não os cadarços – e vestiu o agasalho. Fazia frio, apesar do outono ainda estar a meio. Engoliu o resto do café – preto, puro, forte, ela gostava assim desde guria.

Mergulhou na névoa, que a abraçou instantaneamente. Enrijeceu os músculos. Começou a trotar de leve, sem pressa para entrar naquele estado de quase transe que todos os que correm conhecem bem:

Os pulmões trabalhando, a respiração ofegante, nervos, tendões, coração bombeando sangue, acelerando.
Mais.

A paisagem passando veloz ao redor, os bichos, o mato, os carros, bicho, tanta luz à meia-luz da manhã, imagens borradas.

Ela buscou uma música daquelas que diziam que só ela conhecia: “Willin”, de uma banda antiga e obscura da Califórnia, chamada Little Feat.

Acelerando.

Os pés mal tocando o asfalto, a grama, a terra, ela quase voava, agora, olhos fechados, recebendo as agulhas de aço, inoxidáveis, do vento, recebendo a benção do cheiro da mata à distância, vendo uma pessoa abrir a janela ao longe.

E ela correu.

Correu para longe de tudo que oprimia seu peito de dia e tirava seu sono à noite, correu para longe da desesperança e do desabrigo, deixou para trás os erros cometidos e os amores equivocados.

Porque ela tinha certeza, mais que certeza, confiança, ainda mais que confiança, FÉ, a mais depurada fé de que, exatamente à sua frente, naquela próxima curva do caminho, e tão PRÓXIMA, e não importando a idade que ela tinha agora, ela encontraria sua visão de sonho, um porto, um atalho, um caminho-de-ferro, em direção à uma cidade dourada que ela guardava com carinho num compartimento secreto do seu coração.

E ela correu, acelerou, até quase não sentir que havia chão abaixo dos seus pés.

E – quer saber?! – não, não havia.

(dedicado a todos que amam correr e correm em direção ao que amam.

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