4 de julho de 2022
Colunistas Joseph Agamol

Quando éramos elegantes

Foto: Sante Forlano

Não havia tanta riqueza. Mas éramos ricos. Você entende. A música que ouvíamos era chique. Cool. Mas ninguém sabia disso. Nem sabíamos o que era cool. Ouvíamos e pronto.

Todo verão chovia muito. Chuva de pingo grosso. Mistério profundo o sumiço dos pingos grossos. Molhávamos em quatro segundos e meio – os sorrisos ornamentados de cristais d’água.

Quase não se falava palavrão. Havia um acanhamento, não, acanhamento não. Recato. Essa a palavra. Salvo ocasiões especiais, como topada com o mindinho.

As noites eram de quietude. Tudo dorme, como num poema de Manuel Bandeira ou de Quintana. Motos barulhentas? Bah. Só o apito dos Cosme-e-Damião que, de tão discretos, não ousavam romper a paz das luas cheias. Se acordávamos, era com uma sensação de conforto e acolhida. E voltávamos a dormir, imersos em cobertores e tentando voltar àquele sonho.

O mundo era imenso, muito, mas muito maior do que o de hoje, todo mapeado e coberto por redes sociais e quatrogês. Mas, curiosamente, não nos sentíamos sozinhos.

O café-com-leite na padaria da esquina, o copo de geleia de mocotó, ser “café-com-leite” nas brincadeiras de rua, brincar na rua, o pão embrulhado em papel de pão, o poema rascunhado, o desenho rabiscado, o Tom, o Guima, o Vina.

Eu apascento as lembranças como quem guarda um rebanho, como quem acalenta um fogo, como quem cobre com edredom. Porque elegância é, ao fim e ao cabo, ser – e não apenas ter.

Como as moças caminhando em Nova York, na manhã de 15 de agosto de 1958.

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Professor e historiador como profissão - mas um cara que escreve com (o) paixão.

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