26 de maio de 2022
Colunistas Joseph Agamol

PISA: nossos alunos nunca tiveram a menor chance

Foto: Eric Ward

Cena 1: sala dos professores em uma escola pública do Rio de Janeiro, em 1999.

Participantes: eu, professor de História, recém-admitido no Estado e mais dois colegas, um de Matemática e outro de Língua Portuguesa.

Tema: as extremas dificuldades de aprendizagem dos alunos de 5a à 8a série.

A indisciplina é um problema grave. Dificuldades cognitivas também: a maioria dos estudantes chega aos anos iniciais do ensino Fundamental sem saber fazer contas simples de somar e subtrair ou sem saber ler. E, dos que sabem, a maioria não compreende o que lê.

Professor de Português (desanimado): cara, que difícil isso, hein?!

Professor de Matemática (mirando um ponto distante no espaço): enquanto a gente fica testando práticas pedagógicas imaginárias e “construindo o conhecimento de acordo com os saberes do aluno”, os caras das boas escolas particulares e das melhores escolas públicas estão lá, trabalhando conteúdo, conteúdo… direto!

Professor de Língua Portuguesa: na hora de fazer um concurso, tentar entrar numa universidade, como os nossos alunos vão se sair?

Eu (pragmático e realista desde o inicio da carreira): se eles não reconhecerem a situação… não vão ter a menor chance.

Cena 2: outra escola pública, na zona sul do Rio, 15 anos depois. É hora do recreio. Toca um funk – sim, um funk – ensurdecedor. Ninguém consegue sequer conversar. O grêmio estudantil recebeu este “benefício”, como parte de uma tentativa da escola para diminuir os recorrentes casos de indisciplina e violência.

Estou sentado em um banco da quadra, mesmerizado pelo barulho. Um aluno me olha com ar assustado, do outro lado. Naquele momento, tive um insight semelhante ao que tivera em 1999, no início de carreira: ele talvez não saiba disso… mas não tem a menor chance.

Nesse mesmo ano, me exonerei dos meus cargos no serviço público.

As lembranças me vieram à mente hoje, ao verificar o triste desempenho dos alunos brasileiros no PISA 2018.

Vinte anos depois, é ainda mais triste verificar como a situação da Educação brasileira não só não melhorou, como retrocedeu barbaramente.

A maioria dos alunos relata que os problemas de indisciplina nas escolas é um dos maiores, senão o maior, fator impeditivo à aprendizagem.

Há duas décadas tentamos “revolucionar” a educação brasileira com cirandas, saberes alternativos e funk.

E eu continuo dizendo, como há 20 anos, mas ainda mais velho e ácido:

Se nada for feito para mudar isso, os nossos alunos continuarão sem ter a menor chance.

Na vida.

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Professor e historiador como profissão - mas um cara que escreve com (o) paixão.

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