2 de julho de 2022
Colunistas Joseph Agamol

“Basta você me calçar que eu aqueço o frio dos seus pés…”

Imagem: Google Imagens – Estudando Música

O dia estava como ela sempre amara: o céu azul-cobalto, alguns urubus dormindo na perna do vento, como naquela canção do Tom, a temperatura em civilizados 21 graus…

Ela colocou a playlist “Descobertas da Semana”, no Spotify e ouviu… “Sapato Velho”, que ela não ouvia há uns bons anos. Pensou com certa tristeza que hoje são tempos de músicas feitas para não serem ouvidas. Muito menos recordadas daqui a alguns anos.mas como assim, “Sapato Velho” é novidade, Spotify?, se riu, divertida e sozinha em frente a janela da sala. E recordou, o café esfriando na mão.

Mas como assim, “Sapato Velho” é novidade, Spotify? Se riu, divertida e sozinha em frente à janela da sala. E recordou, o café esfriando na mão.

Era 1981. Ela ainda usava franjinha, ainda acreditava em muitas coisas e homens e teorias e explicações do mundo. O tempo levou quase tudo, a esculpiu, endureceu o bastante, chapiscou o muro exterior, para proteger a terra sagrada do seu coração.

“Você lembra, lembra…?”

Claro que ela lembrava: como ia esquecer?

O primeiro carro, o Uno a álcool que o pai ligava bem cedo para aquecer o motor e ela não chegar atrasada, o dia que saiu de casa, a mãe chorando no portão, como se ela fosse mudar para Alfa-Centauro, e não para uma cidade a 2h dali, o primeiro cara que a consumiu, ah, esse cara tem… Caetano. E Tavito. E Beto. E toda uma legião de canções desfilou em sua mente/coração.

A música acabou, sendo substituída por uma de Melody Gardot. Ela podia não colher mais as flores de maio, de quando era adolescente.

Mas ainda tinha estrelas nos olhos.

Muitas.

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Professor e historiador como profissão - mas um cara que escreve com (o) paixão.

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