18 de abril de 2024
Colunistas Fernando Fabbrini

O manto de Diderot

Pense duas vezes antes de enfiar a mão no bolso.

Foto: Hélvio

Denis Diderot era um filósofo francês. Ao contrário de alguns folgados de hoje – que se sentem no direito de viver às custas de dinheiro público, mamando nas leis de incentivo –, o coitado vivia duro, esticando os ganhos minguados com traduções e resenhas literárias. De repente, surgiu uma nova despesa assustadora: a filha iria se casar, e ele não tinha dinheiro para o dote. Felizmente (ou infelizmente, como veremos), ele foi ajudado por uma grande amiga – a imperatriz Catarina da Rússia, sua fã, que abriu os cofres para o amigo escritor.

Diderot pagou o dote da filha e, de quebra, comprou um manto vermelho para fazer bonito na festa de casamento. Olhando-se no espelho, o filósofo admirava a roupa nova. Porém, começou a botar defeito no resto – nos seus sapatos, na camisa, nos culotes, nas meias, no tapete da sala, nos armários, nas cortinas, nos quadros. O contraste entre a beleza do manto novo e a feiura do restante de seus pertences desencadeou um pesadelo. Diderot torrou o resto do dinheiro da amiga Catarina e endividou-se cada vez mais comprando roupas, acessórios e quinquilharias feito um louco. O triste caso do filósofo consumista deu origem ao termo “efeito Diderot”. É uma armadilha sempre pronta para esvaziar nossos bolsos e encher a nossa casa de inutilidades.

É assim: você compra sapatos novos, da moda. Na loja ao lado vê meias que combinam muito melhor com os sapatos. Depois, começa a cismar que aquele terno e aquela camisa já estão meio démodé, assim como a gravata e o cinto de couro. Cuidado: o fantasma de Diderot acaba de reencarnar no seu cartão de crédito. E, se você bobear, daqui a pouco vai trocar de carro sem poder fazê-lo – pagando em prestações infindáveis e complicando a vida, tudo por causa do sapato novo.

Jovens, bombardeados pelos ditames da moda, são bem vulneráveis ao risco Diderot. E crianças também, muitas vezes repetindo hábitos dos pais, prisioneiros desse redemoinho consumista e ansioso. Rainer Strick e Elke Schubert, dois educadores alemães, estão preocupados com o excesso de brinquedos das crianças e alertam: “É fundamental e urgente que as crianças encontrem divertimento e satisfação fora das lojas de brinquedos, jogos eletrônicos e atrações do celular. Se forem criadas pensando que todo o prazer pode ser obtido através do dinheiro, certamente terão mais dificuldades de se sentirem realizados na vida adulta”. E completam: “Crianças que conseguem tudo o que desejam acabam acreditando que podem ter tudo o que querem, a qualquer hora. Projete esse conceito adiante e você entenderá muito do que acontece com jovens e adultos da atualidade”.

Claro que há antídotos para esse veneno. Os estudiosos de comportamento recomendam uma única pergunta antes de enfiar a mão no bolso:

– Estou comprando isso porque “preciso” ou só porque “quero”?

Se Diderot tivesse tido a prudência de perguntar-se, teria aproveitado o casamento da filha, teria esquecido o maldito manto novo e não teria morrido na miséria. E olhem que nem existiam shopping centers na França daquela época.

Em contrapartida, muita gente já percebeu que gastar dinheiro à toa com coisas é uma grande besteira, seguindo a filosofia de Sócrates. Conta-se que o grego adorava passear pelos mercados de Atenas; olhava tudo e não comprava nada. Aos amigos curiosos que lhe inquiriam a respeito, Sócrates respondia:

– Gosto de ver de quanta coisa não preciso para ser feliz…

Fonte: O Tempo

Fernando Fabbrini

Escritor e colunista de O TEMPO

Escritor e colunista de O TEMPO

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