Um sorriso na tempestade

Tem sempre algo que nos impede de nos perdermos em uma tempestade. Para ela, foi algo ocorrido há muito, muito tempo atrás.
Enquanto a tempestade rugia do lado de fora, ela olhava assustada pela janela e via as árvores se sacudindo como espantalhos gigantes. Os ramos, longos braços ossudos, já não tinham mais folhas, arrancadas pelo furação que iniciara há pouco.

Placas do telhado eram arrancadas sem misericórdia e ela as via rolando no ar para um lugar incerto enquanto a casa toda tremia. O mundo parecia desmoronar à sua volta e ela procurava um lugar para se esconder ou algo onde se segurar, mas o furacão tornava-se cada vez mais forte e mais placas eram arrebatadas sobre a sua cabeça.
Os móveis começavam e se arrastar ainda que lentamente, resistindo ao vento que já estava por todos os lados, dentro e fora da casa. Ela soltou o batente da porta e tentou correr para um lugar seguro quando sentiu que as pernas não a obedeciam. O seu próprio corpo parecia não mais lhe pertencer. Ela reuniu as últimas partículas de força e se arrastou junto ao pé da mesa de madeira maciça da sala. O único móvel que ainda resistia àquela fúria da natureza.
Os gritos delas eram abafados pelo constante trovejar e o som continuo de estática no ar, como se o próprio motor pulsante do planeta tivesse saído do centro da Terra e girasse ao redor… e dentro dela.
Chorar não cabia mais, então ela apenas esperou, agarrada ao pé da mesa, as pernas elevadas no ar, os cabelos esvoaçando e chicoteando o seu rosto. Por entre os cabelos e folhas que rodopiavam descontroladamente, ela viu rachaduras surgindo no assoalho, serpenteando lentamente em sua direção abrindo fissuras por onde ela antes caminhava segura.
Os seus objetos mais preciosos estavam sendo destruídos, arremessados para todos os lados. Porta-retratos com momentos dos anos recentes eram vistas agora por lentes trincadas, desfigurando memórias de um tempo feliz. As porcelanas e os vasos de plantas rolavam pelo chão e desapareciam na profunda fenda que se formava no chão.
É o fim, pensou ela. E, naquele instante, ela sentiu-se impotente e com raiva. Ela pensou que, se houvesse mesmo um Deus, que ele tivesse piedade da sua alma. Seus braços estavam cansados e tensos agarrados ainda à mesa que, milagrosamente ainda estava colada ao chão.
Os seus olhos ardiam com o vento que golpeava suas córneas como finas e afiadas lâminas. Algo acertou a sua testa com força e uma das mãos se libertou da grossa e resistente madeira. O seu corpo fez um meio giro no ar e outro objeto acertou em cheio o seu peito, bem no coração. A dor foi tanta que ela não resistiu. Soltou a outra mão e o seu corpo foi sugado pelo telhado agora escancarado, sendo arrastado para dentro daquela massa compacta de fúria.
Ela girou a uma velocidade inimaginável dentro do redemoinho que se formara do lado de fora, e na confusão de sons e agitação, tudo na sua memória desapareceu com exceção de uma lembrança que ficara tão para trás que criara raízes em sua alma sem que ela tivesse percebido.
Ela tinha seis anos e estava sentada no colo do seu pai, abraçada ao pescoço dele, sentindo-se protegida e amada. Então, ela se afastava e olhava para ele, sorrindo. Os olhos meigos dele por trás da grossa armação dos óculos lhe sorriam de volta e ela diz “eu te amo, papai” e ele suspira. “O que foi, papai?” pergunta ela com aquela curiosidade divertida. “Ah, esse sorriso… Você sorri com a alma. Nunca perca isso, minha filha” diz ele com uma pitada de melancolia que ela não percebera na época. E como se caísse durante um sonho, ela sentiu o corpo sacudir e depois ser atirado contra uma superfície pontiaguda, banhada e fria.
Suas costas estalaram e a dor foi pungente. Ela abriu a boca, mas não gritou. Seus pulmões não deixaram. E o ar também não entrou pela sua garganta. Era como se ela estivesse se afogando por dentro.
Apesar da dor, ela apoiou as mãos no chão cheio de pedras e ergueu o tronco lenta e dolorosamente. O peito então se abriu e ela inspirou todo o ar que conseguiu. Exalou e inspirou novamente, e mais uma, duas, três vezes até ter certeza de que estava mesmo viva.
Ela olhou em volta e os estragos eram avassaladores. Não havia mais casa, árvores, ruas nem jardins. Era tudo uma massa de destroços, um emaranhado de madeira, ramos, troncos, folhas, pedras, tijolos… tudo triturado e espalhado pelo chão.
Por um instante ela quis chorar de raiva, de tristeza, de solidão, mas não o fez. Só depois de contemplar a extensa destruição à sua volta, sabendo que apesar de tudo ela ainda estava viva, foi que ela chorou. Começou baixinho, cheio de tristeza. Depois, foi num crescente de ira, dor, indignação e desespero.

Ela fechou os olhos e pediu, que se houvesse um Deus, que lhe desse forças para reconstruir um novo lar.
Quando os abriu novamente, viu um tímido, porém corajoso, raio de sol atravessando as nuvens e se perdendo no ar. E ela sorriu.
“Ah, esse seu sorriso….” disse-lhe o seu pai. E o raio de sol desapareceu…., mas ela continuou sorrindo.

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