Sociedade indefinida


“The Show” (foto) é um filme perturbador que provoca uma reflexão sobre o rumo da nossa sociedade usando um reality show cujos protagonistas são pessoas desesperadas que tiram suas vidas diante das câmeras. A primeira impressão que fica é que o filme é fraco e absurdo, porém, ao longo do filme se percebe que a intenção é outra: fazer com que percebamos o quanto nós é que perdemos os nossos valores, o limite entre a liberdade e o inaceitável. Aliás, o que é inaceitável nos dias de hoje?
A necessidade de uma sociedade mais aberta e tolerante causou uma ruptura nestes parâmetros e o conceito de moral e imoral tornou-se fluido. Caminhamos para um período amoral, onde não se sabe mais o que é errado ou a diferença entre tolerância e caos.
Houve um período em que sabíamos perfeitamente o que o termo “moralista” queria dizer. Hoje, não mais. Qualquer um que defenda o mínimo de respeito próprio, à sociedade e à infância torna-se um moralista radical, um intolerante.
Deixemos, portanto, que a liberdade tome conta de tudo. Drogas, homicídio, estupro, genocídio, pedofilia, zoofilia, armas nucleares, vandalismo, a lista é extensa. Muitos vão dizer que não é bem assim. Não? Estamos mesmo tão distantes disso? Basta olhar o comportamento da sociedade cinquenta anos atrás e o de hoje.
Evoluir é necessário, porém, será que temos uma definição clara de até onde vamos querer que a nossa sociedade mude, que os nossos valores mudem? Qual é o seu limite?
A dificuldade em se responder a esta pergunta é que o conceito “a liberdade de um termina quando começa o direito do outro” não funciona mais por um simples motivo: direitos e liberdades estão, hoje, fundidos no conceito de tolerância e é esta tolerância que carece de limites.
Ainda no tema cinematográfico, um outro filme que também questiona o futuro da nossa sociedade digital é o The Circle. O enredo mistura a tecnologia com reality show para questionar a privacidade em um mundo onde nós mesmos nos expomos demasiadamente e por qual motivo? Vaidade ou simplesmente porque perdemos a habilidade de pensar, apenas reagimos a um efeito em massa? Estamos mesmo longe de nos tornar um dos personagens do “Nosedive”, episódio da série Black MIrror, do Netflix, onde a sociedade classifica as pessoas pelo seu índice de aprovação nas redes sociais? Nenhum deles é ficção mais.
O cinema tem tentado prever o futuro da nossa civilização há décadas. Já fomos dominados por máquinas, invadidos por alienígenas, destruídos por furacão, asteroides, vulcão e até dinossauros, mas nada disso me assusta mais do que pensar no que nós mesmos estamos fazendo com a sociedade futura dos nossos filhos.
Quando o limite do desfiladeiro não é nítido, o risco de se cair abismo abaixo é alto, se não certeiro.

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