Sobre fantasmas e flores


Uma separação é mais do que a saída de um dos cônjuges, é o fim de uma jornada a dois para dar início a uma longa e dolorosa jornada solo (na maioria das vezes). Não há vitorioso, todos perdem um pouco. Principalmente quando há filhos. Talvez esta seja a única situação em que não haja exceção.
Em um relacionamento, construímos família e sonhos, e o fim dele é como ver estes sonhos se transformarem em um mero eco do que deveria ter sido. É como olhar um espectro. É sentir o reflexo de um membro amputado sabendo que aquela parte sua jamais existirá novamente, mas ainda assim, o sentimos. E é doloroso e assustador.
Não importa quem tenha tomado a decisão, e isso não quer dizer que a pessoa que o tenha feito esteja feliz ou mesmo tivesse desejado aquilo. Às vezes, é apenas porque alguém tem que fazer o que tem que ser feito.
Quando o rompimento não foi causado por uma terceira peça neste jogo a dois, o fato de dizer “basta” não implica em não sofrimento para quem o diz. Talvez, seja ainda mais difícil para esta pessoa manter-se firme na sua decisão sentindo o próprio coração se partir em pedaços, vendo a imagem sólida daquele plano futuro se esfumaçando aos poucos enquanto se tenta segurá-la entre os dedos, sentindo apenas a impotência diante do inevitável fim.
Como qualquer perda, a separação é um luto e, como tal, deve ser tratada com respeito e vivida para ser curada. As fases que a seguirão poderão ser longas ou curtas, visíveis ou apenas sentidas – profundamente – enquanto o sorriso estampado no rosto insiste em dizer ao mundo… “Estou bem”.
Quando as portas se fecham e cada um se encontra sozinho em seu novo mundo, em sua nova dor, em seu luto, é quando tudo desmorona. Quando não se tem mais nada a ser dito, é que as piores coisas são faladas. No lugar do “eu te amo”, surge o “eu te odeio”. No lugar do “admiro você”, o “você não vale nada” e nada é suficiente para extravasar a dor até que as feridas de ambos já não suportem mais tanta agressividade. E quando a batalha verbal termina, vem o vazio e a necessidade de se entender o porquê e onde foi que ambos se perderam. E vem o arrependimento, o desejo de recomeçar, de fazer tudo diferente, mas o que foi quebrado nem sempre se pode consertar.
Alguns se apoiam na família durante o percurso; outros, nos amigos, no trabalho, nos hobbies, na música ou até no próprio silêncio. Outros ainda, encontram um aliado em uma nova paixão, trazendo para a ferida já aberta da relação uma pitada de acidez. Mas, afinal, todos têm o direito de ser feliz mesmo que, daquela conversa tão sofrida, tenha se passado apenas alguns dias ou um mês; mesmo que ainda houvesse um fio de esperança.
Todos têm direito de serem felizes e a felicidade do outro, visto do profundo sentimento de perda daquele que ficou para trás, dói indescritivelmente. Nem sempre por ciúmes, inveja ou egoísmo, mas pela crua realidade de que aquele lugar especial ao lado dele ou dela, não é reservado mais a você. Que todos os anos em que você lhe dizia a mesma coisa sem ser ouvido, ele ou ela agora ouve da boca de outra pessoa… e presta atenção! As mesmas palavras, talvez. E isso não faz sentido para você.
Saiba que reconstruir-se é uma arte, às vezes a quatro mãos. Mesmo que aquele outro par de mãos não seja o seu. É nesta hora que você tem que abrir o seu coração, colocar para fora toda a angústia, dor, raiva, medo e sofrimento. Olhar para dentro de você e procurar, em algum lugar, um novo sentido para a sua vida.
E, finalmente, dizer pela última vez: “Eu amo você. Pelos lindos momentos que estivemos juntos, por tudo o que lutamos e conquistamos. Por tudo o que sofremos e choramos. Por tudo o que sorrimos e amamos. Por tudo o que aprendi com você.”
Quando só sobram espinhos, o jeito é tirar, um por um, dia após dia, lágrima após lágrima, na certeza de que aquela flor brotará novamente um dia.

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