Quando é hora de parar de sentir raiva


Neste imenso universo onde habitam os sentimentos, a raiva é sem dúvida o grande buraco negro. Na contramão do amor, da amizade e solidariedade, a raiva se alimenta da nossa sanidade. E a grande armadilha é que, ao darmos vazão a ela, um processo viciante se inicia, e é quase impossível interrompê-lo.
Não somos mais os donos da nossa razão, somos envenenados pela dor. Quanto mais nos sentimos feridos, mais queremos ferir. E quanto mais ferimos, mais sentimos a própria dor. Todos nós já estivemos lá, em pequena ou grande escala. Eu estive, várias vezes, por motivos diversos.
Quando a raiva é acionada, não temos a visão clara dos fatos e nos apegamos a qualquer coisa que justifique e, principalmente, perpetue aquela sensação latejante e compulsiva de se fazer o mal. Uma vez iniciado o processo, a única coisa que nos dá prazer é a dor alheia. Por isso os crimes passionais são tão violentos.
Quando a violência física não é uma opção, palavras são escolhidas a dedo com o intuito de fomentar a dor. Mas elas se esvaziam rapidamente e vasculhamos os nossos baús empoeirados e decadentes com o intuito de resgatar as mais rancorosas lembranças porque precisamos de munição, precisamos dela para despejarmos, mais uma vez, o veneno da discórdia, da insatisfação, do orgulho ferido. Queremos que a chama permaneça acesa e precisamos que ela cresça. Desejamos atear fogo à alma do outro, porque a nossa já está ardendo.
Este ciclo vicioso vai nos consumindo aos poucos e sempre em maior escala. Até que um dia nem a mente e nem o corpo suportam mais a carga de tanta dor, raiva, frustração e desapontamento.
Paramos, ofegante, e procuramos no interior da nossa alma o que é que tenha sobrado do que fomos um dia. O vazio é assustador e a tentação de voltar àquele ciclo doentio é muito grande.
Mas tem que haver um basta. Tem que haver aquele momento de lucidez de se dizer… Chega!
A raiva nem sempre necessita de uma ação. Ela pode ser a motivação para algo necessário, mas agir sob o comando dela é normalmente mais nocivo a si mesmo do que ao outro.
Quando sentir aquela raiva antiga e já curtida por tantas noites mal dormidas emergindo em seu coração, mude a perspectiva. Faça algo de bom a si mesmo! Abra um sorriso, presentei-se com um pequeno mimo, cante uma música que você gosta, coloque maquiagem, faça planos de férias, ligue para aquela pessoa com quem você não fala há tempos, pule na rua como uma criança, cumprimente um estranho na rua e permita-se ser feliz pra variar.
Reconheça que aquela raiva toda já tomou demais do seu tempo. Aos poucos ela vai desaparecer e vai dar lugar a algo muito melhor. A indiferença.
A hora de parar de sentir raiva é a hora de começar a se amar. E esta hora é sempre agora.

Notícias Relacionadas

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *