7 de julho de 2022
Erika Bento

O bem mais precioso

Ken e Shirleyhoje
A história de Ken e Shirley Morgan me fez pensar sobre o tempo, em como o gastamos e o que ele representa. Existe algo sobre o tempo que ouvimos desde muito jovens e, talvez por isso, o negligenciamos tanto: o tempo é a única coisa em toda a vida que nunca mais recuperamos. Não importa o que você ou eu façamos, o tempo não para, não volta atrás, só segue em frente, para um lugar inacessível, um buraco negro de onde tudo o que ele leva consigo também nunca mais voltará.
Ken e Shirley acabam de comemorar 60 anos de casamento. Seis décadas de amor, conquistas, tristezas, tudo o que uma vida a dois constrói. Para comemorar a data, Ken comprou para a esposa um ônibus. Não um qualquer, mas o mesmo ônibus em que eles se conheceram em 1956 quando ela, aos dezoito anos, era uma aspirante a condutora.

Ken e Shirley

Ken, na época um aviador da força aérea britânica, tinha vinte e dois anos quando a viu pela primeira vez em seu uniforme de condutora e se apaixonou por Shirley. Durante várias semanas, ele pegou o mesmo ônibus na esperança de ter coragem de falar com ela. A viagem de sessenta milhas entre Gloucester e Cardiff tornou-se o cenário de uma grande história de amor. Ken chegou a largar a força aérea e se tornar um condutor de ônibus para trabalhar ao lado dela e, três anos depois, eles se casaram. Com o tempo, Shirley se afastou do trabalho para cuidar dos filhos e Ken foi trabalhar na Pan-Am como engenheiro aeronáutico.
No ano passado, Ken viu em um museu um exemplar da frota em que Shirley costumava trabalhar. A curiosidade o levou a um colecionador que mantinha o exato veículo, que estava mais para uma sucata, nos fundos da sua casa. Após um ano de restauração (da qual Ken participou ativamente), Ken comprou o ônibus para a esposa. O “1949 Guy Arab” de dois andares fica, atualmente, mantido junto a outros veículos de patrimônio histórico de transporte de Barry, em Wales. Ken e Shirley passam horas passeando a bordo do veículo que os ajudou a construir uma história de vida juntos. Passeio que eles fazem questão de fazer a caráter, usando o uniforme da época inclusive o crachá de condutora. Shirley disse que sente “o mesmo orgulho de usar o crachá como o de usar a aliança de casamento”.

bus

O idioma inglês tem esta expressão interessante “to buy some time”, literalmente comprar um pouco de tempo, enquanto no nosso português dizemos “ganhar tempo”.  Na minha opinião, ambos estão errados. Tempo não se compra ou se ganha. Ele apenas passa e somente as lembranças ficam em nossa memória, o que até ela o tempo pouco a pouco se encarrega de eliminar. Talvez seja por isso que o gesto de Ken tenha me tocado tanto. Ele sabe, dolorosamente, que não existe nada que ele possa fazer para voltar no tempo e reviver momentos mágicos e felizes. Infelizmente, só nos damos conta disso quando percebemos que o tempo adiante de nós é menor do que o que deixamos para trás.
Por isso, para que o tempo que você gastou lendo este texto não seja perdido (como tantos outros em que passamos fazendo coisas que não nos acrescenta absolutamente nada), reflita em como você tem usado o seu tempo e lembre-se que, por mais dinheiro que você tenha, por mais jovem que você seja, o tempo gasto é perdido para sempre.
Assim como um prato de porcelana que uma vez quebrado, por melhor que seja o reparo, irá sempre ficar com aquela pequena cicatriz, o nosso corpo também. Você pode fazer cirurgia plástica para esticar a pele por mais algum tempo, mas ela inevitavelmente irá ficar flácida e enrugar. O tempo passa igual para todos, na mesma velocidade. Talvez seja a única coisa democrática no mundo. Portanto, use-o com sabedoria, saúde… e amor.
Leia a história de Ken e Sihirley Morgan aqui: http://www.dailymail.co.uk/news/article-3792901/Love-buses-Former-RAF-airman-s-gives-ex-bus-conductor-wife-double-decker-met-60-years-ago-anniversary-gift.html

Jornalista, foi repórter e apresentadora de telejornal por oito anos, atuando como editora e editora-chefe nas principais emissoras do país por mais de cinco anos. Jornalista por 15 anos. Atualmente radicada no exterior.

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