Cuidando do jardim

(Foto: O Jardim Secreto, Frances Hodgson Burnett, 1911)

“Por que a falta de barulho na rua me deixa mais desconfortável hoje do que ontem ou semana passada ou…há quanto tempo faz, mesmo? Meu Deus, já se passaram oito semanas desde que este muro invisível entre o mundo e eu foi instalado.”

Derivo em meus pensamentos olhando a monótona rua pela janela do meu quarto. Os carros parecem estar estacionados nas mesmas posições de ontem. Não me admira.

Continuo observando por mais um minuto ou dois. Nenhuma janela se abre, nenhum gato caminha preguiçosamente pelas calçadas. Nem sequer um pássaro me vem dar bom dia. Só as folhas nas arvores se agitam, embaladas pelo vento suave do sul. Estas sim parecem se divertir. Posso ouvi-las, faceiras com as amigas em seus vestidos verdes iguais.

Acho que nunca o balanço dos galhos me pareceu tão interessante.

Demoro a completar a pergunta que me fazia anteriormente, mas o persistente incômodo de uma ausência ainda a ser definida me remete ao meu ponto inicial.

“Por que? Seria apenas a falta dos sons cotidianos dos motores dos carros, do cortador de grama, dos vizinhos se cumprimentando ao longe, dos ronco dos aviões riscando o céu sobre a minha cabeça?”

Reflito…

“Qual o som que eu busco preencher este vazio sonoro? Não é um ruído cotidiano como o som da TV, de uma música, do latido de um cão ou até do choro de um bebê. Não… o som que eu busco é…”

Continuo a observar as folhas e me dou conta do óbvio.

Não é um som que eu busco.

Preferiria o puro silêncio a este zumbido branco que ocupou o espaço dos estímulos externos.

Fico zangada e frustrada.

Preferiria ver o semblante sisudo das pessoas a não ver seus rostos hoje ocultos por máscaras improvisadas. Preferiria ver dezenas de crianças nos parques a ver tão poucas em qualquer lugar. Preferiria disputar uma vaga no estacionamento ou um assento no ônibus para ir ao shopping a ver suas portas constantemente fechadas. Preferiria me aborrecer com adolescentes barulhentos nas ruas a vê-los cabisbaixos e amedrontados sem saber o que o futuro os reserva.

Não é o som da vida que me falta, mas o contato com ela.

Tenho um catálogo inteiro de emoções dentro do peito, histórias divertidas e inusitadas para contar. Tenho tantos sonhos ainda, que temo ter que fazer hora extra nesta vida para poder realizá-los. Quando caminho, sempre rio sozinha dos pensamentos hilários que passam entre os meus ouvidos. Recuso-me a desperdiçar tantas cores.

Enquanto o mundo permanece de portas fechadas, vou cuidando do meu jardim secreto para distribuir flores quando a estação chegar. Na verdade, secretamente, hoje mesmo já distribui algumas a pessoas que quero bem.

Você é uma delas e esta é a minha flor para você.

 

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