Brasil: amor e ódio

Quatro anos atrás, escrevi (aqui mesmo no Boletim) o que penso sobre o Brasil na Copa do Mundo e a postura dos brasileiros diante deste espetáculo milionário. Depois destes anos, mantenho a mesma opinião. Detesto Copa do Mundo. Detesto o patriotismo que invade o coração e o cotidiano brasileiro. Detesto ver a bandeira verde e amarela nas janelas das casas. Aqui da Itália, então, detesto ainda mais ver os torcedores brasileiros vestidos com as cores do Brasil. Toda esta aversão tem um simples motivo: onde estão os brasileiros que choram, que gritam, que torcem, que brigam, quando o PT usa o dinheiro público para campanha política, quando Tuma Junior negocia contrabando com a máfia chinesa, quando os escândalos políticos enchem as manchetes dos jornais? Onde está o patriotismo destes quase 190 milhões de brasileiros durante os outros dias, meses e anos fora da Copa do Mundo?

Mas, por outro lado, vivendo fora do Brasil, me vem um sentimento extremamente ambíguo que me deixa ainda com mais raiva. Detesto ver o meu país desta maneira exatamente porque o amo imensamente! Amo este povo que luta dia e noite por uma vida digna. Amo este país tão rico, tão lindo, com um clima tão maravilhoso! E é por amá-lo que não suporto ver o que estão fazendo a tudo isso. A este povo,que merece muito mais do que quatro dias de alegria no Carnaval ou um título de hexacampeão para sentir orgulho da sua pátria. Não suporto ver o imposto pago com suor e trabalho dessa gente sendo usado para pagar mordomias políticas, orçamentos superfaturados, luxo e mais luxo, campanhas políticas! E nada… absolutamente nada acontece aos que nos roubam dia após dia!

Detesto ver milhões de brasileiros tendo que receber um Bolsa Família para pode comer enquanto os cofres públicos nunca estiveram tão cheios. Detesto saber que, de tudo o que o país arrecada, somente 2% realmente volta para o país como investimento enquanto o restante é usado para pagamento de despesas (altíssimos salários, pensões e desvios). Detesto saber que o brasileiro poderia ter uma vida absurdamente mais digna se não fosse governado por sucessivos ladrões.

Portanto, na estréia de Dunga no mundial da África do Sul, eu torci contra. E vou continuar torcendo. Contra a corrupção, a injustiça, a falta de direitos, a censura e a conivência que governam o meu país! Torço contra este sentimento patriótico que, de concreto, não muda em nada o país. Como disse quatro anos atrás, é um sentimento que só nos afasta ainda mais do que importa neste momento: a realidade do país.

Sempre que a seleção brasileira entrar em campo, me desculpem, mas não vou usar verde e amarelo. Não vou soltar aquele grito de gol. Aliás, nem sei se vou assistir aos jogos. Talvez sim, como fiz durante Brasil X Coreia do Norte e emocionei-me com a garra dos norte-coreanos. País, aliás, que pode refletir o futuro do nosso Brasil caso o brasileiro continue a se interessar mais pelo futebol do que pelo próprio país.

artigo publicado em 18/06/2010

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