As Faces do Mal: Capítulo 9

livro2Capítulo 9

Enquanto Adrian permanecia no escuro de sua consciência, no dia seguinte, Anne ligou para Jesse e contou-lhe o ocorrido. Por um segundo, Jesse não soube o que fazer. Visitar Adrian poderia ser um agravante na relação já desgastada entre ele e Sophie, o que Anne fez questão de comentar com a amiga no final do dia.
— Jesse deve fazer o que achar melhor — falou Sophie. — Ele não me deve satisfação e muito menos temer a minha reação. Isso é ridículo — concluiu, continuando a vasculhar dentro do armário as roupas que levaria à Itália, em poucos dias. Sobre a cama, uma mala de tamanho médio, aberta e vazia. Ao lado da cama, cinco pares de sapatos.
— Sophie, o que está acontecendo?
— Nada, por quê?
— Olha pra você! — exclamou. — Essa agitação, fuçando na mesma prateleira pela terceira vez dentro do armário. — Anne desabou o corpo sobre a cama de Sophie. — Você não está, realmente, arrumando a sua mala, está? Agora?
Sophie suspirou. Não havia contado a Anne sobre a interferência na visão de Adrian e achou que deveria fazê-lo. Afinal, mais cedo ou mais tarde teria que contar. Sentou-se ao lado de Anne e contou-lhe tudo. Anne perdeu a fala, o que era difícil, mas por pouco tempo. Levantou-se, pegou o celular e ligou para Nancy.
— Você vai falar com a Dra. Nancy agora! — ordenou, e Sophie não discutiu.
A ligação foi atendida pela costumeira vez rouca da mensagem na caixa postal. Anne deixou recado para que Nancy ligasse imediatamente. Achou que se frisasse o “imediatamente”, receberia uma ligação em poucos minutos, mas não aconteceu. Nancy não retornou a ligação no sábado e nem no domingo. Souberam, então, através de John Barkley, que ela havia viajado para a Suécia atrás de uma
“informação importante para a sua pesquisa”, dissera ele em tom misterioso.
Na segunda feira, dia em que os médicos iriam retirar Adrian do coma induzido, Sophie chegou ao hospital por volta das oito da noite e viu Jesse parado no corredor com as mãos dentro do bolso da calça, conversando com um dos médicos que ela já conhecia. Aliás, Sophie já havia conversado com todos os médicos responsáveis por Adrian.
Sophie parou assim que o viu e recuou, decidida a não deixar que ele notasse a sua presença, mas quando estava para entrar no elevador, ouviu passos apressados atrás dela.
— Sophie, espere — falou uma voz ofegante para a qual ela não respondeu. — Sophie, espere! — insistiu a voz entrando em seus ouvidos, quente e muito próxima.
Ele apoiou uma das mãos sobre o seu ombro direito. Sophie virou-se para ele, sentindo o coração disparar ao vê-lo, com seus cabelos presos em um rabo de cavalo. Não pôde deixar de observar os seus olhos brilhantes castanhos claros e a sua boca contornada por uma barba de poucos dias. Podia sentir os pelos macios da barba na palma de sua mão, como fazia quando se deitavam, um de frente para o outro, depois de fazer amor. Enfiou as mãos no bolso da sua calça branca de linho e deixou-as ali, bem presas.
— Como você está? — perguntou ele.
— Estou bem — respondeu, com frieza.
— Anne me disse que você tem vindo todos os dias…
— É…
— Por que, Sophie? — perguntou, também colocando as mãos de volta nos bolsos laterais da calça marrom. Jesse usava uma camisa cor palha que Sophie reconheceu de imediato. Fora um presente seu, num daqueles dias que não têm nada de especial, apenas o desejo de presentear quem se ama. Desviou os olhos da camisa.
— “Por que”, Jesse? Que pergunta mais besta — respondeu, virando-se de costas e apertando o botão do elevador, novamente.
— Precisamos conversar — afirmou ele, pegando-a delicadamente pelo braço e puxando-a para longe de uma família que se aproximava. Ela não relutou. Caminharam cerca de dez metros e Jesse continuou. — Anne me contou tudo sobre a visão, o seu sentimento de culpa e…
— Você não entende — interrompeu, sentindo uma bola crescer em sua garganta. Sentia-se frágil diante dele como se finalmente pudesse desmoronar e cair nos braços de alguém.
— Então me explique porque realmente eu não entendo. Eu sei do email que você mandou, mas ele não é o cara — Sophie olhou-o, confusa.
— Como assim? — de repente, o mundo parou à sua volta.
— Eu li o email. E antes que você queira executar a Anne por isso, saiba que fui eu, de novo, quem praticamente extraiu tudo dela. E ainda bem que eu fiz isso porque posso te dizer, com toda certeza, de que o tal Joseph pra quem você mandou aquele email, não tem nada a ver com o namorado dela. Ele se chama Joseph sim, mas é dono de uma empresa de transportes em Kent!
— Empresa de transporte em Kent? — repetiu, só para ter certeza.
— Sim. O cara antes dele também se chamava Joseph e era diretor de uma empresa qualquer, mas o lance acabou em pouco tempo. Não me pergunte quanto tempo, só sei que depois surgiu este outro cara que, por coincidência, também se chamava Joseph.
— Então o cara para quem eu mandei o email não é o namorado, mas será que pode ser o ex-namorado?
— Não sei. Mas se for, a única coisa que pode ter acontecido é o cara ter descoberto que a ex dele manda emails e fotos para um sujeito qualquer. Não acho que isso seja motivo para mandar dois caras surrá-la até quase a morte.
— Quem será então e por que?
— Não faço ideia…
— No que será que ela estava envolvida…
— Sinceramente, eu não sei.
— Com o que ela estava trabalhando?
— Acho que com uma amiga, sobre eventos ou algo assim. Eu não sei.
O alívio que sentia em sua culpa libertou Sophie. Agora, poderia sentir aquela raiva avassaladora de Adrian, novamente. Esperou que o sentimento viesse, mas nada aconteceu. Ao menos não imediatamente. Difícil dizer se voltaria já que Adrian continuava em um leito de hospital com várias costelas quebradas, um rim a menos, vários dentes quebrados, além do nariz e do cotovelo fraturados. Por sorte, muita sorte, a violência sexual não fora concretizada. Algo a ver com uma joelhada no saco e uma cabeçada no nariz? Talvez quando Adrian voltasse do coma, pudesse esclarecer por que os agressores fugiram de repente.
— Olha… — murmurou Jesse, passando os dedos pela testa, tenso — eu vim aqui para saber notícias dela porque, de alguma maneira, sinto-a como uma amiga. — Sophie esboçou um sorriso debochado. Amiga? Depois de tudo o que ela fez? Pensou Sophie, sem dizer uma só palavra. — E, também, porque Anne me disse que você estaria aqui neste horário. Eu preciso falar com você, Sophie — pediu, segurando-a pelos braços, delicadamente. Sophie apertou os lábios.
— Como ela está? — perguntou Sophie, olhando para o corredor onde Jesse conversava com o médico. Preferia falar sobre a saúde de Adrian do que dar corda no assunto que Jesse queria entrar.
— Estável. Vão tirá-la do coma amanhã, no final da tarde.
— Eu não estarei aqui. Não voltarei mais a vê-la — afirmou, decidida a esquecer daquele episódio. — Por favor, não mencione o meu nome quando a vir, está bem? Não quero que ela saiba de nada do que aconteceu. Do email, eu quero dizer. E da visão… enfim, nada.
— Tudo bem, não vou falar nada. Eu entendo que você não queira mais vê-la, mas você sabe que está ligada a tudo isso, não sabe? Falo da investigação…
— Sim, eu sei. Mas vou falar com o Paul sobre isso. Não quero que o meu nome apareça.
— Eu não conheço nada sobre investigação policial, mas acho que, se tiver um julgamento, você terá que colocar a cara, não acha?
— Não sei… Pode ser que encontrei vestígios de DNA deles nela, sei lá. Tem outras maneiras, eu acho — respondeu, baixando o tom de voz, sentindo um cansaço característico do baixar da adrenalina. — Olha, Jesse, estou mesmo muito cansada. Vou pra casa.
— Posso passar por lá mais tarde?
— Não — respondeu, imediatamente. — Nada mudou, Jesse. Nada — olhou em seus olhos, o que estava evitando desde que o encontrara, e forçou-se a não sentir nada. — A Adrian ter sido atacada não muda o fato de você e ela terem me traído. Simples assim, está bem? Não tente misturar as coisas. Mesmo que eu perdoe as suas imbecilidades, mesmo que no pesar da balança todas as coisas boas que tivemos sejam maiores do que a estupidez da sua relação com ela eu jamais confiarei em você novamente. E pra falar a verdade — encarou-o profundamente —, este nem é o maior dos problemas. A decepção, Jesse, é o pior. É algo corrosivo e à prova de amor — concluiu, deixando-o sozinho, sem palavras para combater as suas.
Ele apenas baixou a cabeça sentindo o coração ser arrancado pela raiz. O mesmo sentia Sophie, mas ela sabia que, uma vez ferida, os sentimentos positivos começavam a escorregar em uma queda livre impossível de ser contida.
Às nove da noite, o trânsito fluía com tranquilidade e Sophie analisava os próprios conflitos no caminho de volta para casa. Por um instante, pensou em se afastar da investigação policial, uma vez que nada daquilo havia acontecido por sua culpa. Foda-se, não devo nada a ela, pensou, não reconhecendo a sua própria voz. Que tipo de pessoa viraria as costas à possibilidade de colocar atrás das grades animais como os que atacaram e quase estupraram uma jovem?
Chegando a casa, sentiu-se aliviada ao ver tudo às escuras. Correu para o seu quarto e não respondeu ao chamado de Thomas. Mesmo que ele pudesse lhe dar alguma pista sobre a visão com os médicos, aquilo ficara anos luz de distância dos seus interesses. Naquele momento, ela só pensava em falar com uma pessoa: Nancy. E o fez, imediatamente.
Sophie mal sabia como atualizá-la sobre os últimos acontecimentos. Pouco a pouco, passou-lhe uma descrição de tudo sem poupar nenhum detalhe, inclusive, sobre os primeiros exames médicos que Brandon solicitara, cujos resultados haviam sido normais até o momento. Para a sua surpresa, Nancy não se mostrou tão preocupada com as suas perdas de consciência quanto Brandon.
— Ele está certo em fazer todos os exames, mas eu acredito que, pelo menos fisicamente falando, você não tem qualquer problema. — Nancy deu uma longa pausa, inspirando profundamente e Sophie percebeu aquele momento que antecede a uma notícia ruim. Achou melhor contar-lhe sobre a evolução em suas visões depois que Nancy terminasse. — Isso pode chocar você, minha criança, mas acredito que a sua perda de consciência tenha sido deliberada. — Sophie tentou dizer alguma coisa, mas nada saiu. — Sophie, querida, você está aí?
— Sim — respondeu quase num suspiro.
— Não precisa se preocupar. A amnésia psicogênica é amplamente conhecida. — Amnésia Psico-o-que? Devo acrescentar mais esta à minha lista de problemas? Falava consigo mesma. — Normalmente acontece a pessoas que sofreram um grande trauma. Elas se esquecem de fatos antes ou depois do incidente, como forma de proteção. No seu caso, depois da separação com Jesse, você se sentiu dividida entre agir racionalmente e agir emocionalmente. Estou errada? — Sophie não respondeu de imediato, mas reconheceu suas próprias palavras na última conversa que tivera com Anne.
— É, acho que não.
— Pois bem. Em outras palavras, você queria prejudicar Adrian, feri-la, acabar com ela, mas não podia admitir fazê-lo. Então, você o fez, mas apagou da sua mente porque se sentia envergonhada demais.
— E quanto à cópia do email que eu coloquei no quarto da Anne, o que foi aquilo?
— Uma forma de ser descoberta — respondeu Nancy como se fosse de uma obviedade notória. Sophie balançou a cabeça.
— Eu sempre ouvi falar que psicopatas, no fundo, querem ser pegos. É isso que a senhora está me dizendo?
— Bem, tirando o termo psicopata, sim, é mais ou menos isso — Sophie largou o corpo e sentou-se na cama.
— As pessoas comuns não fazem isso, Dra. Nancy. Não cometem loucuras e depois se esquecem de propósito e, por algum motivo ainda mais maluco, denunciam a si mesmas para que sejam descobertas. Não faz sentido algum!
— A maioria realmente não faz isso, mas algumas pessoas sim. Principalmente as que enfrentaram um grande trauma.
— Pelo amor de Deus, foi uma porcaria de uma traição, isso não é um trauma! — exclamou, mais querendo gritar com si mesma do que com Nancy.
— Já falamos sobre isso, Sophie. A decepção pode ser uma ferida muito profunda e perigosa que pode gerar, como você bem está vendo, atitudes drásticas.
— Isso é loucura…
— Eu não colocaria nestas palavras, mas… sim e não. É sério porque a sua mente conseguiu driblar a sua racionalidade e agir sem um julgamento ético do certo e errado. Isso precisa ser analisado com seriedade para detectarmos a sua profundidade. — Sophie, por um segundo pensou em algo e, embora lhe parecesse ainda mais absurdo, arriscou a dizê-lo do mesmo jeito.
— Estamos falando de uma possível dupla personalidade?
— Estamos muito longe de um transtorno dissociativo, mas ouça com atenção. Eu quero que você fique atenta a qualquer lapso de memória, está bem?
— Sim — respondeu, obediente.
— Muito bem. Agora, eu quero que você me diga, sem rodeios, com quais sentimentos você está lidando?
Sophie tentou não pensar na mais nova versão feminina do Dr. Jekyll e Mr. Hyde e procurou ser honesta, não somente com a sua terapeuta, mas consigo mesma. Falou sobre o rancor do início, o desejo de se vingar de ambos e, mais recentemente, da culpa, o que Nancy classificou como um sentimento positivo.
— Demonstra que você está longe de ser uma psicopata — zombou. — Falando sério, Sophie, às vezes, a melhor maneira de sair de um estado de confusão é enfrentar aquilo que se pensa ser o objeto de desejo. Alguns suicidas, por exemplo, se dão conta do quão absurdo era a vontade de se matar quando se veem a minutos de saltar da ponte. No seu caso, você se deu conta de que não queria realmente machucar Adrian quando a viu sendo atacada.
— Sim, eu entendo — concordou, sentindo, pela primeira vez em várias semanas, que a espessa névoa à sua frente começava a se dissolver. — Entendo de verdade — finalizou, sem sentir a menor vontade de contar a Nancy sobre o quanto ela interferira, fisicamente, na visão, o que praticamente salvara Adrian de um estupro, ou coisa ainda pior.
— Agora, você precisa descansar — disse Nancy, seguindo por uma lista de conselhos antes que Sophie se despedisse e desligassem o telefone.
Sophie olhou à sua volta e suspirou. Já havia enfrentado tantas coisas e ainda estava de pé. Vamos lá, menina, você vai superar mais essa. Falou para si mesma, como imaginava que uma mãe faria. Sorriu. Levantou-se e foi ao banheiro preparar um belo banho de banheira fresco.
Ficou ali deitada, olhando para o teto branco e anônimo, desejando que sua mente fosse igualmente vazia. Fechou os olhos tentando organizar ansiedades, culpas, tristezas, medos, angustias e todas estas merdas que transformam uma vida simples em uma pirâmide de emoções. Ela queria, definitivamente, levar uma vida menos complicada. Aceitar tudo o que havia de bom e ruim sem questionamentos. Simplesmente baixar a guarda, relaxar e deixar que a vida fluísse por ela.
Será que isso é possível? Pensou enquanto passava a esponja sob uma espessa camada de espuma em seu braço sentindo que, possível ou não, ela poderia ao menos tentar. Começando por esvaziar a sua mente. Apertou a esponja entre os dedos fazendo a espuma sair suavemente. Observou as bolhas de sabão multi coloridas pairando sobre a espuma, deixou o cheiro de lavanda invadir os seus sentidos e, fatalmente, o que Sophie menos desejava, aconteceu. Foi levada diretamente a um lugar já conhecido. Estava, novamente, atrás da porta daquele corredor hospitalar. Só que, desta vez, ao tocar a maçaneta, pôde não somente sentir, mas ver o que de tão diferente havia naquela sensação: os dois últimos dedos da mão direita haviam sido amputados ou talvez fosse um defeito de nascença. Esta era a razão de Sophie sentir algo diferente ao tocar a maçaneta. Podia sentir a frieza do metal sobre as duas articulações dos últimos dedos e isso, definitivamente, era inédito para ela. Embora fosse apenas um detalhe, agora havia pelo menos uma breve descrição da pessoa que, aparentemente, ouvira aquela conversa.
Uma fina descarga elétrica percorreu o corpo de Sophie trazendo-a de volta à banheira. Levantou-se, rapidamente, enrolou-se na toalha e chamou por Thomas, mas ele não respondeu. Eram quase meia noite e ela insistiu. Nada. Uma hora depois, quando ela quase pegava no sono, ele a chamou, aflito.
— Claire, sei que é tarde para você, mas eu acho que sei do que a sua visão se trata — Do que você está falando? — perguntou Sophie tentando sair da sonolência. — A mãe de Amy, Claire. — Sophie demorou a entender. — A mãe de Amy? Mas ela morreu de câncer, o que isso tem a ver? — Não. Ela morreu de uma complicação em uma cirurgia para a retirada de um tumor no intestino. É bem diferente de morrer de câncer. — Sophie sentiu-se desperta. — Ok. Sou toda ouvidos. — Eu não tinha me ligado nisso porque aconteceu tudo tão rápido e eu não tinha todas as informações, mas agora eu tenho. Está preparada? — Fala logo! — Ok. Bom, logo depois que o diagnóstico do tumor foi feito, levaram-na quase em seguida para a sala de cirurgia, lembra? — Sim, eu me lembro… — Depois da cirurgia, os médicos disseram que não tinha muito a fazer e menos de uma semana depois, ela morreu ainda no hospital. Agora é que vem a parte interessante. Depois de passado o choque, o pai da Amy começou a questionar os médicos sobre o que realmente tinha acontecido e eles se comportaram de um modo muito estranho. Nem eu e nem a Amy sabíamos disso, mas dois dias atrás o Sr Abbott falou com a Amy sobre as suspeitas dele e ela me contou ontem. Fui com ela ao hospital e você não vai acreditar. — Fala logo, pelo amor de Deus! — Os médicos que participaram da cirurgia são muito parecidos com a descrição que você me passou. — A voz de Thomas era angustiada.
Só podia ser isso, pensou Sophie. Ela sabia que tinha que haver alguma ligação entre ela e a visão, só não sabia qual até agora: era Amy. Acomodou-se na cama com as costas totalmente eretas, sentindo como se todos os seus sentidos, de repente, se conectassem. Seu corpo todo vibrava em uma excitação particular.
— Tommy, alguém sabe o que aconteceu com a mãe da Amy e, por algum motivo, está escondendo o jogo, eu tenho certeza disso. Talvez para proteger o médico. — Ou proteger a si mesmo — corrigiu ele. — Você tem ideia do que é testemunhar contra um médico? — continuou ele. — Ainda mais se esta pessoa for outro médico ou, pior, um funcionário comum? — Só então Sophie se lembrou de contar sobre a descoberta dela. — Tommy, quase me esqueço de te contar! Tenho uma informação para você, também. A pessoa que viu a conversa não tem os dois dedos da mão direita. — Thomas se calou e um imenso vazio surgiu na conexão mental entre eles. — Você conhece alguém assim neste hospital? — Não, mas não deve ser difícil descobrir. — O silêncio se estendeu por alguns segundos, sendo quebrado por Sophie que explicou a Thomas como chegara àquela conclusão. —
Você é incrível. — Thomas, estamos falando da mãe da sua namorada! Não tem nada de incrível nisso, é terrível! — Eu sei, eu sei… Vou conversar com a Amy e nos falamos depois. — Você vai contar a ela sobre nós? — Acho que não tem outro jeito, tem? — É. Acho que não… — Embora Thomas e Amy estivessem juntos já há nove meses, Sophie se preocupava até que ponto ela entenderia a telepatia entre eles e até onde a garota estaria disposta a acreditar.
Sophie perdeu o sono e desceu até a cozinha, sentindo-se desperta e inquieta. Encontrou Anne na sala, organizando documentos de viagem e mapas, embora já fosse quase uma da manhã. Estavam há duas semanas da viagem e isso era perto o suficiente para Anne começar a se preocupar, já que os preparativos ainda não estavam prontos.
Os olhos tensos de Sophie não lhe passaram despercebidos e apenas o levantar de sobrancelhas de Anne bastou para Sophie lhe contar sobre a visão com os médicos. Anne ficou irritada ao saber que ela havia ocultado aquilo por tantos dias, mas acabou por perdoá-la, devido a tudo o que acontecera.
Elas passaram duas horas colocando as peças daquela história toda no lugar, sentindo-se tocadas pela dor que seria para Amy e o pai dela caso os médicos, realmente, tivessem causado a morte daquela mulher. Era uma situação totalmente diferente da que tanto Anne quanto Sophie haviam vivido.
Anne perdera os pais em um acidente de carro e Sophie perdera a mãe por um derrame que também a levara a um acidente. Eram fatalidades, ou na perspectiva de Sophie, merdas da vida. Com Amy, entretanto, seria diferente. Um erro ou uma negligência teria causado a morte prematura da sua mãe. Como conviver com isso? Tentavam chegar a uma conclusão quando Sophie ergueu a mão calando Anne na mesma hora.
— Claire, estou com a Amy agora — disse Thomas. — E como ela está? Você contou a ela sobre nós? — Sim — respondeu ele com uma voz um pouco tensa. — Bom, foi meio estranho porque eu tive que convencê-la de muitas coisas, em primeiro lugar de que telepatia existe e que existem níveis em que as pessoas podem, realmente, ter uma conversa e tal. — Tipo a gente… — Como ela não estava muito interessada no assunto, tive que forçar um pouco a barra e disse “e se eu te contar que eu e a Claire conversamos por telepatia?” — E aí? — Dá pra imaginar a cara dela, né. Primeiro, achou que eu estava zoando com ela. Depois de eu lhe contar algumas coisas, como por exemplo, como foi que nos encontramos a primeira vez, ela passou a ver que eu estava falando sério. Pra resumir, ela quer que a gente prove a ela, agora. — Provar? — Pois é. Eu sei que é meio chato te pedir isso, mas… Pôxa, acho que dá pra entender, não acha? —
Sophie sentiu-se desconfortável, mas tinha que fazê-lo, por Thomas. — Ok. Como podemos fazer isso? — Na verdade, ela tem uma pergunta pra você. — Sophie suspirou. Isso poderia até se tornar divertido. Enquanto conversava com Thomas, atualizava Anne sobre tudo. — Pode falar. — Ela quer que você me diga sobre o que vocês conversaram quando estavam no carro indo para a casa dela, na noite de Natal. — Sophie sorriu. Foram dias maravilhosos e não precisou pensar muito para saber do que Amy estava falando. Ela dera muita risada sobre aquilo. —
Conversamos sobre a Xena! — Sophie riu e depois continuou — Ela me disse que se eu tivesse olhos azuis, seria igualzinho a ela e começamos a falar sobre as heroínas dos seriados de televisão. — Meu Deus, a Xena? — indagou Thomas, incrédulo. — Pois é. — Mas sabe que ela tem razão? Você não é tão grandalhona, mas até que lembra um pouco. — Ah, Thomas, não me irrita, vai. —
Thomas ficou em silêncio por alguns instantes, Anne, que também não sabia sobre a conversa sobre a Xena, também deu risada e logo Thomas voltou. — Acho que ela acredita, agora. Você tinha que ver a cara dela. — Diz que estou mandando um beijo. — Recado dado. — Me conta como ela está, quero dizer, sobre a visão, os médicos e tudo mais. — Bom, ela ficou bem desconcertada com a possibilidade de a mãe ter sido vítima de um erro médico. — Coitadinha, estava conversando sobre isso com a Anne. — Mas a Amy é forte e agora está decidida a descobrir toda a verdade, com a nossa ajuda.
Sophie sentiu-se tocada. Se pudesse, teria escolhido não ter visto nada para que Amy nunca tivesse que enfrentar aquilo, mas ela vira e, infelizmente, envolvia Amy.
— O que eu puder fazer, Tommy. É só me falar e, por favor, peça desculpas a Amy por mim. — Por que? Você não fez nada de errado. — Talvez eu tenha feito. Talvez eu tenha dado a certeza a ela de algo que, no fundo, ninguém quer saber, quer? — Thomas e Sophie se despediram pouco depois, ao mesmo tempo em que Sophie falava com Anne sobre a reação de Amy à visão.
— Vamos torcer para que eles encontrem esta testemunha e que ela ajude de alguma maneira, mas cá entre nós — murmurou Anne —, acho muito difícil. Se esta pessoa quisesse mesmo falar alguma coisa, já teria procurado a família, não acha? Faz mais de um mês que a mãe dela morreu.
— Pode ser ou, talvez, precise de um empurrãozinho. — Anne ergueu uma sobrancelha. — Esta pode ser a chance para esta pessoa aliviar a própria consciência.
— Você acha que ele ou ela sente algum remorso por nunca ter dito nada?
— Ah, pode apostar — afirmou. — Se não fosse assim, por que, depois de tanto tempo, essa pessoa ainda pensa nisso com tanta intensidade? — Anne estreitou os olhos. — Pense bem. Eu não conheço essa pessoa, certo? — Anne assentiu. — Mas, mesmo assim, tive uma visão com ela. A única ligação entre nós duas é a Amy. Se ela não pensasse tanto nisso, não teria chegado até a mim.
— Eu só espero que tudo isso termine bem.
Sentiram-se impotentes e vazias, enquanto o ponteiro do relógio ia saltando os minutos. Finalmente, pouco depois das três da manhã, decidiram dormir.
No dia seguinte, Anne visitou Adrian no hospital, mas não pôde falar com ela. Adrian ainda estava sob o efeito de fortes analgésicos após uma cirurgia no maxilar e no nariz.
A polícia havia liberado os dois rapazes no dia anterior e esperava que Adrian pudesse lhes dar uma descrição detalhada dos agressores, mas ela não pôde. Além das limitações físicas, Adrian não se lembrava de nada do que havia acontecido.
— Amnésia psicogênica… — murmurou Sophie quando Anne terminou de lhe dar as notícias.
— Amnésia o que?
— Conversei com a Dra. Nancy, ontem no início da noite. Esqueci de te contar — foi o máximo de pedido de desculpas que Sophie lhe deu e, para encurtar a conversa, resumiu rapidamente as explicações que Nancy lhe dissera.
— Você estava certa, então… E não dá pra saber se vai acontecer de novo?
— Acho que não, mas espero que não aconteça — disse Sophie, mexendo distraidamente na pasta de documentos para a viagem que Anne organizara tão bem na noite anterior.
— E quanto a Adrian?
Sophie deu de ombros.
— Ela deve começar a se lembrar logo, espero.
— Você não vai mesmo visitá-la mais?
— Pra que?
— Sophie, ela precisa saber que foi você que…
— Não precisa não. Não tem motivo.
— É… Acho que você tem o direito de decidir isso, mas e quanto àqueles marginais? Era para eles estarem atrás das grades, já. Quando você vai depor? — Sophie esfregou as mãos no rosto.
— Eu esperava que não fosse preciso. Esperava que a polícia pudesse levar a foto deles e simplesmente pedir que Adrian apontasse com o dedo, que os reconhecesse de um jeito simples, mas eu não contava com a amnésia dela. Ou, sei lá, que encontrassem DNA deles no corpo dela. Mas acho que isso acontece só em filme. Que merda.
— A gente não pode se esquecer de que ela foi imediatamente levada para o centro cirúrgico. Sei lá, devem ter limpado ela, vai ver por isso não tem DNA nenhhum. — Anne torceu os lábios. — Então, você vai depor?
— Acho que não tem outro jeito, tem?
— E aí ela vai saber a verdade, que foi você quem…
— Eu sei — concluiu Sophie. Suspirou e mudou de assunto, ainda mexendo nos papéis dentro da pasta. — Pelo jeito está tudo pronto para a viagem, não é? Passagens, mapas, roteiro…
— Acho que sim — respondeu Anne, secamente. — E o Jesse?
— O que tem ele? — foi a vez de Anne dar de ombros.
— Nada, eu só pensei que, sei lá… — Sophie revirou os olhos e virou-se, caminhando em direção à escada, acenando para a amiga. Anne sorriu e balançou a cabeça.
Os dias se arrastavam sem mudanças, para angustia de Sophie. Adrian recuperava-se lentamente e sua memória continuava congelada. Na semana seguinte, Jesse ligou para ela no trabalho, já que não conseguia contato pelo celular.
— Ah, Jesse, é você?
— Sim, desculpe te ligar no trabalho, mas eu queria muito falar com você e já que o meu número está bloqueado no seu aparelho, não tive outra saída.
— E o que você tem de tão importante pra falar?
— Quando vocês viajam?
— Sábado.
— Daqui a quatro dias…
— Isso mesmo. Por que?
— Pensei que pudéssemos almoçar antes disso. Acho que está na hora de definirmos a nossa situação, não acha?
— Já não está definida?
— Está? — Sophie fechou os olhos. Não poderia mais fugir da situação. Sentia falta de Jesse, precisava dele, mas seria capaz de conviver com a falta de confiança?
— Por mim, está. Adeus, Jesse. Seja feliz e me esqueça — e desligou, ficando no vazio da sua teimosia.
O celular de Sophie tocou e ela atendeu, imediatamente, sabendo que não era Jesse, o que não chegou a ser um alívio.
— Oi Paul, algum problema?
— Oi querida. Eu não diria “problema”, mas o pessoal da delegacia quer que você preste um depoimento. Você não é obrigada a ir, embora seja considerada testemunha ocular, mas é você quem decide.
Sophie soltou o corpo na cadeira.
— Paul, você acha que o meu depoimento vai fazer alguma diferença?
— Para ser sincero, não, não acho. É facilmente derrubado num tribunal e a polícia sabe disso.
— Então, o que eles querem comigo?
— Apenas formalizar o ocorrido e ver se você se lembra de mais alguma coisa.
— Eu me lembrar? Quem perdeu a memória foi a Adrian, não eu — disse, esgotada. — Desculpe, Paul, mas se não vai adiantar nada eu prestar este depoimento, eu prefiro não ir. Não vou me expor à toa.
— Tudo bem. Eu já esperava por isso e a polícia também. Avisei a eles que você era durona — Sophie sorriu aliviada. — E, por falar em durona, Anne está programando algo para o aniversário dela? Queria convidar vocês para a festa de um ano da nossa pequena Sophie. Sei que não é o momento certo de falar sobre isso, mas sei também que vou acabar me esquecendo de convidar vocês e nunca me perdoaria por isso.
Fazia tempo que ela e Anne não visitavam Paul e há pelo menos dois meses não viam a neta dele, que também recebera o nome de Sophie em homenagem a ela. A menina nascera no mesmo dia do aniversário de Anne.
— Ah, Paul, eu vou com prazer, mas temo que Anne não possa ir. Nós vamos à Itália no domingo e vamos ficar por lá duas semanas. Depois, Anne segue viagem com Brandon. Vai passar o aniversário no Caribe.
— Ah, será uma pena não termos as duas conosco, mas espero por você então, certo?
— Com certeza — afirmou com um entusiasmo forçado.
Sophie amava Paul e a família dele, mas naquele momento não estava para festas, ainda mais vendo o volume de trabalho se acumulando em sua mesa. Tinha apenas dois dias para fechar a edição da semana e ainda tinha centenas de fotos para revisar.
Na hora do almoço, desceu rapidamente para um lanche e percebeu que o rapaz que substituíra Caroline Johnson já não estava mais na recepção. Em seu lugar estava uma jovem indiana. Sophie a viu de costas e os longos cabelos negros lhe remeteram a lembranças indesejadas. Passou rapidamente pela recepção sem ser notada.
O dia transcorreu rapidamente e Sophie espantou-se com a própria eficiência. Mal pensara em Adrian, em Jesse, na sua perda de memória, em Ashley ou sequer na viagem. Apenas trabalhou e, quando cruzou o saguão no final do dia de trabalho, sentia-se exausta, mas satisfeita consigo mesma. Ao menos, naquela tarde, a vida apenas fluiu, como desejara.
Eram sete da noite, o dia ainda estava claro e o sol mantinha a cidade colorida, viva e quente. Colocou os óculos escuros, trocou os sapatos de salto por uma sapatilha confortável que sempre carregava na bolsa e decidiu pegar a trilha a pé pelo rio Tamisa. A caminhada seria de pouco mais de seis quilômetros, mas sempre valia a pena.
O dia estava luminoso e a vista à beira do rio, em alguns trechos, dava-lhe uma sensação de ser transportada a outro lugar, outro mundo; silencioso e pacífico. Às vezes, ela simplesmente se sentava próximo ao lado norte do Greenwich Foot Tunnel e ficava observando as embarcações indo e vindo, as pessoas caminhando no pequeno parque atrás dela. Naquele dia, porém, seu passeio não chegaria nem até lá. Anne ligou quando Sophie sequer chegara à metade do caminho.
— Você já saiu do trabalho?
— Já. O que houve?
— É a Adrian. Ela começou a se lembrar.
— E do que exatamente ela se lembrou? — Sophie parou de caminhar em frente ao píer Canary Wharf.
— São ainda alguns flashes, mas a polícia está indo para lá com as fotos dos suspeitos para ver se ela consegue reconhecê-los.
— Tomara que sim — suspirou.
— Olha, estou a caminho de casa. Que tal te pegar e a gente vai fazer alguma coisa pra relaxar? O que acha?
— Estava planejando caminhar até em casa, mas… Tudo bem — por alguma razão Sophie perdera a vontade de caminhar. Tinha a sensação de que algo aconteceria em breve e não ia querer estar parada do outro lado do rio quando − o que quer que fosse − acontecesse.
Anne levaria quinze vinte minutos para chegar até ela. Sophie olhou para o rio e teve a sensação de que até mesmo a correnteza havia dado um suspiro antes de retomar o seu curso. Uma pausa para contemplar Sophie pela última vez antes que ela entrasse em mais uma tempestade.
Os “trovões” começaram quando mais tarde, já em casa, o celular de
Capítulo 9
Enquanto Adrian permanecia no escuro de sua consciência, no dia seguinte, Anne ligou para Jesse e contou-lhe o ocorrido. Por um segundo, Jesse não soube o que fazer. Visitar Adrian poderia ser um agravante na relação já desgastada entre ele e Sophie, o que Anne fez questão de comentar com a amiga no final do dia.
— Jesse deve fazer o que achar melhor — falou Sophie. — Ele não me deve satisfação e muito menos temer a minha reação. Isso é ridículo — concluiu, continuando a vasculhar dentro do armário as roupas que levaria à Itália, em poucos dias. Sobre a cama, uma mala de tamanho médio, aberta e vazia. Ao lado da cama, cinco pares de sapatos.
— Sophie, o que está acontecendo?
— Nada, por quê?
— Olha pra você! — exclamou. — Essa agitação, fuçando na mesma prateleira pela terceira vez dentro do armário. — Anne desabou o corpo sobre a cama de Sophie. — Você não está, realmente, arrumando a sua mala, está? Agora?
Sophie suspirou. Não havia contado a Anne sobre a interferência na visão de Adrian e achou que deveria fazê-lo. Afinal, mais cedo ou mais tarde teria que contar. Sentou-se ao lado de Anne e contou-lhe tudo. Anne perdeu a fala, o que era difícil, mas por pouco tempo. Levantou-se, pegou o celular e ligou para Nancy.
— Você vai falar com a Dra. Nancy agora! — ordenou, e Sophie não discutiu.
A ligação foi atendida pela costumeira vez rouca da mensagem na caixa postal. Anne deixou recado para que Nancy ligasse imediatamente. Achou que se frisasse o “imediatamente”, receberia uma ligação em poucos minutos, mas não aconteceu. Nancy não retornou a ligação no sábado e nem no domingo. Souberam, então, através de John Barkley, que ela havia viajado para a Suécia atrás de uma
“informação importante para a sua pesquisa”, dissera ele em tom misterioso.
Na segunda feira, dia em que os médicos iriam retirar Adrian do coma induzido, Sophie chegou ao hospital por volta das oito da noite e viu Jesse parado no corredor com as mãos dentro do bolso da calça, conversando com um dos médicos que ela já conhecia. Aliás, Sophie já havia conversado com todos os médicos responsáveis por Adrian.
Sophie parou assim que o viu e recuou, decidida a não deixar que ele notasse a sua presença, mas quando estava para entrar no elevador, ouviu passos apressados atrás dela.
— Sophie, espere — falou uma voz ofegante para a qual ela não respondeu. — Sophie, espere! — insistiu a voz entrando em seus ouvidos, quente e muito próxima.
Ele apoiou uma das mãos sobre o seu ombro direito. Sophie virou-se para ele, sentindo o coração disparar ao vê-lo, com seus cabelos presos em um rabo de cavalo. Não pôde deixar de observar os seus olhos brilhantes castanhos claros e a sua boca contornada por uma barba de poucos dias. Podia sentir os pelos macios da barba na palma de sua mão, como fazia quando se deitavam, um de frente para o outro, depois de fazer amor. Enfiou as mãos no bolso da sua calça branca de linho e deixou-as ali, bem presas.
— Como você está? — perguntou ele.
— Estou bem — respondeu, com frieza.
— Anne me disse que você tem vindo todos os dias…
— É…
— Por que, Sophie? — perguntou, também colocando as mãos de volta nos bolsos laterais da calça marrom. Jesse usava uma camisa cor palha que Sophie reconheceu de imediato. Fora um presente seu, num daqueles dias que não têm nada de especial, apenas o desejo de presentear quem se ama. Desviou os olhos da camisa.
— “Por que”, Jesse? Que pergunta mais besta — respondeu, virando-se de costas e apertando o botão do elevador, novamente.
— Precisamos conversar — afirmou ele, pegando-a delicadamente pelo braço e puxando-a para longe de uma família que se aproximava. Ela não relutou. Caminharam cerca de dez metros e Jesse continuou. — Anne me contou tudo sobre a visão, o seu sentimento de culpa e…
— Você não entende — interrompeu, sentindo uma bola crescer em sua garganta. Sentia-se frágil diante dele como se finalmente pudesse desmoronar e cair nos braços de alguém.
— Então me explique porque realmente eu não entendo. Eu sei do email que você mandou, mas ele não é o cara — Sophie olhou-o, confusa.
— Como assim? — de repente, o mundo parou à sua volta.
— Eu li o email. E antes que você queira executar a Anne por isso, saiba que fui eu, de novo, quem praticamente extraiu tudo dela. E ainda bem que eu fiz isso porque posso te dizer, com toda certeza, de que o tal Joseph pra quem você mandou aquele email, não tem nada a ver com o namorado dela. Ele se chama Joseph sim, mas é dono de uma empresa de transportes em Kent!
— Empresa de transporte em Kent? — repetiu, só para ter certeza.
— Sim. O cara antes dele também se chamava Joseph e era diretor de uma empresa qualquer, mas o lance acabou em pouco tempo. Não me pergunte quanto tempo, só sei que depois surgiu este outro cara que, por coincidência, também se chamava Joseph.
— Então o cara para quem eu mandei o email não é o namorado, mas será que pode ser o ex-namorado?
— Não sei. Mas se for, a única coisa que pode ter acontecido é o cara ter descoberto que a ex dele manda emails e fotos para um sujeito qualquer. Não acho que isso seja motivo para mandar dois caras surrá-la até quase a morte.
— Quem será então e por que?
— Não faço ideia…
— No que será que ela estava envolvida…
— Sinceramente, eu não sei.
— Com o que ela estava trabalhando?
— Acho que com uma amiga, sobre eventos ou algo assim. Eu não sei.
O alívio que sentia em sua culpa libertou Sophie. Agora, poderia sentir aquela raiva avassaladora de Adrian, novamente. Esperou que o sentimento viesse, mas nada aconteceu. Ao menos não imediatamente. Difícil dizer se voltaria já que Adrian continuava em um leito de hospital com várias costelas quebradas, um rim a menos, vários dentes quebrados, além do nariz e do cotovelo fraturados. Por sorte, muita sorte, a violência sexual não fora concretizada. Algo a ver com uma joelhada no saco e uma cabeçada no nariz? Talvez quando Adrian voltasse do coma, pudesse esclarecer por que os agressores fugiram de repente.
— Olha… — murmurou Jesse, passando os dedos pela testa, tenso — eu vim aqui para saber notícias dela porque, de alguma maneira, sinto-a como uma amiga. — Sophie esboçou um sorriso debochado. Amiga? Depois de tudo o que ela fez? Pensou Sophie, sem dizer uma só palavra. — E, também, porque Anne me disse que você estaria aqui neste horário. Eu preciso falar com você, Sophie — pediu, segurando-a pelos braços, delicadamente. Sophie apertou os lábios.
— Como ela está? — perguntou Sophie, olhando para o corredor onde Jesse conversava com o médico. Preferia falar sobre a saúde de Adrian do que dar corda no assunto que Jesse queria entrar.
— Estável. Vão tirá-la do coma amanhã, no final da tarde.
— Eu não estarei aqui. Não voltarei mais a vê-la — afirmou, decidida a esquecer daquele episódio. — Por favor, não mencione o meu nome quando a vir, está bem? Não quero que ela saiba de nada do que aconteceu. Do email, eu quero dizer. E da visão… enfim, nada.
— Tudo bem, não vou falar nada. Eu entendo que você não queira mais vê-la, mas você sabe que está ligada a tudo isso, não sabe? Falo da investigação…
— Sim, eu sei. Mas vou falar com o Paul sobre isso. Não quero que o meu nome apareça.
— Eu não conheço nada sobre investigação policial, mas acho que, se tiver um julgamento, você terá que colocar a cara, não acha?
— Não sei… Pode ser que encontrei vestígios de DNA deles nela, sei lá. Tem outras maneiras, eu acho — respondeu, baixando o tom de voz, sentindo um cansaço característico do baixar da adrenalina. — Olha, Jesse, estou mesmo muito cansada. Vou pra casa.
— Posso passar por lá mais tarde?
— Não — respondeu, imediatamente. — Nada mudou, Jesse. Nada — olhou em seus olhos, o que estava evitando desde que o encontrara, e forçou-se a não sentir nada. — A Adrian ter sido atacada não muda o fato de você e ela terem me traído. Simples assim, está bem? Não tente misturar as coisas. Mesmo que eu perdoe as suas imbecilidades, mesmo que no pesar da balança todas as coisas boas que tivemos sejam maiores do que a estupidez da sua relação com ela eu jamais confiarei em você novamente. E pra falar a verdade — encarou-o profundamente —, este nem é o maior dos problemas. A decepção, Jesse, é o pior. É algo corrosivo e à prova de amor — concluiu, deixando-o sozinho, sem palavras para combater as suas.
Ele apenas baixou a cabeça sentindo o coração ser arrancado pela raiz. O mesmo sentia Sophie, mas ela sabia que, uma vez ferida, os sentimentos positivos começavam a escorregar em uma queda livre impossível de ser contida.
Às nove da noite, o trânsito fluía com tranquilidade e Sophie analisava os próprios conflitos no caminho de volta para casa. Por um instante, pensou em se afastar da investigação policial, uma vez que nada daquilo havia acontecido por sua culpa. Foda-se, não devo nada a ela, pensou, não reconhecendo a sua própria voz. Que tipo de pessoa viraria as costas à possibilidade de colocar atrás das grades animais como os que atacaram e quase estupraram uma jovem?
Chegando a casa, sentiu-se aliviada ao ver tudo às escuras. Correu para o seu quarto e não respondeu ao chamado de Thomas. Mesmo que ele pudesse lhe dar alguma pista sobre a visão com os médicos, aquilo ficara anos luz de distância dos seus interesses. Naquele momento, ela só pensava em falar com uma pessoa: Nancy. E o fez, imediatamente.
Sophie mal sabia como atualizá-la sobre os últimos acontecimentos. Pouco a pouco, passou-lhe uma descrição de tudo sem poupar nenhum detalhe, inclusive, sobre os primeiros exames médicos que Brandon solicitara, cujos resultados haviam sido normais até o momento. Para a sua surpresa, Nancy não se mostrou tão preocupada com as suas perdas de consciência quanto Brandon.
— Ele está certo em fazer todos os exames, mas eu acredito que, pelo menos fisicamente falando, você não tem qualquer problema. — Nancy deu uma longa pausa, inspirando profundamente e Sophie percebeu aquele momento que antecede a uma notícia ruim. Achou melhor contar-lhe sobre a evolução em suas visões depois que Nancy terminasse. — Isso pode chocar você, minha criança, mas acredito que a sua perda de consciência tenha sido deliberada. — Sophie tentou dizer alguma coisa, mas nada saiu. — Sophie, querida, você está aí?
— Sim — respondeu quase num suspiro.
— Não precisa se preocupar. A amnésia psicogênica é amplamente conhecida. — Amnésia Psico-o-que? Devo acrescentar mais esta à minha lista de problemas? Falava consigo mesma. — Normalmente acontece a pessoas que sofreram um grande trauma. Elas se esquecem de fatos antes ou depois do incidente, como forma de proteção. No seu caso, depois da separação com Jesse, você se sentiu dividida entre agir racionalmente e agir emocionalmente. Estou errada? — Sophie não respondeu de imediato, mas reconheceu suas próprias palavras na última conversa que tivera com Anne.
— É, acho que não.
— Pois bem. Em outras palavras, você queria prejudicar Adrian, feri-la, acabar com ela, mas não podia admitir fazê-lo. Então, você o fez, mas apagou da sua mente porque se sentia envergonhada demais.
— E quanto à cópia do email que eu coloquei no quarto da Anne, o que foi aquilo?
— Uma forma de ser descoberta — respondeu Nancy como se fosse de uma obviedade notória. Sophie balançou a cabeça.
— Eu sempre ouvi falar que psicopatas, no fundo, querem ser pegos. É isso que a senhora está me dizendo?
— Bem, tirando o termo psicopata, sim, é mais ou menos isso — Sophie largou o corpo e sentou-se na cama.
— As pessoas comuns não fazem isso, Dra. Nancy. Não cometem loucuras e depois se esquecem de propósito e, por algum motivo ainda mais maluco, denunciam a si mesmas para que sejam descobertas. Não faz sentido algum!
— A maioria realmente não faz isso, mas algumas pessoas sim. Principalmente as que enfrentaram um grande trauma.
— Pelo amor de Deus, foi uma porcaria de uma traição, isso não é um trauma! — exclamou, mais querendo gritar com si mesma do que com Nancy.
— Já falamos sobre isso, Sophie. A decepção pode ser uma ferida muito profunda e perigosa que pode gerar, como você bem está vendo, atitudes drásticas.
— Isso é loucura…
— Eu não colocaria nestas palavras, mas… sim e não. É sério porque a sua mente conseguiu driblar a sua racionalidade e agir sem um julgamento ético do certo e errado. Isso precisa ser analisado com seriedade para detectarmos a sua profundidade. — Sophie, por um segundo pensou em algo e, embora lhe parecesse ainda mais absurdo, arriscou a dizê-lo do mesmo jeito.
— Estamos falando de uma possível dupla personalidade?
— Estamos muito longe de um transtorno dissociativo, mas ouça com atenção. Eu quero que você fique atenta a qualquer lapso de memória, está bem?
— Sim — respondeu, obediente.
— Muito bem. Agora, eu quero que você me diga, sem rodeios, com quais sentimentos você está lidando?
Sophie tentou não pensar na mais nova versão feminina do Dr. Jekyll e Mr. Hyde e procurou ser honesta, não somente com a sua terapeuta, mas consigo mesma. Falou sobre o rancor do início, o desejo de se vingar de ambos e, mais recentemente, da culpa, o que Nancy classificou como um sentimento positivo.
— Demonstra que você está longe de ser uma psicopata — zombou. — Falando sério, Sophie, às vezes, a melhor maneira de sair de um estado de confusão é enfrentar aquilo que se pensa ser o objeto de desejo. Alguns suicidas, por exemplo, se dão conta do quão absurdo era a vontade de se matar quando se veem a minutos de saltar da ponte. No seu caso, você se deu conta de que não queria realmente machucar Adrian quando a viu sendo atacada.
— Sim, eu entendo — concordou, sentindo, pela primeira vez em várias semanas, que a espessa névoa à sua frente começava a se dissolver. — Entendo de verdade — finalizou, sem sentir a menor vontade de contar a Nancy sobre o quanto ela interferira, fisicamente, na visão, o que praticamente salvara Adrian de um estupro, ou coisa ainda pior.
— Agora, você precisa descansar — disse Nancy, seguindo por uma lista de conselhos antes que Sophie se despedisse e desligassem o telefone.
Sophie olhou à sua volta e suspirou. Já havia enfrentado tantas coisas e ainda estava de pé. Vamos lá, menina, você vai superar mais essa. Falou para si mesma, como imaginava que uma mãe faria. Sorriu. Levantou-se e foi ao banheiro preparar um belo banho de banheira fresco.
Ficou ali deitada, olhando para o teto branco e anônimo, desejando que sua mente fosse igualmente vazia. Fechou os olhos tentando organizar ansiedades, culpas, tristezas, medos, angustias e todas estas merdas que transformam uma vida simples em uma pirâmide de emoções. Ela queria, definitivamente, levar uma vida menos complicada. Aceitar tudo o que havia de bom e ruim sem questionamentos. Simplesmente baixar a guarda, relaxar e deixar que a vida fluísse por ela.
Será que isso é possível? Pensou enquanto passava a esponja sob uma espessa camada de espuma em seu braço sentindo que, possível ou não, ela poderia ao menos tentar. Começando por esvaziar a sua mente. Apertou a esponja entre os dedos fazendo a espuma sair suavemente. Observou as bolhas de sabão multi coloridas pairando sobre a espuma, deixou o cheiro de lavanda invadir os seus sentidos e, fatalmente, o que Sophie menos desejava, aconteceu. Foi levada diretamente a um lugar já conhecido. Estava, novamente, atrás da porta daquele corredor hospitalar. Só que, desta vez, ao tocar a maçaneta, pôde não somente sentir, mas ver o que de tão diferente havia naquela sensação: os dois últimos dedos da mão direita haviam sido amputados ou talvez fosse um defeito de nascença. Esta era a razão de Sophie sentir algo diferente ao tocar a maçaneta. Podia sentir a frieza do metal sobre as duas articulações dos últimos dedos e isso, definitivamente, era inédito para ela. Embora fosse apenas um detalhe, agora havia pelo menos uma breve descrição da pessoa que, aparentemente, ouvira aquela conversa.
Uma fina descarga elétrica percorreu o corpo de Sophie trazendo-a de volta à banheira. Levantou-se, rapidamente, enrolou-se na toalha e chamou por Thomas, mas ele não respondeu. Eram quase meia noite e ela insistiu. Nada. Uma hora depois, quando ela quase pegava no sono, ele a chamou, aflito.
— Claire, sei que é tarde para você, mas eu acho que sei do que a sua visão se trata — Do que você está falando? — perguntou Sophie tentando sair da sonolência. — A mãe de Amy, Claire. — Sophie demorou a entender. — A mãe de Amy? Mas ela morreu de câncer, o que isso tem a ver? — Não. Ela morreu de uma complicação em uma cirurgia para a retirada de um tumor no intestino. É bem diferente de morrer de câncer. — Sophie sentiu-se desperta. — Ok. Sou toda ouvidos. — Eu não tinha me ligado nisso porque aconteceu tudo tão rápido e eu não tinha todas as informações, mas agora eu tenho. Está preparada? — Fala logo! — Ok. Bom, logo depois que o diagnóstico do tumor foi feito, levaram-na quase em seguida para a sala de cirurgia, lembra? — Sim, eu me lembro… — Depois da cirurgia, os médicos disseram que não tinha muito a fazer e menos de uma semana depois, ela morreu ainda no hospital. Agora é que vem a parte interessante. Depois de passado o choque, o pai da Amy começou a questionar os médicos sobre o que realmente tinha acontecido e eles se comportaram de um modo muito estranho. Nem eu e nem a Amy sabíamos disso, mas dois dias atrás o Sr Abbott falou com a Amy sobre as suspeitas dele e ela me contou ontem. Fui com ela ao hospital e você não vai acreditar. — Fala logo, pelo amor de Deus! — Os médicos que participaram da cirurgia são muito parecidos com a descrição que você me passou. — A voz de Thomas era angustiada.
Só podia ser isso, pensou Sophie. Ela sabia que tinha que haver alguma ligação entre ela e a visão, só não sabia qual até agora: era Amy. Acomodou-se na cama com as costas totalmente eretas, sentindo como se todos os seus sentidos, de repente, se conectassem. Seu corpo todo vibrava em uma excitação particular.
— Tommy, alguém sabe o que aconteceu com a mãe da Amy e, por algum motivo, está escondendo o jogo, eu tenho certeza disso. Talvez para proteger o médico. — Ou proteger a si mesmo — corrigiu ele. — Você tem ideia do que é testemunhar contra um médico? — continuou ele. — Ainda mais se esta pessoa for outro médico ou, pior, um funcionário comum? — Só então Sophie se lembrou de contar sobre a descoberta dela. — Tommy, quase me esqueço de te contar! Tenho uma informação para você, também. A pessoa que viu a conversa não tem os dois dedos da mão direita. — Thomas se calou e um imenso vazio surgiu na conexão mental entre eles. — Você conhece alguém assim neste hospital? — Não, mas não deve ser difícil descobrir. — O silêncio se estendeu por alguns segundos, sendo quebrado por Sophie que explicou a Thomas como chegara àquela conclusão. —
Você é incrível. — Thomas, estamos falando da mãe da sua namorada! Não tem nada de incrível nisso, é terrível! — Eu sei, eu sei… Vou conversar com a Amy e nos falamos depois. — Você vai contar a ela sobre nós? — Acho que não tem outro jeito, tem? — É. Acho que não… — Embora Thomas e Amy estivessem juntos já há nove meses, Sophie se preocupava até que ponto ela entenderia a telepatia entre eles e até onde a garota estaria disposta a acreditar.
Sophie perdeu o sono e desceu até a cozinha, sentindo-se desperta e inquieta. Encontrou Anne na sala, organizando documentos de viagem e mapas, embora já fosse quase uma da manhã. Estavam há duas semanas da viagem e isso era perto o suficiente para Anne começar a se preocupar, já que os preparativos ainda não estavam prontos.
Os olhos tensos de Sophie não lhe passaram despercebidos e apenas o levantar de sobrancelhas de Anne bastou para Sophie lhe contar sobre a visão com os médicos. Anne ficou irritada ao saber que ela havia ocultado aquilo por tantos dias, mas acabou por perdoá-la, devido a tudo o que acontecera.
Elas passaram duas horas colocando as peças daquela história toda no lugar, sentindo-se tocadas pela dor que seria para Amy e o pai dela caso os médicos, realmente, tivessem causado a morte daquela mulher. Era uma situação totalmente diferente da que tanto Anne quanto Sophie haviam vivido.
Anne perdera os pais em um acidente de carro e Sophie perdera a mãe por um derrame que também a levara a um acidente. Eram fatalidades, ou na perspectiva de Sophie, merdas da vida. Com Amy, entretanto, seria diferente. Um erro ou uma negligência teria causado a morte prematura da sua mãe. Como conviver com isso? Tentavam chegar a uma conclusão quando Sophie ergueu a mão calando Anne na mesma hora.
— Claire, estou com a Amy agora — disse Thomas. — E como ela está? Você contou a ela sobre nós? — Sim — respondeu ele com uma voz um pouco tensa. — Bom, foi meio estranho porque eu tive que convencê-la de muitas coisas, em primeiro lugar de que telepatia existe e que existem níveis em que as pessoas podem, realmente, ter uma conversa e tal. — Tipo a gente… — Como ela não estava muito interessada no assunto, tive que forçar um pouco a barra e disse “e se eu te contar que eu e a Claire conversamos por telepatia?” — E aí? — Dá pra imaginar a cara dela, né. Primeiro, achou que eu estava zoando com ela. Depois de eu lhe contar algumas coisas, como por exemplo, como foi que nos encontramos a primeira vez, ela passou a ver que eu estava falando sério. Pra resumir, ela quer que a gente prove a ela, agora. — Provar? — Pois é. Eu sei que é meio chato te pedir isso, mas… Pôxa, acho que dá pra entender, não acha? —
Sophie sentiu-se desconfortável, mas tinha que fazê-lo, por Thomas. — Ok. Como podemos fazer isso? — Na verdade, ela tem uma pergunta pra você. — Sophie suspirou. Isso poderia até se tornar divertido. Enquanto conversava com Thomas, atualizava Anne sobre tudo. — Pode falar. — Ela quer que você me diga sobre o que vocês conversaram quando estavam no carro indo para a casa dela, na noite de Natal. — Sophie sorriu. Foram dias maravilhosos e não precisou pensar muito para saber do que Amy estava falando. Ela dera muita risada sobre aquilo. —
Conversamos sobre a Xena! — Sophie riu e depois continuou — Ela me disse que se eu tivesse olhos azuis, seria igualzinho a ela e começamos a falar sobre as heroínas dos seriados de televisão. — Meu Deus, a Xena? — indagou Thomas, incrédulo. — Pois é. — Mas sabe que ela tem razão? Você não é tão grandalhona, mas até que lembra um pouco. — Ah, Thomas, não me irrita, vai. —
Thomas ficou em silêncio por alguns instantes, Anne, que também não sabia sobre a conversa sobre a Xena, também deu risada e logo Thomas voltou. — Acho que ela acredita, agora. Você tinha que ver a cara dela. — Diz que estou mandando um beijo. — Recado dado. — Me conta como ela está, quero dizer, sobre a visão, os médicos e tudo mais. — Bom, ela ficou bem desconcertada com a possibilidade de a mãe ter sido vítima de um erro médico. — Coitadinha, estava conversando sobre isso com a Anne. — Mas a Amy é forte e agora está decidida a descobrir toda a verdade, com a nossa ajuda.
Sophie sentiu-se tocada. Se pudesse, teria escolhido não ter visto nada para que Amy nunca tivesse que enfrentar aquilo, mas ela vira e, infelizmente, envolvia Amy.
— O que eu puder fazer, Tommy. É só me falar e, por favor, peça desculpas a Amy por mim. — Por que? Você não fez nada de errado. — Talvez eu tenha feito. Talvez eu tenha dado a certeza a ela de algo que, no fundo, ninguém quer saber, quer? — Thomas e Sophie se despediram pouco depois, ao mesmo tempo em que Sophie falava com Anne sobre a reação de Amy à visão.
— Vamos torcer para que eles encontrem esta testemunha e que ela ajude de alguma maneira, mas cá entre nós — murmurou Anne —, acho muito difícil. Se esta pessoa quisesse mesmo falar alguma coisa, já teria procurado a família, não acha? Faz mais de um mês que a mãe dela morreu.
— Pode ser ou, talvez, precise de um empurrãozinho. — Anne ergueu uma sobrancelha. — Esta pode ser a chance para esta pessoa aliviar a própria consciência.
— Você acha que ele ou ela sente algum remorso por nunca ter dito nada?
— Ah, pode apostar — afirmou. — Se não fosse assim, por que, depois de tanto tempo, essa pessoa ainda pensa nisso com tanta intensidade? — Anne estreitou os olhos. — Pense bem. Eu não conheço essa pessoa, certo? — Anne assentiu. — Mas, mesmo assim, tive uma visão com ela. A única ligação entre nós duas é a Amy. Se ela não pensasse tanto nisso, não teria chegado até a mim.
— Eu só espero que tudo isso termine bem.
Sentiram-se impotentes e vazias, enquanto o ponteiro do relógio ia saltando os minutos. Finalmente, pouco depois das três da manhã, decidiram dormir.
No dia seguinte, Anne visitou Adrian no hospital, mas não pôde falar com ela. Adrian ainda estava sob o efeito de fortes analgésicos após uma cirurgia no maxilar e no nariz.
A polícia havia liberado os dois rapazes no dia anterior e esperava que Adrian pudesse lhes dar uma descrição detalhada dos agressores, mas ela não pôde. Além das limitações físicas, Adrian não se lembrava de nada do que havia acontecido.
— Amnésia psicogênica… — murmurou Sophie quando Anne terminou de lhe dar as notícias.
— Amnésia o que?
— Conversei com a Dra. Nancy, ontem no início da noite. Esqueci de te contar — foi o máximo de pedido de desculpas que Sophie lhe deu e, para encurtar a conversa, resumiu rapidamente as explicações que Nancy lhe dissera.
— Você estava certa, então… E não dá pra saber se vai acontecer de novo?
— Acho que não, mas espero que não aconteça — disse Sophie, mexendo distraidamente na pasta de documentos para a viagem que Anne organizara tão bem na noite anterior.
— E quanto a Adrian?
Sophie deu de ombros.
— Ela deve começar a se lembrar logo, espero.
— Você não vai mesmo visitá-la mais?
— Pra que?
— Sophie, ela precisa saber que foi você que…
— Não precisa não. Não tem motivo.
— É… Acho que você tem o direito de decidir isso, mas e quanto àqueles marginais? Era para eles estarem atrás das grades, já. Quando você vai depor? — Sophie esfregou as mãos no rosto.
— Eu esperava que não fosse preciso. Esperava que a polícia pudesse levar a foto deles e simplesmente pedir que Adrian apontasse com o dedo, que os reconhecesse de um jeito simples, mas eu não contava com a amnésia dela. Ou, sei lá, que encontrassem DNA deles no corpo dela. Mas acho que isso acontece só em filme. Que merda.
— A gente não pode se esquecer de que ela foi imediatamente levada para o centro cirúrgico. Sei lá, devem ter limpado ela, vai ver por isso não tem DNA nenhhum. — Anne torceu os lábios. — Então, você vai depor?
— Acho que não tem outro jeito, tem?
— E aí ela vai saber a verdade, que foi você quem…
— Eu sei — concluiu Sophie. Suspirou e mudou de assunto, ainda mexendo nos papéis dentro da pasta. — Pelo jeito está tudo pronto para a viagem, não é? Passagens, mapas, roteiro…
— Acho que sim — respondeu Anne, secamente. — E o Jesse?
— O que tem ele? — foi a vez de Anne dar de ombros.
— Nada, eu só pensei que, sei lá… — Sophie revirou os olhos e virou-se, caminhando em direção à escada, acenando para a amiga. Anne sorriu e balançou a cabeça.
Os dias se arrastavam sem mudanças, para angustia de Sophie. Adrian recuperava-se lentamente e sua memória continuava congelada. Na semana seguinte, Jesse ligou para ela no trabalho, já que não conseguia contato pelo celular.
— Ah, Jesse, é você?
— Sim, desculpe te ligar no trabalho, mas eu queria muito falar com você e já que o meu número está bloqueado no seu aparelho, não tive outra saída.
— E o que você tem de tão importante pra falar?
— Quando vocês viajam?
— Sábado.
— Daqui a quatro dias…
— Isso mesmo. Por que?
— Pensei que pudéssemos almoçar antes disso. Acho que está na hora de definirmos a nossa situação, não acha?
— Já não está definida?
— Está? — Sophie fechou os olhos. Não poderia mais fugir da situação. Sentia falta de Jesse, precisava dele, mas seria capaz de conviver com a falta de confiança?
— Por mim, está. Adeus, Jesse. Seja feliz e me esqueça — e desligou, ficando no vazio da sua teimosia.
O celular de Sophie tocou e ela atendeu, imediatamente, sabendo que não era Jesse, o que não chegou a ser um alívio.
— Oi Paul, algum problema?
— Oi querida. Eu não diria “problema”, mas o pessoal da delegacia quer que você preste um depoimento. Você não é obrigada a ir, embora seja considerada testemunha ocular, mas é você quem decide.
Sophie soltou o corpo na cadeira.
— Paul, você acha que o meu depoimento vai fazer alguma diferença?
— Para ser sincero, não, não acho. É facilmente derrubado num tribunal e a polícia sabe disso.
— Então, o que eles querem comigo?
— Apenas formalizar o ocorrido e ver se você se lembra de mais alguma coisa.
— Eu me lembrar? Quem perdeu a memória foi a Adrian, não eu — disse, esgotada. — Desculpe, Paul, mas se não vai adiantar nada eu prestar este depoimento, eu prefiro não ir. Não vou me expor à toa.
— Tudo bem. Eu já esperava por isso e a polícia também. Avisei a eles que você era durona — Sophie sorriu aliviada. — E, por falar em durona, Anne está programando algo para o aniversário dela? Queria convidar vocês para a festa de um ano da nossa pequena Sophie. Sei que não é o momento certo de falar sobre isso, mas sei também que vou acabar me esquecendo de convidar vocês e nunca me perdoaria por isso.
Fazia tempo que ela e Anne não visitavam Paul e há pelo menos dois meses não viam a neta dele, que também recebera o nome de Sophie em homenagem a ela. A menina nascera no mesmo dia do aniversário de Anne.
— Ah, Paul, eu vou com prazer, mas temo que Anne não possa ir. Nós vamos à Itália no domingo e vamos ficar por lá duas semanas. Depois, Anne segue viagem com Brandon. Vai passar o aniversário no Caribe.
— Ah, será uma pena não termos as duas conosco, mas espero por você então, certo?
— Com certeza — afirmou com um entusiasmo forçado.
Sophie amava Paul e a família dele, mas naquele momento não estava para festas, ainda mais vendo o volume de trabalho se acumulando em sua mesa. Tinha apenas dois dias para fechar a edição da semana e ainda tinha centenas de fotos para revisar.
Na hora do almoço, desceu rapidamente para um lanche e percebeu que o rapaz que substituíra Caroline Johnson já não estava mais na recepção. Em seu lugar estava uma jovem indiana. Sophie a viu de costas e os longos cabelos negros lhe remeteram a lembranças indesejadas. Passou rapidamente pela recepção sem ser notada.
O dia transcorreu rapidamente e Sophie espantou-se com a própria eficiência. Mal pensara em Adrian, em Jesse, na sua perda de memória, em Ashley ou sequer na viagem. Apenas trabalhou e, quando cruzou o saguão no final do dia de trabalho, sentia-se exausta, mas satisfeita consigo mesma. Ao menos, naquela tarde, a vida apenas fluiu, como desejara.
Eram sete da noite, o dia ainda estava claro e o sol mantinha a cidade colorida, viva e quente. Colocou os óculos escuros, trocou os sapatos de salto por uma sapatilha confortável que sempre carregava na bolsa e decidiu pegar a trilha a pé pelo rio Tamisa. A caminhada seria de pouco mais de seis quilômetros, mas sempre valia a pena.
O dia estava luminoso e a vista à beira do rio, em alguns trechos, dava-lhe uma sensação de ser transportada a outro lugar, outro mundo; silencioso e pacífico. Às vezes, ela simplesmente se sentava próximo ao lado norte do Greenwich Foot Tunnel e ficava observando as embarcações indo e vindo, as pessoas caminhando no pequeno parque atrás dela. Naquele dia, porém, seu passeio não chegaria nem até lá. Anne ligou quando Sophie sequer chegara à metade do caminho.
— Você já saiu do trabalho?
— Já. O que houve?
— É a Adrian. Ela começou a se lembrar.
— E do que exatamente ela se lembrou? — Sophie parou de caminhar em frente ao píer Canary Wharf.
— São ainda alguns flashes, mas a polícia está indo para lá com as fotos dos suspeitos para ver se ela consegue reconhecê-los.
— Tomara que sim — suspirou.
— Olha, estou a caminho de casa. Que tal te pegar e a gente vai fazer alguma coisa pra relaxar? O que acha?
— Estava planejando caminhar até em casa, mas… Tudo bem — por alguma razão Sophie perdera a vontade de caminhar. Tinha a sensação de que algo aconteceria em breve e não ia querer estar parada do outro lado do rio quando − o que quer que fosse − acontecesse.
Anne levaria quinze vinte minutos para chegar até ela. Sophie olhou para o rio e teve a sensação de que até mesmo a correnteza havia dado um suspiro antes de retomar o seu curso. Uma pausa para contemplar Sophie pela última vez antes que ela entrasse em mais uma tempestade.
Os “trovões” começaram quando mais tarde, já em casa, o celular de
Anne tocou. Era Brandon e ele pedia que Sophie fosse ao hospital o mais rápido possível. Adrian só falaria com ela, e mais ninguém.
— Ela disse que Sophie corre perigo — finalizou Brandon, e os olhos de Anne se viraram para a amiga que acabara de se sentar no sofá, com uma taça de vinho em uma mão e o controle do DVD na outra. Finalmente, estava preparada para assistir ao presente que Jesse lhe enviara uma semana atrás.
Aquilo teria que esperar. De novo.
Anne tocou. Era Brandon e ele pedia que Sophie fosse ao hospital o mais rápido possível. Adrian só falaria com ela, e mais ninguém.
— Ela disse que Sophie corre perigo — finalizou Brandon, e os olhos de Anne se viraram para a amiga que acabara de se sentar no sofá, com uma taça de vinho em uma mão e o controle do DVD na outra. Finalmente, estava preparada para assistir ao presente que Jesse lhe enviara uma semana atrás.
Aquilo teria que esperar. De novo.

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