As Faces do Mal: Capítulo 5

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Capítulo 5
Dois dias se passaram com Sophie enfiada no trabalho. Tentava ignorar os próprios sentimentos do mesmo modo como ignorava as mensagens de Jesse em seu telefone. Bloqueou o número dele e fez o mesmo com o endereço de email. Estava cansada de jogar dúzias de emails no lixo sem sequer abri-los. Anne já nem tocava mais no assunto, embora sofresse uma avalanche de lamentações de Jesse no trabalho todos os dias. Sophie ameaçou denunciá-lo por stalking e Jesse não teve alternativa a não ser deixá-la em paz.
Assim que o telefone se calou e os emails pararam de entupir a sua caixa de correio, Sophie esperava que a sua vida voltasse ao normal. E ela quase voltou. Ficou estranhamente calma e vazia, exceto pelo fato de que ainda sentia aquela necessidade vingativa crescer a cada minuto, como uma fome insaciável, uma obsessão da qual ela não podia – ou não queria − escapar.
Na terceira noite após ter deixado o apartamento de Jesse, Sophie se viu em frente ao computador elaborando um email completo para enviar ao namorado de Adrian, com as fotos, as mensagens entre ela e Jesse e também o vídeo em anexo. Levantou-se da cadeira assustada sem se recordar do que fizera nas últimas… (olhou o relógio e se deu conta)… quatro horas! A última coisa de que se lembrava era de ter saído do trabalho. O resto era um vácuo em sua mente.
Não comentou nada daquilo com Anne nem com ninguém. Nem mesmo com Thomas que começava a achar estranho ela quase nunca estar disponível para suas conversas telepáticas.
As manhãs estavam ensolaradas e Sophie aproveitava para caminhar mais e usar cada vez menos o metrô. Caminhar e sentir a brisa no rosto lhe fazia bem. Cada dia andava um pouco mais e as estações foram ficando para trás. Os passos se tornavam mais ágeis e largos e começou a sentir prazer naquelas manhãs de sol, achando que Anne, talvez, tivesse razão. Verão na Itália talvez não fosse tão ruim. Anne estava louca para visitar Roma − o que significava a Fontana di Trevi, a Piazza Navona e o Castelo Sant’Angelo, só pra começar − e Sophie estava mesmo precisando dar o fora dali.
Dez dias depois que vira Jesse pela última vez, Sophie se levantou mais tarde e, atrasada para uma reunião, resolveu pegar o metrô mais próximo de casa. À medida que descia as escadas da estação sentiu como se entrasse em uma estufa. O ar ficou mais quente e úmido e gotas de suor começaram a escorrer-lhe pela nuca. A sensação claustrofóbica se intensificava e enquanto esperava o vagão passar, sentiu uma fisgada dentro do ouvido e, depois outra atrás da orelha. Quando se virou para trás, viu apenas rostos borrados, como se alguém tivesse passado um pincel lambuzado de tinta sobre eles. Os lábios endureceram e os seus olhos brilharam em uma expressão de pavor.
Não, por favor, não!
Tudo se transformou em um borrão único e as vozes soavam grossas e arrastadas como um disco em baixa rotação. Os movimentos tornaram-se lentos e Sophie percebeu que os rostos se aproximavam; rostos que pareciam querer engoli-la. Sentiu as pernas tremer e a temperatura foi caindo, esfriando-a de dentro para fora. Todos os pelos do corpo se eriçaram e a respiração saía covardemente.
As pernas cederam e ela desmontou como uma marionete. Sob olhares curiosos, sussurros e uma agitação ao seu redor, abraçou a si mesma e gritou sem perceber, sem ter controle sobre seu corpo e sua mente. Ela precisava de ar, precisava de espaço, precisava sair dali e ficar o mais longe possível daqueles corpos que a sufocavam.
O grito de Sophie − deitada no chão como um caracol enrolado no próprio corpo − ecoou pelas galerias subterrâneas até que o som do trem o engoliu e as pessoas que a rodeavam simplesmente perderam o interesse e seguiram seus caminhos, exceto pela equipe de socorro que, com muito custo, conseguiu fazê-la se acalmar.
Assim que recobrou o seu estado normal, Sophie implorou para que a deixassem ir embora. Ela sabia que ninguém poderia fazer nada por ela. Ninguém poderia aliviar-lhe a sensação fria de abandono que se instalava dentro dela após as suas visões, como se um pedaço da sua vida tivesse sido arrancado. Somente ela poderia se reorganizar e substituir o pedaço levado, por aquele que lhe fora implantado pelas visões. Sentia-se como um Frankenstein, remendada por momentos e emoções que não eram suas.
Assim que conseguiu se livrar dos paramédicos, subiu as escadas novamente e pegou o primeiro taxi para casa. Suas mãos ainda estavam suadas e trêmulas. Sophie tentou contê-las, massageando os próprios dedos enquanto sentia picadas em sua cabeça, como formigas devorando seu cérebro. Os olhos estavam em brasas e a boca tão seca que a língua colara ao palato. Era o inferno que ressurgia.
Vai ficar tudo bem. Vai ficar tudo bem.
Poderia até ficar, mas levaria tempo. Algo lhe fugira ao controle como nunca havia acontecido antes. Fora totalmente diferente das suas visões anteriores. Aquilo era pessoal e íntimo. Vinha de dentro dela. Era forte e pegajoso. Opressor e…
Claire! — Sophie sentiu o coração dar um salto ao ouvir a voz de Thomas em sua mente. — Oh, Thomas…! — exclamou num misto de alívio e pavor. —
Meu Deus, Claire, o que foi aquilo? — C-como você sabe? Você ouviu alguma coisa? — Como NÃO ouvir? Você gritava o meu nome com tanta força que achei que você estivesse aqui, do meu lado, em carne e osso. — Thomas eu… não me lembro… — Não se lembra do que viu ou de ter me chamado? — Já nem sei de mais nada, Tommy — respondeu exausta, com lágrimas nos olhos, apoiando a cabeça contra a janela do carro. — Calma, maninha. Onde você está? — Em um taxi. — Você está bem? — Acho que sim… — O que houve? — Sophie fechou os olhos, cansada e sentindo que o sangue esfriava em suas veias. — Eu não sei… e, neste momento, não sei se quero saber ou entender alguma coisa…
Thomas era recém-formado em psicologia e tinha um fascínio pelo dom de Sophie e pela conexão entre os dois, mas acima de tudo era com a saúde dela que ele mais se importava.
— A gente se fala depois, tá? Não consigo nem pensar, neste momento…
— Tem certeza? Posso ficar com você um pouco. — Não, tudo bem, obrigada. — Se cuida, mana e me dá notícias daqui a pouco. — Pode deixar.
Sophie realinhou as ideias em sua mente, reuniu as forças e fez o que sempre fazia. Tocou a vida adiante. Não era a primeira e, infelizmente, não seria a última vez que passaria por aquilo, então, decidiu não ir para casa. Afinal, tinha ainda uma reunião importante que se realizaria em… quinze minutos!
Merda!
Mesmo que quisesse, Sophie não teve nem tempo para pensar no ocorrido. O dia na redação tocara o nível máximo do estresse. A modelo que posara para a capa da edição daquela semana fora encontrada morta em seu apartamento, aparentemente vítima de overdose. Reunião atrás de reunião empurrou o dia ladeira abaixo, na tentativa de convencer os advogados – da revista e da modelo − de que manter a foto na capa seria a melhor coisa a se fazer para ambas as partes. Somente quando voltava para casa, pouco depois das nove da noite, quando chegou à estação Shadwell, voltou a sentir uma forte pressão no peito. Era como se o espaço à sua volta começasse a se fechar e o ar se tornou escasso.
Voltou, rapidamente, seguindo contra o fluxo de pessoas e quando estava a uma distância segura do que para ela parecia uma multidão, sentiu o coração bombear com uma força descomunal. Podia jurar que era possível ver a delicada blusa ocre que usava se movendo para cima e para baixo na altura do peito, impulsionada pelo batimento cardíaco que esmurrava a sua caixa torácica.
Novamente, pegou um taxi para casa. Sentou-se colada à porta e se sentiu absolutamente só. Fitou o imenso vazio entre ela e o motorista à sua frente, um senhor de meia idade, de corpo miúdo, careca, com as bochechas vermelhas e mãos firmes agarradas ao volante. Sophie podia apostar que o velhote a fitava pelo espelho. Virou o rosto olhando a multidão que caminhava na calçada e, de repente, todos pareciam olhar para ela, encará-la como se soubessem que dentro daquele carro havia uma anormal.
O ar dentro do carro pairava denso. Abriu o vidro ao seu lado, mas não adiantou. Abriu o outro e nada. A respiração se descontrolou quando percebeu dois olhos azuis envelhecidos olhando-a atentamente pelo espelho.
Eu só preciso chegar a casa e vai ficar tudo bem. Tudo bem…
Repetiu as palavras incessantemente até que entraram pela Ashburnham Grove e Sophie ficou ainda mais ansiosa por estar tão próxima do seu porto seguro. Muitas pessoas morrem a poucos metros de suas casas, pensou. Mas quando o carro parou bem diante da sua porta, ela pagou o motorista, deixando uma abonada gorjeta para trás, e seguiu correndo para dentro de casa.
Anne ainda não havia chegado e estava tudo quieto e vazio. Passou os olhos pelo espaço único que compreendia a sala de estar, de jantar e a cozinha, separados apenas pelo balcão de madeira, e se sentiu uma estranha em sua própria casa. Sentou-se no canto do sofá, o mais próximo possível da parede, e ficou ali por um tempo, encolhida como uma criança assustada. Ergueu as pernas e puxou os joelhos com força contra o peito, tentando se proteger de algo que ela sabia, não vinha de fora, mas de dentro dela mesma, emergindo sedento, faminto de sua mente, de seus desejos. Aquilo queria dominá-la e ela sabia apenas que tinha que lutar, caso contrário, perderia o controle de tudo. E “tudo” era muita coisa.
Lembrou-se dos exercícios de respiração que Nancy lhe ensinara meses atrás. Eles ajudavam a oxigenar o cérebro, dissolver os pensamentos fazendo-os ralear lentamente como fumaça. As sensações ruins foram passando, ficando apenas a incômoda ausência de respostas. O que sentira fora real, como se forças estranhas sugassem-na as certezas e as referências, e o mundo se tornava algo novo e inseguro.
Pegou o celular de dentro da bolsa e ligou para Nancy.
— Sophie! Como você está, querida? — perguntou a voz rouca e suave da terapeuta.
— Nada bem, Dra. Nancy. Acho que estou perdendo o juízo de vez — respondeu, com a cabeça enfiada entre os joelhos, fazendo com que a sua voz saísse mais tenebrosa do que desejava.
— O que aconteceu? Você está em casa?
— Sim…
— Muito bem. Agora me conte tudo.
Depois de um relato não muito coerente do primeiro acontecimento na parte da manhã e do segundo, Nancy suspirou. Sophie não era uma paciente como outra qualquer. Aliás, era uma das poucas que ainda mantinha. Há anos se dedicava quase exclusivamente à área acadêmica. Ultimamente, debruçava-se na pesquisa sobre simbiose psicológica, conhecida como telepatia entre irmãos − não por acaso intensificada após conhecer Sophie – e seus desdobramentos. A relação entre ambas constantemente ultrapassava o limite médico-paciente. Nancy evitava rodeios despropositados, preferindo ir diretamente ao ponto.
— Sophie, isso me parece um ataque de pânico ou de ansiedade. O que está acontecendo com você, minha menina?
— Eu não sei… — sussurrou, quase em lágrimas.
— Alguma coisa deve ter acontecido para desencadear estes sentimentos. Você não quer me contar?
Sophie prolongou o silêncio entre elas. Não sabia dizer se o acontecimento que Nancy sugeria era Jesse, Adrian ou Ashley. Talvez devesse falar sobre a sede de vingança; talvez devesse apenas deixar tudo pra lá e seguir em frente.
— Sophie?
— Estou aqui…
Nancy conhecia aquele silêncio. Sophie não falaria nada. Ela precisava apenas se sentir segura, agarrar-se à borda da piscina para não afundar.
— Eu também, querida. Sempre.
Nancy ouviu a respiração chorosa do outro lado da linha. Após um breve silêncio, Nancy recomendou que Sophie voltasse a tomar uma dose baixa do ansiolítico diariamente até a próxima sessão. Sugeriu, também, que não fosse trabalhar no dia seguinte e que apenas repousasse.
Sophie não queria voltar à vida de antes, com os remédios e as limitações, mas não se sentia em condições de contestar tampouco e, pela sua condescendência, Nancy percebeu que a situação era mais delicada.
— Por que não antecipamos o nosso encontro? — A próxima sessão se daria ainda em quinze dias. — Estarei na casa do John na segunda feira à tarde e poderemos nos ver quando você sair do trabalho, tudo bem pra você?
— Acho que sim — só mais quatro dias, pensou. — Até segunda-feira, então — suspirou, sentindo-se levemente reconfortada. — Obrigada, Dra. Nancy.
— Não me agradeça ainda. Temos muito que conversar. E cuide-se bem, minha querida. Se precisar de mim, sabe que pode me chamar a qualquer hora do dia ou da noite, não sabe? — a voz de Nancy era maternal e Sophie podia vê-la à sua frente, com seus cabelos grisalhos desgrenhados, seus olhos azuis vivos afundados num rosto magro e comprido.
— Eu sei. Boa noite, Dra. Nancy.
Nancy morava em Northampton, a pouco mais de cem quilômetros de Londres, de onde saía uma vez por mês para atender Sophie na casa do amigo e colega de profissão, John Barkley. Ele fora o primeiro terapeuta de Sophie e a indicara para as primeiras sessões de hipnose, especialidade de Nancy. O novo tratamento abrira os pesados portões de sua mente e Sophie passou a conhecer a verdade sobre o seu passado, mas todos sabiam que aqueles haviam sido apenas os primeiros passos. Mitos outros esqueletos escondidos naqueles calabouços estavam à espera. Talvez Sophie estivesse se deparando com alguns deles naquele momento, pensou Nancy.
Assim que Sophie desligou o telefone, Anne chegou com Brandon, rindo e falando baixinho, como se trocassem confidências muito íntimas, e Anne corou assim que viu Sophie no canto do sofá.
— Oi! — exclamou ela.
— Olá, Sophie, tudo bem? — falou Brandon. Ele fora o neurologista encarregado de dar a Sophie as más notícias sobre os seus derrames e os riscos de uma morte eminente. Mas fora ele, também, que conquistara o coração de Anne, e Sophie o admirava por ambas as coisas. Achava que era um excelente profissional e a pessoa certa para a amiga. Sabia dosar a força e a condescendência nas medidas certas para conviver com Anne. Além de ser extremamente carinhoso e dedicado.
— Olá, vocês dois — cumprimentou, forçando entusiasmo, mas Anne tão logo a viu percebeu que algo estava errado. Segurou o pingente de nó celta que carregava quase diariamente em seu pescoço e seguiu direto até o sofá.
— Está tudo bem? — perguntou, percorrendo os olhos pelo rosto de Sophie sem saber se a expressão que via era de tristeza, medo, angustia ou solidão.
— Sim, agora estou bem. É que… tive um daqueles dias, hoje.
Sophie contou-lhes superficialmente o que havia ocorrido, mas apenas o suficiente para justificar as possíveis olheiras comuns após as visões, sem entrar em detalhes que pudessem fazer Brandon exigir uma lista infinita de exames ou Anne ficar histérica de preocupação. Claro que Anne sabia que Sophie estava escondendo alguma coisa, mas não insistiu. Era assunto para quando estivessem a sós.
— Vamos pedir comida chinesa, você quer? — convidou Anne, enquanto Sophie se levantava do sofá.
— Não, obrigada, eu já comi alguma coisa na rua — mentiu, novamente.
— Acho que vou me deitar um pouco. Foi um dia cheio…
Anne franziu a testa vendo-a subir as escadas com passos incertos. Olhou para Brandon que lhe fez um sinal com a cabeça para que ela a seguisse, servindo-se de um cálice de vinho branco gelado.
Sophie foi ao seu quarto e se jogou na cama, vestindo ainda as roupas de trabalho. Encolheu-se e empurrou as lágrimas para dentro. Não tinha necessidade de chorar por um ataque de pânico, ansiedade, ou fosse lá o que fosse. Tinha apenas que tomar o remédio e… droga, o remédio! Foi até o banheiro do quarto, abriu a gaveta, pegou a pequena pílula branca e enfiou-a goela abaixo. Franziu a sobrancelha brigando com a pílula na boca e, finalmente, conseguiu colocá-la para dentro, tomando quase um copo inteiro de água. Olhou-se no espelho e reconheceu aquele olhar. Era o olhar mecânico e sem vida que exibia quando estava convertendo alguma coisa dentro de si. O que está acontecendo aí dentro? Perguntou a si mesma.
— Sophi? — chamou Anne, entrando no quarto, sem bater.
— No banheiro!
Anne entrou em segundos, com as mãos na cintura e um olhar inquiridor.
— Vai me contar ou não?
Sophie, que ainda estava com as mãos apoiadas na pia, deixou a cabeça pender para frente, exausta.
— A Dra. Nancy disse que foi apenas um ataque de pânico, mas já passou. Estou bem, agora — respondeu, erguendo os olhos e encarando Anne pelo espelho.
— Ataque de pânico? Por que?
— Eu não sei, acho que é estresse, ansiedade, sei lá… — Anne bufou.
— Não senhora, eu tenho outras teorias.
— Como o que, por exemplo?
— Jesse, por exemplo — disse em tom provocativo. Sophie virou-se de frente para ela, com uma enorme ruga na testa.
— De onde você tirou isso? Não tem nada a ver com o Jesse!
— Ah, não? Na verdade, você tem razão. Não tem nada a ver com ele ou com Adrian. Claro que não! Tem a ver com você! Com o seu modo de enfiar o sentimento por ele goela abaixo, forçando-se a não sentir uma coisa que você sente!
Anne não queria ficar irritada, mas já estava. Sophie era sempre tão inteligente e esperta, mas em se tratando de sentimentos, era tão sensível quanto um abajour.
— Sophi, pense com o seu coração um pouco e você vai me dar razão…
— Sophie pensou em retrucar, mas a discussão não teria fim e apenas fechou os olhos.
— Tudo bem, Anne, eu vou pensar… — e Anne suspirou.
— Eu vou descer, mas se precisar de alguma coisa…
— Eu sei, pode ficar tranquila. Agora desce, vai. Vinho, Brandon e uma comida chinesa chegando? Qual é? O que você ainda está fazendo aqui? — sorriu, empurrando a amiga para fora do banheiro.
Assim que Anne fechou a porta, o sorriso de Sophie se desfez. Anne a conhecia como ninguém e quase sempre estava certa. Mas não desta vez, desafiou. Só de pensar que Jesse ou Adrian poderia ter lhe causado aquilo, aumentava ainda mais a raiva que sentia.
— Claire! — chamou Thomas, mas ele ficou sem resposta. Sophie não queria falar com ninguém. — Claire? — Absolutamente ninguém. E Thomas ouviu apenas o silêncio como resposta.
Sophie meteu-se dentro do pijama, aproveitou o efeito do remédio e entregou-se a um sono pesado e silencioso.
No dia seguinte, não foi trabalhar, conforme havia recomendado Nancy, embora tivesse muita coisa a fazer na revista. Também não saiu do quarto, não tomou café da manhã ou almoçou. Recusava-se a fazer qualquer coisa que a tirasse daquelas quatro paredes. Sentia-se cansada e desmotivada.
Não pensou que pudesse ser a dosagem do remédio que ficara meses sem tomar. Não pensou nem mesmo que pudesse realmente ter alguma relação com Jesse ou com o fato de estar se forçando a eliminá-lo da sua vida. Não, na verdade, não pensava em nada. Sentia-se anestesiada, intercalando momentos de consciência e sonolência. As poucas vezes em que se levantou, sentiu vertigem ao tentar descer as escadas, voltando rapidamente para o seu quarto. Não teve nenhum outro ataque de pânico ou que merda tenha tido antes.
Passou também o dia seguinte em casa e sozinha. Anne bem que tentou cancelar o fim de semana com Brandon, mas teve que ceder. Combinara passar alguns dias na casa de campo com os pais e a filha de Brandon, Linda, de cinco anos. Em outros tempos, Anne teria ficado à beira da cama observando Sophie, mas esse tempo havia passado. Ou estaria retornando? Esta era a pergunta que Anne se fazia, pensando na amiga, enfiada na cama em pleno sábado.
Mesmo estando fora de casa, ligara várias vezes naquele dia e no dia seguinte. Sophie lhe dissera que estava bem. Durante os úlitmos telefonemas, mentiu dizendo que estava saindo para uma caminhada, assistindo a um filme e até mesmo fazendo um lanche deitada na espreguiçadeira do jardim, como Anne sabia que ela tanto gostava. Embora, na verdade, mal comera durante os dois dias e muito menos havia colocado os pés do lado de fora da casa. Passara muito tempo sentada à escrivaninha olhando as fotos da família que conhecera há menos de um ano e as poucas fotografias que tinha de Elena.
Levou algumas fotos da mãe para o criado mudo ao lado da cama e ficara ali, horas e horas, acariciando o rosto triste de Emilie, e as lágrimas escorriam-lhe pelas bochechas, já pálidas. A sua vida havia se transformado em um imenso e impenetrável vazio, nos últimos dias. Sophie apertou a fotografia contra o peito, pensando que seria capaz de fazer tudo, qualquer coisa, para estar com a mãe novamente.
Imersa em uma profunda tristeza, não respondeu a nenhum chamado de Thomas desde que se falaram no taxi, três dias atrás. Não queria mentir para ele o tempo todo, como fazia à Anne. Não queria preocupá-los e muito menos ter que responder às perguntas que ela não respondia nem a si mesma.
Tudo vai ficar bem. Basta esquecer e fingir que nada aconteceu. Repetia em sua mente tão automaticamente que as palavras já nem faziam mais sentido. Na verdade, Sophie não fazia ideia do por que se sentia tão deprimida, assustada e tão diferente.
Quando Anne chegou, no final da tarde de domingo, subiu correndo até o quarto de Sophie, temendo o que encontraria, mas viu apenas a sua amiga em um sono profundo. Respirou aliviada e, não querendo acordá-la, fechou a porta devagar. Sophie não se mexeu, embora não estivesse dormindo, e continuou fingindo pelo resto da noite.
Na segunda-feira, levantou-se, tomou um banho e desceu para a cozinha antes mesmo que Anne se levantasse. Não poderia mentir olhando-a nos olhos, e saiu em silêncio. Conseguiu ir ao trabalho de metrô, mas quando estava dentro do vagão, arrependeu-se. Havia mais gente lá dentro do que a sua condição poderia suportar. Podia sentir as respirações e ouvir os pensamentos de cada um ali dentro. Sophie agarrou com força a barra de ferro ao seu lado e procurou algo em que pudesse fixar a visão.
Feche a sua mente, feche a sua mente! Ordenava, enquanto as vozes iam se avolumando como um coro desafinado. Agora! Mas era tarde. Inúmeras vozes e sensações de medo, angustia e tristeza enchiam os seus ouvidos e a sua mente. Na tentativa de ignorar aquele mundo que invadia o seu interior, concentrou-se no cartaz de publicidade à sua frente sobre disfunção erétil − com o edifício Gherkin curvado para baixo −, lendo as palavras de trás para frente, uma técnica que aprendera para manter a mente focada, enquanto distraía o cérebro na esperança de que a sua estação final estivesse próxima ou, o que seria ainda melhor, que as vozes a abandonassem. Qualquer uma das duas opções seria ótimo, desde que chegasse rápido. Sentia o frágil autocontrole se perder entre os neurônios quando ouviu o aviso sonoro de que estavam se aproximando à estação de Shadwell. Agarrou-se ainda mais à barra de metal do corredor central do vagão e começou a soletrar nomes, também de trás para frente, ao mesmo tempo em que a voz de um garotinho penetrou em sua mente, como uma lâmina afiada, fazendo-a ouvir um choro fino e sofrido.
Não queria saber de quem era o lamento, muito menos se se tratava de alguém dentro do trem. Desejava apenas sair dali e, assim que a porta se abriu, saltou para fora do vagão com a única descarga elétrica que ainda lhe restava no cérebro. Fora o suficiente para sair, mas não para se manter em pé. Sophie tropeçou nos próprios pés e caiu no chão úmido e sujo da plataforma.
Por favor, me deixem em paz! Implorava, silenciosamente, ao mesmo tempo em que ouvia passos apressados vindos ao seu encontro. Pôde ver apenas alguns pés se aproximando do seu rosto caído no chão e tudo ficou nublado. Sophie foi sugada pela escuridão de sua mente e não ouviu nem viu mais nada.

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