As Faces do Mal: Capítulo 21

livro2Capítulo 21

Sophie estava no banco traseiro de um taxi e Kristen, sentada na frente, conversava animadamente com o motorista, um homem aparentemente latino, com cabelos penteados para trás num cuidado excepicional para conter os cachos rebeldes. Kristen havia contado a ela, pouco antes de o carro chegar, que Carlos era o seu motorista nas noites de balada. Bastava ligar que ele vinha correndo buscá-la, fosse a hora que fosse e em qualquer lugar. Carlos era casado e tinha dois fihos pequenos, o que não impedia que ele ficasse de olho em Sophie o tempo todo pelo retrovisor. Kristen devia ter percebido também porque, naquele momento, falava alguma coisa em italiano que fez Carlos passar as mãos pelo cabelo, encabulado. Kristen deu uma risada solta e olhou para trás. Sophie sorriu, sem ter certeza do por que.
Enquanto a conversa seguia animada na frente, Sophie duelava com a sua consciência. Uma vez dentro da casa, o que a moveria? Vigiar Kristen o tempo todo? Dar asas às suas fantasias? E Jesse? Optou por não fazer planos quanto ao sexo. Sobre Kristen, manteria seus olhos sobre ela o quanto pudesse, mas não poderia ficar espiando pela janelinha da cabine enquanto ela fazia sexo com alguém. Pensou em Anne e sentiu vontade de rir daquilo com ela. Anne, Anne…
Como estaria ela? Sophie acreditava que Brandon a havia acalmado, uma vez que Anne não lhe telefonara mais, nem mesmo para reforçar as recomendações antes da festa. Isso era incomum. Teria acontecido alguma coisa?
— Chegamos! — exclamou Kristen apontando para o alto de uma colina. A estrada era estreita e cheia de curvas, mas Sophie pôde ver a casa ao longe.  Parecia  grande  e  estava  bem iluminada  o  que  a  destacava  em meio  à
escuridão.
Uma curva para a direita, outra para a esquerda, e o estômago de Sophie começou a encolher. Alguns metros em linha reta e o coração de Sophie acelerou. Mais uma curva e a casa foi chegando mais perto, evidenciando toda a sua beleza e elegância. Sophie começou a suar e não pelos vinte e oito graus que fazia às onze da noite. Sentira aquele suor frio por dentro, já muito antes, o estômago tremer e uma ligeira vertigem.
Um enorme portão de ferro estava aberto e o caminho levava a um pátio de pedregulhos onde vários carros estavam estacionados. Uma pequena fonte enfeitava o centro do pátio. Sophie percebeu que não havia aglomeração alguma à porta, ao contrário, apenas um homem de terno, com o rosto duro como o de um militar, os braços para trás e os olhos fixos em algum lugar na escuridão.
Sophie não conhecia muito de arquitetura, mas poderia supor – graças às inúmeras vezes que Anne passou horas lhe mostrando fotos em revistas e livros de arquitetura e decoração − que a casa era no estilo neoclássico. O recuo retangular nos pisos inferior e superior era sustentado por colunas que lembravam os templos gregos. Suas imensas janelas verticais estavam fechadas e todo o resto iluminado com holofotes externos que emitiam uma luz amarelada sobre as paredes extremamente brancas.
Kristen pagou o taxista e se recusou a aceitar o dinheiro de Sophie. Kristen usava uma túnica grega branca feita de um tecido semitransparente, com adornos em cobre. Seus cabelos estavam presos de um lado e soltos sobre um dos ombros como uma cascata dourada. Assim que desceram do carro, ela fez sinal para Sophie colocar a máscara e ambas subiram os quatro degraus que levavam à entrada da casa, onde permanecia ainda imóvel o homem com aspecto militar. Kristen mostrou-lhe um cartão preto que ele olhou atentamente sem olhá-las nos olhos e lhes deu passagem.
— O que tem neste cartão? — perguntou Sophie baixinho. Kristen mostrou-o e ela leu a palavra “Convidado”. Kristen virou-o e, do outro lado, havia o nome de Alice em letras prateadas. Kristen sorriu puxando-a pela mão fazendo-a entrar no saguão.
O hall era amplo e bem decorado com paredes pintadas de terracota com telas de nus artísticos e um grande balcão de madeira envelhecida no centro onde duas lindas jovens, usando longos vestidos negros e decotados, recebiam os convidados. Os cabelos eram presos em um coque e a maquiagem delicada. Atrás delas, uma escada suntuosa de mármore se dividia no alto.
Ao redor da sala, sofás e pequenas poltronas também em estilo neoclássico eram iluminados por vários candelabros elétricos dispostos em pequenas mesas que ladeavam o saguão. Um imenso lustre de cristal pendia do alto da edificação.
— Boa noite, seja bem vinda à Villa Venturini — saudou, em italiano, uma jovem loira dos seus altos 1,80m. — Seu nome, por favor?
— Sophie Wellgrave — respondeu, domando a tensão na voz. O seu nível básico de italiano serviu para entender. A moça virou uma folha duas vezes e sorriu.
— Fique à vontade, Srta. Wellgrave e aproveite a festa — disse, sorrindo elegantemente. Sophie sorriu de volta, timidamente.
— Senhorita Lewis… — disse a jovem em um formal cumprimento a Kristen que apenas sorriu.
— Espere aqui que eu já volto — cochichou Kristen para Sophie e saiu em direção à escada.
Sophie sentiu o coração disparar. Pensou em correr atrás dela, mas ficou com receio de que os guardas a arrastassem para fora da festa. Havia dois deles ao fundo, colados às portas de vidro por onde se via um imenso jardim iluminado. Kristen passou pela escada, com o sapato ecoando pelo piso de mármore, e virou à direita, desaparecendo da vista, como se houvesse uma passagem secreta atrás da escada. Sophie sentiu-se perdida naquele ambiente refinado e exótico.
Uma música soava abafada, vinda de trás daquelas paredes, mas Sophie não sabia de onde exatamente e não pretendia encontrá-la sozinha. Tinha que esperar por Kristen. Mas onde ela estaria? Ouviu a voz aveludada da recepcionista saudar outros convidados e virou-se curiosa. A máscara não atrapalhava a visão, mas não podia se dizer que era confortável tampouco. Era leve, mas mesmo assim parecia um parasita agarrado ao seu rosto.
Em uma das paredes, um grande espelho emoldurado finamente refletiu a imagem de Sophie em seu vestido preto decotado, cabelos presos despojadamente com vários cachos que lhe caíam lateralmente. O brilho dos cristais em sua máscara fazia com que Sophie parecesse uma joia humana, delicada e sedutora com sua boca pintada de vermelho escuro.
Um casal bem vestido passava pela recepcionista e seguia para o lado esquerdo do salão por um corredor bem próximo de onde Sophie estava. Logo depois, o som de uma música fez-se mais alto e ela desconfiou que eles tivessem aberto uma porta. O som ficou abafado, novamente. Caminhou um pouco pelo imenso saguão tentando fingir-se confortável por estar sozinha em um ambiente onde as mulheres iam atrás de sexo seguro, fácil e livre.
Kristen, onde você está?
As pessoas continuavam a chegar e Sophie começou a se sentir incomodada por estar ali sozinha, plantada em pleno hall de entrada. Arriscou a caminhar pelo corredor por onde a maioria ia e encontrou uma porta pesada de madeira forrada em couro branco. Empurrou-a e se deparou com uma grande sala pouco iluminada. Havia grandes candelabros espalhados pelas mesas em volta do salão e suaves luzes em luminárias fixas às paredes. Sofás, chaises, pufes e poltronas estavam harmoniosamente espalhados pelo ambiente. Ao centro, um bar em forma de ilha. Sobre o balcão, delicados abajures dourados e pretos, com cúpulas em verde. A música era alta, mas não ensurdecedora. Ritmada, e poderia fazer qualquer corpo se movimentar em uma dança naturalmente sensual, como se as ondas se moldassem às curvas do corpo e apenas o induzisse a fazer o que tinha que fazer.
Anne iria adorar isso aqui. Parece bem melhor do que a casa de suruba que ela foi.
Sophie sorriu e se aproximou do balcão, pedindo uma bebida. A bartender sorriu, dando-lhe um Martini enfeitado com uma azeitona. Sophie ficou parada, saboreando o drink e, pela primeira vez, olhando em volta. Um misto de ansiedade, medo e preocupação fazia sua mão tremer segurando a taça. Onde estaria Kristen?
— Primeira vez? — perguntou a moça, em inglês, que se identificou como Marta, uma jovem polonesa que chegara à Itália há cerca de cinco anos.
— É — respondeu, sorrindo timidamente.
— Britânica, certo? — Sophie meneou afirmativamente. — Percebi pelo acento. — Sophie não disse nada. — No começo pode parecer estranho, mas acredite, é possível se divertir muito, com segurança e prazer — afirmou, com um olhar gentil.
— É, me disseram…
— As regras são diferentes, aqui.
— Sim, eu soube também… — Sophie não conseguia evitar ser quase monossilábica.
Marta acenou para uma moça negra na ponta do balcão e se dirigiu à Sophie novamente.
— Se precisar de alguma coisa, é só pedir. E não deixe de visitar as outras salas também. Você vai encontrar o espaço ideal para você, tenho certeza.
— Obrigada — agredeceu, vendo a jovem sair, sorrindo alegremente para atender a outra cliente. Ela vestia uma camiseta preta e um short preto apertado.
Outras salas… Onde diabos você se enfiou, Kristen?
Sophie ainda sentia-se estranha com aquela máscara sobre o rosto, mas preferiu assim quando um casal passou por ela, encarando-a. Seria aquilo o tal sinal do qual Kristen havia lhe falado?
Naquele momento, percebeu que talvez não estivesse preparada para aquele ambiente, como pensou que estivesse. Bebeu o resto do Martini em um gole, deixou o copo no balcão e, sem perceber como, um copo cheio surgiu à sua frente, novamente; e ela achou ótimo. Bebericou. Estranho como uma máscara faz alguém se sentir protegido. Era exatamente assim que Sophie se sentia, como se a sua identidade fosse intocável e suas atitudes não fossem mais de sua responsabilidade, mas de outra pessoa que usava o seu corpo emprestado. Esta ideia – e mais os martinis – começavam a fazê-la se sentir mais solta e menos preocupada com Kristen.
Isso  não  está  certo.  Você  está  aqui  por  um  motivo  bem  específico.
Advertiu uma voz sóbria dentro ela. Sophie riu de si para si mesma. Estava começando a ficar tonta. E estava achando delicioso. A música, a bebida e a sensação de anonimato foram mexendo com aquela parte sensível da mulher. Aquela que nos empurra para algo que você sabe que vai se arrepender para o resto da vida e, mesmo assim, se joga de cabeça, se lambuza toda e depois… chora.
Sophie Wellgrave, acho que estamos bêbadas. Disse a si mesma e começou a rir. Não era um bom sinal. Achou melhor caminhar um pouco. De onde estava, com a luz dos abajures ao seu lado e as luzes indiretas que vinham do retângulo decorativo sobre o bar, Sophie mal conseguia enxergar todo o salão. Decidiu sair do bar e procurar um local onde conseguisse ver melhor. Afinal, estava começando a ficar curiosa. Onde estava todo aquele sexo de que tanto ouviu falar? E onde está a Kristen?
A medida que caminhava, começou a notar os casais se beijando nos sofás. Alguns em um estágio mais avançado, com mãos que tateavam dentro os decotes ou fendas dos vestidos. Outras se perdiam dentro das calças masculinas.
Sophie começou a notar o tecido do próprio vestido roçar sobre os seus seios, como se eles tivesse ficado mais sensíveis, de repente.
Três mulheres se acariciavam, mutuamente, sem pudor, em um sofá redondo azul marinho. Elas eram observadas por mulheres e casais visivelmente excitados.
Sophie começou a sentir ainda mais o efeito das duas taças que tomara. Continuou seu passeio pelo salão e as cenas eram bem parecidas. Seu coração passou a pulsar no ritmo das batidas sensuais da música house que enchia seus ouvidos. Ela reconheceu a sequência das músicas como sendo um CD que Jesse adorava do DJ Vintronic Simon que, ironicamente, se chamava Dry Martini. Sophie sorriu. Estava sorrindo facilmente, já. Pensou em Jesse e nas vezes que fizeram sexo ouvindo aquelas músicas. Parou por um instante, próxima a um dos cantos da sala, e ficou apenas observando, deixou-se levar pelas ondas musicais. Os braços estavam frouxos, assim como os ombros. Fechou os olhos e sentiu seu corpo se movimentar delicadamente, como se uma brisa a empurrasse de um lado ao outro.
— Gosto do jeito que você dança — sussurrou uma voz em seu ouvido. Sophie sentiu o coração saltar. Abriu os olhos rapidamente e virou-se para trás.
— Kristen! — exclamou, dando-lhe um abraço animado.
— Então, está se divertindo?
— Eu estava preocupada! Onde você se meteu?
— Ah, fui ao banheiro.
— Atrás da escada?
— É… Vem, vou te mostrar uma coisa — desconversou, puxando Sophie pela mão.
As duas atravessaram o salão novamente e Kristen abriu uma porta lateral que Sophie não tinha percebido. Ela dava para outra sala, igualmente grande, um pouco mais iluminada, com uma piscina no centro, como os antigos banhos romanos. Sobre os sofás e cadeiras, jaziam, esquecidas, as roupas dos que se divertiam sob as águas.
Uma jovem de origem asiática estava sentada à borda da piscina enquanto um rapaz estava com a cara enfiada nas suas partes íntimas e outro deliciava-se em seus seios. No centro da piscina, bem iluminada por luzes instaladas no fundo e nas laterais, havia uma espécie de ilha onde um trio, dois homens e uma mulher, fazia um ménage sob olhares atentos e famintos de outros.
— Tome um gole disso, está uma delicia — disse Kristen, passando-lhe um copo com um líquido cor de rosa. Sophie não perguntou o que era. Sentia o coração bombear o sangue com violência por todo o corpo, principalmente entre as pernas. E agora que Kristen estava segura ao seu lado, poderia se relaxar um pouco mais. Mais ainda? Depois de dar um gole, devolveu o copo. Era vodka e estava deliciosamente gelada.
— Acho melhor eu não abusar. Não quero perder o melhor da festa — afirmou, com a voz já ligeiramente mole.
— É isso aí! — exclamou, puxando-a para se sentarem em um dos divãs.
Bem próximo a elas, em um pequeno sofá de dois lugares, havia um casal que se beijava. A moça estava praticamente nua, com o ombro do vestido direito caído e o seio à mostra. A parte de baixo do vestido estava erguida até a cintura. A mão do rapaz, entre suas pernas, fazia movimentos que a excitavam alucinadamente. Ao menos os gemidos que vinham de lá quase em gritos diziam isso. Sophie não soube se era por causa dos dedos longos e ágeis do sujeito ou se a mulher era mesmo histérica. Sophie começou a rir baixinho.
— O que foi?
Sophie indicou o casal, com a cabeça. Kriste sorriu.
— Você não viu nada. Aqui as mulheres se soltam, vivem o que normalmente não podem. Veja aquela outra ali — disse, indicando com o queixo para outra garota, deitada no divã do outro lado da piscina, sozinha, se masturbando com um vibrador. Ou melhor, dois. Sophie arregalou os olhos e deixou o queixo cair, naturalmente. Foi a vez de Kristen rir à vontade.
Sophie continuou a olhar em volta e começou a perceber os vários olhares que a encaravam. Kristen também percebeu.
— Vou ao bar pegar mais um desses. Você quer alguma coisa?
— Não, mas vou com você.
— Não, fique aqui e relaxe. Você já tem admiradores, aproveite! — instigou, levantando-se rapidamente.
Enquanto Kristen saía, Sophie a observava. Eu deveria ir atrás dela. É para isso que estou aqui. Mas não foi. Ou porque estava ligeiramente bêbada ou porque, no fundo, como havia dito Anne, era tudo uma desculpa para estar ali e fazer o que queria fazer. Realizar as suas fantasias e esfregar na cara de Jesse que ela, assim como ele, também as tinha e que decidira colocá-las em prática. Ele abrira precendetes, então, que se danasse.
O Martini estava fazendo efeito, sim senhor.
Cruzou as pernas e a longa fenda lateral abriu totalmente exibindo toda a sua coxa direita. Ela levou a mão para cobri-la, mas parou no meio do caminho. Sentia um desejo crescente de ser observada, admirada. Desejada. Apenas pousou a mão sobre a coxa e o toque em sua própria pele a excitou. Esqueceu completamente de seguir Kristen ou de vigiá-la. Mordeu os lábios, delicadamente, vendo, ouvindo e sentindo todo o prazer ao seu redor.
Sentindo a pulsação entre as pernas atingir um nível quase crítico, respirou profundamente. Poderia escolher qualquer um para lhe proporcionar o prazer que desejava que não ouviria recusa. Homens e mulheres a observavam. Algumas mulheres ousavam fazer-lhe sinais discretos, como uma piscada ou um aceno com a cabeça, mas Sophie apenas sorria e olhava para outra direção. Era suficiente para que não se aproximassem.
Viu, novamente, a garota brincando com o vibrador. Sentiu um desejo imenso de se tocar, ali mesmo, como fazia ela. Pena que não tinha um brinquedinho daqueles. Parecia que a mulher estava mesmo aproveitando. Foi, então, que a jovem parou e fez um sinal para um homem que a observava a poucos passos de onde Sophie estava. Ele foi caminhando, calmamente, com um sorriso maroto nos lábios. Ela fez um gesto para que ele se abaixasse e lhe deu um beijo ardente na boca. O rapaz abriu-lhe as pernas com uma das mãos, enfiou-lhe o dedo e ela começou a despi-lo. Instintivamente, Sophie virou a cabeça, evitando olhá-los, como se eles não estivessem ali para serem vistos.
Sophie suspirou, acariciando os cachos que lhe caíam ao lado o rosto e se deparou com um par de olhos fixos nela. Eram de um homem alto, de cabelos escuros anelados. Usava uma camisa preta sob um colete cinza claro e uma calça social também preta. Embora o ambiente não fosse muito iluminado, ela podia jurar que seus olhos eram azuis profundos. Ele ergueu o copo, oferecendo-lhe um brinde. Sophie, sorriu, baixando levemente a cabeça. O misterioso sujeito começou a caminhar e Sophie pensou em correr. Homens, normalmente, tinham que entrar acompanhados, na festa. Onde estaria a acompanhante dele? Será que viria a seguir, oferecendo-se para um sexo a três? Sophie sentiu um fio gelado descer-lhe pelo estômago. Empurrou a imagem de Jesse e Adrian com força para um lugar bem distante. Mordeu os lábios novamente. Queria levantar-se, mas não conseguia. Queria ficar, queria experimentar. Sim, ela queria tudo, naquela noite. Sua razão lhe dizia pra sair dali, mas sua libido fincou-a no divã, impedindo-a de se mover dali, agitada e eufórica.
Ele não veio em sua direção, diretamente. Sophie desviou o olhar para a piscina. A jovem oriental, agora, estava de quatro à beira da piscina sendo penetrada pelo homem que, antes, lhe sugava os seios. O outro que a massageava com a língua, agora transava com outra mulher, sob as águas.
Não havia compromisso, não havia amarras, apenas o prazer. Será que eles usam camisinha?
— Posso me sentar com você? — falou uma voz masculina em seu ouvido. Sophie sentiu a pele se eriçar. Virou-se e encarou os olhos dele. Sim, eram azuis. Conseguiu apenas sorrir, já que não conseguia responder.
— Aproveitando a noite? — insistiu ele, ainda em pé.
— Desculpe, não falo italiano — respondeu, com dificuldade.
— Britânica? — perguntou ele.
— Sim.
— Sem problemas — disse, em um inglês decente. — Posso me sentar ao seu lado?
— Hã… claro — não era para os homens se aproximarem só quando as mulheres pedissem? Pensou Sophie, confusa.
— Obrigado.
Quando ele se sentou ao seu lado, Sophie sentiu o tecido da calça dele roçar a sua coxa e ela, automaticamente, afastou-se, ligeiramente.
— Então, está aproveitando a noite? — repetiu.
— Ainda não. E você? — perguntou uma voz que vinha de dentro de Sophie, mas não era dela. Podia jurar que fosse da sua libido, intrometida.
— Pra falar a verdade, ainda não — disse ele, levando o copo à boca, que se abriu suavemente e tocou a taça. Era como se cada movimento dele fosse calculado, projetado para excitá-la. E ele estava conseguindo. Verdade seja dita, ela já estava excitada antes dele. Talvez muito antes dele e da festa.
Depois de beber um pequeno gole, o rapaz, por volta dos 30 anos, ofereceu-lhe uma bebida, mas Sophie recusou.
— Minha amiga já foi buscar.
— Vocês estão juntas?
— Sim… quer dizer… não… bem… — ele riu.
— Entendi. Amigas, mas não juntas.
— Isso — concordou Sophie, sorrindo aliviada.
Aquele homem ao seu lado, que certamente era um modelo de revista (disso Sophie entendia), abriu os botões do colete com uma das mãos e acomodou-se melhor, virando-se de frente para ela. O pouco que Sophie podia ver do peito dele, pela abertura superior da camisa, deu-lhe a impressão de ter um físico de atleta. A musculatura era forte também nos braços e o perfume, Sophie reconheceu, era Hugo Boss.
A barba era bem feita e o rosto, esculpido por mãos angelicais, lembrava o do ator Matt Bomer, embora a versão à sua frente não fosse gay. Ao menos, não parecia, já que estava ali, oferecendo–se todo para ela. Uma sombra do rosto de Jesse passou-lhe pela mente, mas Sophie a espantou, novamente.
— Marco — disse ele, estendendo-lhe a mão.
— Sophie — falou, retribuindo o gesto, sentindo a firmeza de seus dedos. O cumprimento durou mais tempo do que o habitual e Marco massageou o dorso da mão dela com a ponta dos dedos. Uma onda fina de excitação percorreu-lhe o braço, descendo direto para o seu ponto fraco da noite. Sophie sorriu e puxou a mão.
— Primeira vez?
— É tão óbvio assim? — perguntou ela, sorrindo.
— Um pouco, mas é natural. Por favor, me diz se estou sendo inconveniente.
— Não, tudo bem — falou, sentindo as bochechas queimar.
Onde está você, Kristen? Perguntava, como se a nova amiga pudesse lhe salvar daquela situação. Olhou para ele e tudo o que viu − o rosto, a pele, os olhos, a boca, os braços, o cheiro − a convidava a abraçá-lo e beijá-lo. Só para começar! Poderia fazê-lo. Esta era a regra naquele lugar maravilhoso. As mulheres mandavam e desmandavam. Então, por que não o fazia? Não era esta a sua fantasia? Entregar-se loucamente a um desconhecido, usá-lo como um simples objeto de prazer e depois abandoná-lo? Ainda mais um desconhecido maravilhoso e cheiroso… Deus do céu…
Ele deve ter percebido o dilema de Sophie e o desejo crescente dela. Seus olhos azuis desceram até os seus lábios cheios, o seu ombro nu, seus cabelos cacheados e ele umedeceu os lábios, discretamente.
— É difícil resistir à sua beleza e à sensualidade que emana de você — afirmou, em voz baixa, como se não quisesse ser ouvido.
Meu Deus, de onde saiu este homem? E os olhos dele continuaram a esquadrinhá-la. Percorreram a perna dela nua, cruzada, subindo pelo vestido, parando à altura dos seios, admirando o volume e a proeminência dos mamilos intumescidos sob o tecido.
Sophie baixou os olhos sobre os próprios seios e percebeu-os excitados, também. Não que ela não os sentisse, mas apenas foi se certificar o que o olhar dele havia descoberto. Ela ergueu as costas ainda mais eretas, forçando os seios contra o tecido, o que Marco entendeu como um convite. Ele levou a mão às costas dela, nuas no decote profundo do vestido.
— Você está desconfortável neste sofá? Quer mudar de lugar? — Sophie sentia a mão dele massageando suas costas com os dedos quentes e rígidos descendo até o final do decote, próximo demais da curva de suas nádegas e, depois, subindo exatamente pelo centro da espinha até a nuca. Achou que os mamilos fossem atravessar o tecido.
E se ele defizesse o laço do vestido em seu pescoço? A parte da frente cairia e seus seios ficariam expostos e ele poderia beijá-los e acariciá-los livremente.
Meu Deus, Kristen onde está você?
— Acho que vou aceitar um gole do seu copo, agora.
Marco sorriu, passando-lhe o copo. O líquido desceu quente pela garganta direto ao estômago. Quando Sophie se virou para devolver-lhe o copo, os lábios de Marco já estavam sobre os seus.
— Me permite? — sussurrou ele, com os lábios ainda sobre os dela suavemente. Sophie não respondeu. Qualquer que fosse a resposta, não saíra. Ela apenas pressionou os lábios nos dele e tocou-os com a ponta da língua, delicadamente.
O beijo evoluiu vagarosamente. Tinha gosto de Vodka. Íntimo, sem ser devastador, profundo ou opressivo. As línguas se tocavam desejosas, e a mão de Marco nas costas de Sophie a puxou para mais perto dele, fazendo-a descruzar as pernas para não perder o equilíbrio.
Com a outra mão, Marco tocou-lhe a perna nua, apertando-a gentilmente, subindo em direção à coxa, mas parando no ponto certo.
— Devo? — sussurrou ele, novamente interrompendo o beijo e Sophie apenas respirou, com os lábios no dele, sentindo o seu hálito se misturar ao dela.
Ela ainda segurava o copo, embora a vontade fosse de jogá-lo para longe e envolver o corpo de Marco em seus braços. Com a mão livre, massageou os cabelos dele, sentindo-os sedosos e cheios entre os dedos.
Quando o beijo chegou ao fim, Marco tirou o copo da mão de Sophie e levou-o até uma mesa ao lado, fazendo-o se levantar do pequeno sofá. Ela notou o volume por baixo do tecido da calça e suspirou, sentindo a pequena calcinha úmida sob o vestido. Marco se movia como se estivesse desfilando somente para ela, despindo-se do colete e abrindo alguns botões da camisa, exibindo um peito dourado, liso e bem esculpido. Sophie não conseguiu nem suspirar. Ficou apenas observando toda aquela beleza.
Quando ele se sentou ao seu lado novamente, puxou-a para um novo beijo e sua mão voltou a percorrer-lhe as costas. O longo braço dele contornava a cintura de Sophie e a mão se enfiou pela sua cintura nua, tocando-lhe a barriga, subindo lentamente, chegando ao seio. Os dedos passaram suavemente sobre o mamilo, enquanto o beijo se intensificava. Sophie o queria inteiro.
Tocou-lhe a coxa e sentiu a mão dele guiá-la até a virilha, subindo pelo volume do seu pênis. Era proporcional ao tamanho e à firmeza dos dedos. Ela sentiu suas pernas se abrirem um pouco mais e Marco aproveitou-se do momento. Desceu a sua mão direita e enfiou-a pela abertura do vestido entre as coxas de Sophie.
Oh, meu Deus, o que estou fazendo? Indagou a si mesma, em um fio de lucidez antes de ceder completamente à sua fantasia; antes de se entregar às mãos daquele estranho. Sentiu que algo intenso e verdadeiro começava a se perder em meio à névoa que se formava em sua mente. E ela identificou, já sem muita definição, o rosto de Jesse. O seu sorriso e os seus olhos caramelados se despediam dela se desfazendo por algo que Sophie estava colocando entre eles. Era a sua escolha. A sua decisão de viver a sua própria vida e deixar os momentos vividos entre eles no passado.
Antes de desaparecer completamente, Jesse ergueu uma das mãos e lhe jogou um beijo. Seus olhos sorriram tristes para ela e Sophie sentiu o calor daquele beijo em sua face, tocando-a suavemente para, depois, sumir devagar, deixando sua pele fria já sentindo a ausência dele.
— Desculpe, eu não posso — sussurrou ela, sentindo os dedos firmes de Marco acariciando-a e, de repente, tudo aquilo lhe pareceu errado. Agradeceu por ainda estar de máscara. Era tudo mais fácil quando se usa uma máscara.
— Foi algo que eu fiz? — perguntou ele, com doçura. Sophie sorriu.
— Não — suspirou. — Na verdade, sou eu o problema. Tem uma coisa aqui dentro que não vai me deixar em paz nunca se eu fizer isso — disse, apontando para a própria cabeça. Marco sorriu para ela com ar maroto.
— Fica tranquila. Isso se chama consciência e ás vezes é uma merda mesmo — disse, ajeitando um dos cachos de Sophie que caía sobre o rosto. — Ele é um cara de sorte. Espero que ele saiba disso. — Sophie não disse nada. Apenas sorriu para ele, olhando-o pela última vez.
Marco lhe deu um beijo no rosto, no mesmo lugar onde Sophie imaginou o beijo de Jesse, mas o de Marco não tinha o mesmo calor e ela teve certeza de que tomara a decisão correta. Ele se levantou e saiu. Sophie suspirou e olhou para frente vendo a barista cruzar o salão, olhando para ela com curiosidade. Sophie se levantou e foi ao seu encontro, evitando olhar em volta. O que antes aos seus olhos era divertido e até natural, começou a lhe parecer estranho, como ouvir uma língua estrangeira. Sentiu-se deslocada, para dizer o mínimo.
Passou pela porta e, enquanto caminhava até o bar, viu Kristen conversando, animadamente com um rapaz e sentiu-se aliviada. Na verdade, sentiu-se novamente no caminho certo. Agora, sem nenhuma distração, poderia se concentrar no que era mais importante.
— Não me diz que você dispensou o Primo? — perguntou Marta assim que Sophie se aproximou do balcão.
— Primo? — perguntou Sophie
— O Marco!
— Ah… Você o conhece?
— Claaaaro! — exclamou ela, exageradamente. — Todas o conhecem. — Sophie sentiu-se menos importante do que se sentira quando ele a tocava. — Ele e a esposa não perdem uma festa.
— Esposa? — perguntou, espantada. Marta acenou com a cabeça em direção á porta.
— Olha ali.
Sophie se virou e o viu caminhando tranquilamente ao lado de uma mulher morena cuja beleza a impressionou. Os cabelos castanhos lisos estavam perfeitamente alinhados, caindo naturalmente pelas laterais do rosto. Ela não usava máscara e os olhos eram vivos e penetrantes sob uma maquiagem agressiva, tanto quanto a roupa que ela usava. Um espartilho de couro preto bem apertado na cintura e uma bota de saltos muito altos que lhe cobriam a perna até o meio da coxa. Fora disso, apenas uma calcinha preta, também de couro, e mais nada.
— E aquela é a Letizia, a esposa dele.
— Aquela é a esposa dele? — perguntou Sophie, quase em choque.
— É. Ela é um fenômeno, não acha? — falou Kristen, chegando naquele exato momento ao lado dela no bar, sem ouvir o começo da conversa. — Ela faz mais o gênero dos fetiches. Ela é uma Dominatrix.
Marta percebeu o semblante de interrogação de Sophie.
— Já sei. Você não faz ideia do que seja uma Dominatrix. — Sophie riu.
— Faço uma ideia… — Marta riu também. — Mas como isso pode funcionar? Quero dizer. Eles são casados mesmo?
Marta saiu para atender um casal que se aproximou do balcão.
— E qual o problema? Você acha que aqui são todos solteiros? Tem muitos casais como eles que vem aqui para se divertir, sem culpa, sem estresse. Isso aqui é fantasia, sexo puro. Não tem esse lance de ciúmes ou possessividade. Não pode ter — Kristen fez um sinal para Marta trazer outra bebida.
— Nuvo saindo… — falou, colocando o copo no balcão. Sophie o levou à boca e sentiu novamente oo sabor da Vodka, mas desta vez era diferente do que bebera do copo de Kristen, no início da noite. Mais sóbria do que antes, pôde sentir melhor o sabor. Era uma das bebidas mais pedidas nas festas, um misto das duas melhores bebidas: Champagne e Vodka. Kristen sorriu e jogou a Marta um beijo displicente. Marta olhou para Sophie e comentou com Kristen em tom de admiração. — A sua amiga acaba de dispensar o Primo — e se virou e pegar uma garrafa no balcão interno.
— Jura? — perguntou Kristen, curiosa.
— Por que vocês o chamam de Primo? — as duas riram. — E o que tem de mais nisso? — perguntou Sophie. Marta e Kristen sorriram em cumplicidade.
— Você é mesmo diferente, garota — falou Marta, balançando a cabeça.
— Marco é uma unanimidade por aqui. Praticamente todas que entram para o clube o escolhem como primeiro parceiro. Por isso o chamamos de Primo, perimeiro em italiano.
— Ah, entendi… Mas pelo que eu vi, é ele quem escolhe e não o contrário. Ele fica ali, encarando com aqueles olhos penetrantes, lindo daquele jeito… Qual é… achar que somos nós que o escolhemos é uma ilusão — ponderou ela.
Sophie olhou novamente para Marco e Letizia e o olhar dele encontrou o dela. Marco sorriu educadamente. Letizia, por sua vez, nem tomou conhecimento. Sophie sentiu-se incrivelmente comum, quase insignificante e, por incrível que possa parecer, ela não se importou com isso. Marco e Letizia que se danassem.
Alice surgiu logo atrás deles em um vestido colado ao corpo do mesmo tom da sua pele que dava a impressão inicial de que ela estava nua. Ainda mais com a facilidade em que se via os seios e até mesmo a penugem sobre a pélvis.
Não foi isso, porém, que quase fez Sophie parar de respirar, mas os cabelos de Alice. Os fios lisos e dourados de antes deram lugar a uma cabeleira volumosa acobreada. Alice avistou Sophie e veio até ela, sorrindo.
— Ah, seja bem vinda, Sophie! — exclamou, aproximando-se, dando-lhe um abraço e um beijo no rosto.
— Obrigada… — disse com a voz um pouco distante. — Os seus cabelos…
— Gostou? — perguntou, massageando-os provocantemente. — Adoro mudar de cara para as festas. Tenho uma coleção de perucas no meu quarto. — Sophie não respondeu. Havia alguma coisa errada. Seu estômago começou a revirar e teve certeza de que ia desmaiar. — Aliás, preciso mesmo te mostrar uma coisa lá em cima. Terceira porta à direita. Quando quiser… — falou Alice em um convite explícito. Sophie baixou os olhos nas mãos de Alice e percebeu os mesmos esmaltes vermelhos escuros. A cabeça de Sophie começou a girar e as imagens das visões começaram a se encaixar em sua mente, como se um vento as tivessem levantado no ar e, agora, caíam, encaixando-se facilmente.
—  Com  licença,  preciso  ir  ao  banheiro…  —  levantou-se,  sentindo-se tonta.
— Eu te levo — disse Kristen, pegando-a pelo braço e guiando-a até o fundo do salão. Passaram por Marco e Letizia novamente e Sophie sentiu o estômago embrulhar mais ainda.
Entraram pela porta do banheiro e uma garota asiática, vestida com um tailer preto muito justo e curto, veio atendê-las.
— Posso ajudar? — perguntou, educadamente.
— Tudo bem, ela só precisa vomitar — respondeu sem cerimônia e Sophie correu até a primeira porta aberta que encontrou. Era o chuveiro.
Mas que merda!
— Por aqui — falou, formalmente, a jovem asiática, estendendo um longo braço na direção à direita delas.
Sophie correu com Kristen logo atrás dela. Finalmente, a privada. Sophie se debruçou sobre ela e sentiu a cabeça girar. O estômago parecia que estava virando do avesso, mas o pior foi a agulhada atrás da orelha.
Não… Não! Gritou ela em sua mente, tentando afastar o que estava por vir. Ah, se ela ao menos pudesse frear aquilo pelo menos por uma única vez, certamente seria agora, mas ela não podia. Então, agachou-se, agarrada á privada, á     beira das lágrimas. Por favor, agora não.
— Você quer que eu faça alguma coisa? — perguntou Kristen achando que o problema de Sophie fosse apenas uma bebedeira.
— N-não… — foi a única palavra que conseguiu falar antes de sentir o velho tremor subir-lhe pelo corpo e o frio descer pela espinha, como se toda a sua energia escorresse por um cano imaginário dentro dela e desaparecesse através de alguma passagem secreta.
Sophie estava em outro mundo, ou melhor, em outra mente.
Como eu vou fazer isso, agora? Sussurrava uma voz estranha de mulher.
Está tudo perdido e ela vai me matar! A menos que eu consiga reverter isso, mas como? Se debatia aquela voz aflita. Eu consigo… eu consigo. É só manter o plano, é o que ela sempre me disse. Manter o foco e ser criativa.
Flashes da escada acarpetada piscavam em sua mente intercaladas com Kristen amarrada na cama dossel e a sensação de angustia, raiva e medo invadiam simultaneamente todos os sentidos de Sophie que agarrava a privada com mais e mais força.
Meu bebê, meu bebê… gemia a voz, carregada de dor.
— Sophie? — falou uma voz ao fundo tão fraca que ela quase não reconheceu. — Você está bem? — perguntava Kristen ao seu lado.
Sophie tinha que decidir entre respirar ou responder. Kristen ia ter que esperar. Respirou vagarosa e superficialmente uma vez, duas, três até que, pouco a pouco, a sua capacidade de controlar a si mesma foi voltando ao normal.
— Tudo bem, acho que só bebi demais, já passou — respondeu, com a voz mais firme que pôde. Sophie tinha que estar pronta porque, o que quer que viesse a acontecer, não tardaria. Levantou-se do chão, arrumando o vestido e controlando cada movimento para que parecesse normal. Olhou para Kristen que tinha um olhar indeciso e triste. — Está tudo bem — sorriu e saíram do banheiro cujo brilho do mármore e das peças em dourado chegavam a ofuscar a sua vista.
Mármore branco, limpo e cristalino. Observou Sophie.
Foi com prazer que entrou, novamente, no salão mal iluminado, em comparação com o toilet. Alice estava saindo do bar e Kristen ficou aflita.
— Você está bem mesmo? Eu… Eu preciso falar com a Alice — Kristen estava inquieta e não precisava ser telepata para ver isso. — Agora. Preciso falar com ela agora — e saiu.
Sophie a acompanhou com os olhos, caminhando apressadamente logo atrás dela. Viu quando Kristen se aproximou de Alice e falou algo em seus ouvidos. A reação dela não fora cordial e Kristen tentou convencê-la. Alice saiu do bar e Kristen seguiu atrás. Sophie apressou-se e seguiu-as. Havia algo acontecendo ali, bem embaixo do seu nariz e era sério e urgente. Elas saíram do salão, passaram pelo saguão e subiram as escadas. Sophie via tudo de longe, sem saber se conseguiria segui-las sem ser vista. E, principalmente, se conseguiria subir as escadas com aquele tanque de guerra parado com os braços cruzados para trás e cara de nenhum amigo.
— O que tem lá em cima? — perguntou Sophie, em inglês, para uma das recepcionistas e, felizmente, ela lhe respondera.
— Os quartos de hóspedes. Muitos vêm de longe e se hospedam aqui, passam o fim de semana e aproveitam a festa. É um delicioso lugar para se ficar. Temos café da manhã completo e uma piscina nos fundos — disse ela apontando para além da porta de vidro no fundo do saguão. Sophie virou-se e percebeu então, no centro do jardim iluminado, uma piscina e alguns vasos decorativos além dela.
— É uma bela casa… — murmurou Sophie. — Será que eu posso visitar um dos quartos? Quem sabe me animo a ficar aqui um pouco mais? — mentiu com uma facilidade que Anne ficaria orgulhosa.
— Claro, sem problemas. Vou agendar uma visita e solicitarei que alguém entre em contato com a senhorita amanhã.
— Não pode ser agora?
— Preciso de uma autorização da Sra Collins, primeiro.
— Ela acabou de subir, posso ir falar com ela pessoalmente…
— Eu receio que não, eu sinto muito. Ninguém sobe sem a permissão dela. A “Senhora” é muito rigorosa com a privacidade dela e dos hóspedes.
— Entendo. Posso conhecer a piscina?
— Sem problemas — respondeu, fazendo um sinal com a cabeça para o sargentão aos pés da escada. — Ele vai abrir a porta para a senhorita. — Sophie deu-lhe um sorriso amarelo, quase enfurecido. Ela tinha que ir atrás de Alice e Kristen e tinha que ser naquela hora, mas não podia subir correndo as escadas sem ser agarrada pelo dog alemão primeiro.
Ela tinha que bolar um plano e rápido. No caminho até a porta de vidro, Sophie passou pela escada e, também, pela passagem por baixo dela, onde Kristen entrara logo que chegaram à festa. Ela viu uma pequena porta e perguntou ao seu mais novo guarda costas.
— Posso ir ao banheiro?
Ele seguiu o olhar de Sophie até a porta sob a escada e disse secamente.
— Ali é a cozinha, madame — e abriu a porta de vidro de acesso ao jardim.
Cozinha? Por que Kristen mentiu? Será que mentiu? Deve haver um banheiro por aqui… não… eu tenho certeza de que ela entrou por ali… mas que merda está acontecendo?
Sophie fez um esforço para fingir apreciar a vista. Viu a piscina iluminada, o jardim, as estátuas de querubins, os vasos e as flores, tudo de muito bom gosto, mas nada daquilo tinha absolutamente nenhuma utlidade para ela, que queria apenas subir as malditas escadas.
Pense, Sophie, pense, droga!
Caminhou até próximo da piscina, como se contemplasse o jardim, virou-se a admirou a casa que estava atrás dela. As altas portas de vidro do saguão iluminado, outras janeas de vidro igualmente altas fechadas – que davam para os salões de festa, deduziu – e, no andar de cima, que era o que lhe interessava, quase todas as janelas estavam fechadas. Alguns quartos possuíam varandas, outros não. Se soubesse qual era o quarto de Alice, poderia subir até a varanda. Calculou que seria pelo menos sete, oito metros de altura. Impossível. A menos que tivesse uma daquelas ferramentes com cordas que sempre via nos filmes. Sem chance. Tinha que subir pelo meio convencional. Sophie desceu o olhar e percebeu que a parede da casa era toda rodeada por arbustos. Podia ser um plano besta, mas se ela não tentasse nunca saberia.
Olhou para o arbusto mais longe, franziu a testa e chamou o segurança.
— Acho que vi alguma coisa se mexer ali. Um animal bem grande. Tem algum cachorro por aqui?
— Não — respondeu ele secamente.
— Olha! De novo! Correu por ali. Meu Deus, será que algum animal veio pela mata ate aqui? — A casa ficava no alto de uma montanha, sem vizinhos, apenas a escuridão da noite. — Eu tenho certeza de que vi alguma coisa — e começou a caminhar até o arbusto, corajosamente.
— Senhora, por favor, espere aqui — disse ele em tom severo. Sophie não ousou desobedecer e, enquanto ele se afastava, ela aproveitou a brecha para voltar ao saguão. Tomou o cuidado para não correr para não chamar a atenção e, quando entrou, as duas recepcionistas estavam de costas, atendendo alguns convidados que deixavam a festa e outros que chegavam. Era a sua deixa. Tirou os sapatos e começou a subir os degraus sentindo o estômago tremer novamente. Arrancou, também, a máscara do rosto. Aquilo a estava sufocando, já.
Sophie chegou ao topo da escada sentindo o coração pulsar na garganta. Preparou-se para correr em busca de Kristen, mas deu de cara com um dos seguranças vindo pelo corredor. Por sorte ele falava ao rádio e não percebeu aquela mulher, em um vestido todo decotado, escondendo-se atrás de uma coluna.
Terceira porta à direita. Lembrou Sophie, escondendo-se como pôde atrás da coluna enquanto aquele armário vestido de terno passava por ela. Assim que a passagem ficou livre, Sophie pôs-se em movimento e em segundos estava diante de uma grande porta branca. Sentiu novamente a fisgada atrás da orelha e o estômago endurecer. Eram péssimos presságios. Pensou em Anne e teve certeza de que estava diante de uma daquelas situações na vida em que tudo pode mudar de um segundo ao outro.
Respirou fundo, colocou a mão na maçaneta, girou-a devagar e empurrou a porta que deslizou sobre um carpete cinza chumbo silenciosamente. Sophie colocou um pé para dentro do quarto e foi como se estivesse despencando em um precipício. Sentiu o coração gelar, mas entrou mesmo assim. Havia feito a escolha errada e sua vida estava, definitivamente, condenada a mudar no próximo segundo.

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