As Faces do Mal: Capítulo 19

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Capítulo 19

Alice e Kristen buscaram Sophie no apartamento e foram à casa de Kristen, que morava do outro lado da cidade o que, para Reggio Emilia significava a dez quilômetros de onde Sophie estivera hospedada nas últimas duas semanas. O pequeno apartamento ficava em um bairro com prédios todos parecidos de três andares, com tijolos aparentes e varandas quadradas. Pareciam grandes caixotes em tons amarelados com janelas e portas pintadas em verde musgo. Havia sempre uma pequena cerca circundando os edifícios, ao redor e um estreito jardim. As ruas eram largas e limpas, com ciclovias de ambos os lados e a paisagem era ligeiramente monótona.
Embora fosse um pequeno apartamento, havia espaço suficiente para um quarto de casal, uma sala com cozinha integrada e um banheiro. As mobílias não combinavam muito bem, mas quem se importava? Era perfeito para uma jovem solteira. Sophie sentiu, novamente, aquela sensação de estar fazendo uma coisa absurda, insana e ridícula ao apoiar sua mala no sofá, que seria a sua cama por talvez uma semana. O que estou fazendo aqui?
Aquela vozinha interior irritante logo se calou quando Sophie se lembrou perfeitamente do diálogo que ouvira em sua mente na noite anterior. Algo estava prestes a acontecer. Alguma coisa que envolvia duas pessoas de personalidades muito distintas, focalizadas em uma terceira pessoa. Sophie foi até a varanda, um pequeno espaço de seis metros quadrados com duas cadeiras e uma mesinha de plástico branco, enquanto Kristen fazia um café. Alice veio fazer-lhe companhia.
— Então, animada para a festa de amanhã? — perguntou sentando-se à pequena mesa.
— Pra dizer a verdade, estou — respondeu, sentando-se ao lado dela.
— Eu tenho certeza de que você vai adorar — afirmou Alice, esboçando um sorriso.
— Alguma dica sobre a festa? — perguntou, enquanto Kristen apoiava a bandeja com as xícaras de café na mesa.
— Acho que não — respondeu Alice. — Olha, não tem mistério. É uma festa como outra qualquer, com a diferença de que as pessoas podem fazer aquilo que tem vontade. Principalmente as mulheres. — Deu uma pausa para saborear um gole do café. — Por exemplo — continuou. — Se você ficar a fim de tirar a roupa e dançar, ninguém vai te impedir. Ou, se você quiser se aproximar de um cara para seduzi-lo ou fazer sexo com ele, ninguém vai te impedir ou julgar. Ou atrair alguma mulher, enfim. Estão todos na mesma sintonia, entende?
Sophie acenou com a cabeça afirmativamente, sem tocar no café.
— Do mesmo jeito que se você só estiver a fim de se sentar, beber e ficar observando, também pode. Você é livre para fazer o que quiser, inclusive, fazer nada — emendou Kristen, sentando-se em um pequeno banco de madeira que trouxera de algum lugar.
— Como você faz para controlar as pessoas que vão á sua festa? Quero dizer, por ser uma festa de sexo livre, não acredito que você aceite qualquer pessoa lá dentro, estou errada?
— De jeito nenhum — respondeu Alice. — A seleção é feita pelo meu site. Quem quiser entrar, tem que se cadastrar e enviar fotos. Vamos ser sinceras, não queremos gente feia por lá, certo? — Sophie sorriu. — E precisa me dar uma referência. Alguém que eu conheça, um associado, ou com quem a pessoa tenha conexões — antes que Sophie lhe perguntasse sobre os tais associados, Alice emendou. — As regras de comportamento também são bem claras no site: nada de drogas ou celulares.
— Para se evitar que tirem fotos ou façam filmes que vão virar febre no YouTube ou Facebook, sabe como é — explicou Kristen.
— E, também, nada de violência. Tenho seguranças espalhados pela casa toda. Um mínimo sinal de problema e eles entram em ação.
— Eu já vi um cara sendo tirado de lá, na maior classe, porque ele estava cantando uma mulher, insistentemente. Lembre-se, lá dentro quem manda somos nós! — enfatizou Kristen com o olhar travesso.
— Existem os convidados, como você, meus convidados — enfatizou Alice em tom formal. — Os participantes de ingresso único.
— Tem ainda os que compram entradas apenas para aquela festa específica — falou Kristen como se formasse dupla com Alice na venda de um produto.
— E os associados, que pagam uma taxa mensal e têm entrada livre em todas as festas e em todas as casas.
— Todas as casas? — perguntou Sophie espantada.
— Sim. Tenho uma parceria com uma amiga, em Londres, e outra na Espanha.
— Pessoas viajam o mundo para ir a festas como estas. Chamamos de tour erótico — emendou Kristen.
— Ah… — murmurou Sophie. — Bom, acho que devo me sentir lisonjeada pelo convite, então. — falou, sem saber ao certo se era assim mesmo que se sentia.
— Lisonjeada? Não… — discordou Alice. — É sempre bom ter mulheres lindas como você na minha casa — Sophie gemeu em discordância.
Eram cinco da tarde e ela se deu conta de que Anne já deveria estar chegando em casa aquela hora e, como sempre, a mágica entre elas funcionava novamente. Na mesma hora em que pensara nela, seu celular tocou dentro da bolsa. Levantou-se ás pressas da cadeira, correu até a sala e pegou o aparelho, sorrindo.
— Oi! Chegou? Como foi de viagem? — perguntou, sentindo-se feliz por saber que Anne já estava em casa. Mas a voz do outro lado da linha não tinha o mesmo vigor, ao contário, era chorosa e desesperada.
— Sophie… Ela está morta…
— Do que você está falando? — perguntou Sophie sentindo um arrepio por todo o corpo.
— A Adrian! Ela morreu! — Sophie soltou o corpo no sofá da sala, que rangiu dolorosamente. — Ela morreu, na banheira! Isso… isso não pode ser normal, Sophi.
— A Adrian, está morta? Morta? — as palavras atraíram Alice e Kristen para dentro. — Em casa? Na banheira? — perguntou, fazendo sua voz soar como um eco das palavras de Anne. Kristen e Alice se entreolharam e franziram a testa. Sophie nem notou.
— Meu Deus, isso é tão insano! Como pode? — exclamou Anne. — O Paul disse que ela estava bem, ontem. E hoje… Oh meu Deus… Como ela pode ter morrido?
— Calma, Anne, me explica isso melhor.
— Dizem que foi suicídio, mas… Sophie, tenho até medo de dizer, mas você não acha… Você não acha que pode ter sido a Ashley?
Sophie não respondeu. Não podia acreditar que aquilo estava acontecendo. Adrian, morta? Suicídio? Nada daquilo fazia sentido. E por que Ashley teria matado Adrian?
— Sophie, por favor, venha pra casa — pediu Anne, chorosa. — Eu estou preocupada. Eu estou com medo por você, por todos nós.
— Como você soube? — perguntou Sophie, fechando os olhos levando a mão à testa, como se quisesse se esconder da realidade.
Anne lhe contou que Paul lhe havia telefonado alguns minutos atrás. A enfermeira designada a acompanhar a recuperação de Adrian em casa não teve resposta quando ligou para ela e nem quando foi, pessoalmente, à casa de Adrian. Tocou a campainha, bateu à porta, gritou da calçada olhando para dentro da sala com as mãos apoiadas no vidro e, por fim, ligara para Paul, a único contato de emergência que Adrian dera ao sair do hospital.
Paul ligou para o detetive Harris que, ao tentar os mesmos meios, por fim arrombou a porta do apartamento. Ao entrar, Harris e a enfermeira Ester se depararam com Adrian, ainda na banheira, parcialmente submersa. O sangue havia se espalhado pela água tingindo-a de vermelho vivo. Adrian tinha os dois pulsos cortados. Uma pequena faca de cozinha estava apoiada à borda da banheira.
— Eu não acredito que ela se mataria, Sophi. Por que ela faria isso depois de tudo o que ela passou?
— Eu não sei… — murmurou Sophie, vendo nitidamente a cena de Adrian imersa em uma banheira de sangue. — Talvez exatamente por tudo o que ela passou… eu… eu não consigo pensar nada agora, Anne.
— Sophi, você vem pra casa… — murmurou.
Foi só aí que Sophie percebeu Kristen sentada ao seu lado. Kristen tinha o semblante aterrorizado. Já Alice, fumava, tranquilamente, na varanda, como se fosse apenas mais um dia e verão.
— Eu não sei Anne… Eu… Te ligo daqui a pouco.
Por mais que Sophie quisesse negar, ela também sentia o mesmo que Anne: Ashley estava por trás daquilo e, só de pensar na possibilidade de ela tê-la matado, fez os olhos de Sophie brilhar. Adrian… morta. Foi como se um golpe gelado atingisse em cheio o estômago de Sophie.
— O que aconteceu? — perguntou Kristen, segurando as mãos frias de Sophie entre as suas. — Meu Deus, você está bem?
— Eu… Eu não sei… Uma amiga morreu… Parece que foi suicídio. Na banheira — foi tudo o que ela disse antes de sentir uma onda de fúria atingir como um raio o seu peito.
— Puxa, eu sinto muito — disse Kristen, em tom solene. Alice voltava da varanda quando Sophie se levantou.
— Me desculpe, eu preciso ligar para uma pessoa — e foi até a varanda. Procurou-o na sua lista de contatos e esperou. O telefone tocou duas vezes e quando ele atendeu, Sophie sentiu vontade de chorar. — Paul, o que aconteceu? — Paul repetiu praticamente a mesma história que Anne havia lhe contado. De novo, Sophie sentiu que havia algo errado. — Isso não faz sentido para mim. E pra você?
— Nem um pouco. Eu a levei para casa, ontem, ela estava bem. Estava animada, fazendo planos inclusive de visitar a família na Irlanda. Não, Sophie, isso não faz o menor sentido — concordou ele, com uma voz que Sophie não conseguiu identificar se era triste, abismado ou abalado.
— E então? Você está pensando a mesma coisa que eu?
— Acho que sim, mas vamos esperar o resultado da perícia, está bem? Precisamos saber se havia alguma droga no organismo dela, as impressões digitais na faca… meu Deus, uma faca de cozinha…
Sophie sabia o que Paul estava dizendo. Uma faca de cozinha, a menos que estivesse muito bem afiada, teria dado trabalho para fazer um corte profundo em ambos os pulsos. Adrian teria que estar muito determinada… ou drogada.
— Quando? — perguntou uma voz firme. Não havia nervosismo ou tristeza mais, apenas uma mente lógica, raciocinando lucidamente, somando dois mais dois. O resultado não podia ser diferente do esperado.
— Com sorte, em quarenta e oito horas.
— Me mantenha informada, por favor, ok?
— Claro. Você está voltando pra casa, Sophie? — perguntou parecendo um pai zeloso. Ela teve vontade de lhe dar um beijo no rosto. Sophie virou-se para a sala e viu Kristen e Alice sentadas no sofá, conversando.
— Não, Paul. Tenho coisas a terminar aqui.
Adrian estava morta. Sophie não poderia fazer mais nada para salvá-la, mas poderia salvar Kristen e começaria o mais rápido possível. Desligou o telefone e entrou de volta na sala, atraindo os olhares de ambas.
— Está tudo bem? — perguntou Kristen, primeiro.
— Sim, quero dizer… não tem muito o que fazer agora. Temos que esperar o resultado dos exames.
— Desculpe perguntar, mas por que ela teria se matado, alguém sabe? — Sophie poderia fazer uma lista de motivos, mas nenhum deles parecia forte o suficiente para levar Adrian a cometer um suicídio. Não depois do que Paul lhe dissera.
— Não, não faço ideia — suspirou, largando o celular em uma pequena mesa apoiada à parede. — Acho que preciso respirar ar puro. Preciso dar uma corrida, alguém me acompanha?
Alice se levantou rapidamente, recusando o convite. Tinha coisas a fazer, preparativos para a festa de amanhã, mas Kristen concordou e vinte minutos depois ambas estavam correndo na pista de um pequeno parque a duas quadras dali.
Kristen parara de correr já fazia dez minutos e Sophie ainda mantinha o mesmo ritmo de quando haviam saído de casa. Sua mente pulsava energicamente, tentado encaixar todas as peças recentes. A conversa que ouvira na noite anterior e a morte de Adrian… não podia ser coincidência. Será? De repente, outra peça se encaixou em sua mente. A segunda visão, a sensação de morte, também não podia ter sido coincidência.
Meu Deus, eu estava lá, eu a senti morrer, Adrian se conectou comigo no momento da sua morte!? E as lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto. Será possível que Adrian sentiu que estava morrendo e não teve forças para lutar, para salvar a si mesma?
Se Adrian fora envenenada ou drogada ou qualquer coisa do tipo, alguma coisa sairia na análise da perícia. Só restava esperar…
Ela se conectou comigo. Será que ela queria me dizer alguma coisa? Será que eu poderia tê-la ajudado? Mas que…
— Merda, merda! — gritou, enquanto corria e as lágrimas lhe banhavam o rosto.
Parou, de repente, apoiando-se em a uma árvore, longe dos olhos de Kristen que havia ficado para trás. Sophie podia vê-la do outro lado da pista, fazendo alongamento, próxima a um banco de madeira. Sentia o coração estraçalhar. Quantas e quantas vezes aquele pedaço do seu corpo suportaria as dores que sentia? Por quantas vezes mais aguentaria sentir tanta tristeza, revolta, dor e morte?
Sophie não sabia o quanto ainda poderia suportar, mas se ela não quisesse ver mais uma pessoa sendo morta ou torturada − ou ambas − teria que agir.
Permitiu-se chorar por um minuto inteiro e, por fim, enxugou as lágrimas, recompôs-se e correu, suavemente, até Kristen. À medida que se aproximava do banco onde ela se sentara, Sophie pensava se não haveria mesmo outra opção. Se ela não deveria simplesmente deixar tudo aquilo para trás e ir para casa, para Anne, Paul e… para o enterro de Adrian. Controlou uma nova onda de fúria que estava pronta a emergir.
— Puxa, você tem mesmo fôlego pra isso — comentou Kristen, quando Sophie chegou não transparecendo nem a metade do esgotamento físico que Kristen ainda sentia.
— Eu estou acostumada a correr. Adoro. É como se meus problemas não existissem — tentou explicar, sentando-se ao lado de Kristen —, como se eu fosse mais rápida do que eles e conseguisse deixá-los para trás. Pelo menos por uma vez…
— Eu sei. É como nos desenhos animados, quando os personagens saem em disparada e as pintas do corpo ou as roupas, e ás vezes até os olhos, ficam pairando no ar e depois caem no chão — Kristen sorriu como uma criança. Sophie sorriu para ela.
— É, algo assim. Pena que meus problemas não se desgrudem de mim como nos desenhos…
— Que tipo de problemas?
— Você nem queira saber…
— Desculpe, eu não queria…
— Não, tudo bem — disse Sophie, olhando o parque à sua volta. Como era delicioso estar perto da natureza, do verde e do sol. Por fim, se acostumara até mesmo com o sol ardendo em seus ombros que, aquela altura já nem ardiam mais. Aliás, haviam adquirido um lindo tom caramelo escuro. — Eu sofro de um mal incurável — começou Sophie e Kristen girou-se ligeiramente no banco, ficando totalmente virada para ela. — Sofro dores que poucas pessoas suportariam. Por todo o corpo.
— Nossa, Sophie, como? Eu… eu…
— Não é como você está pensando… — Sophie suspirou. — Puxa, faz tanto tempo que não falo sobre isso com um estranho que não sei nem mesmo como explicar.
— Não precisa falar se não quiser.
— Tudo bem, eu quero. Aliás, eu preciso.
Respirou profundamente e começou a lhe contar tudo. Enquanto falava, Sophie podia ver as expressões de Kristen passando da descrença à dúvida, voltando ao ceticismo; desviava para a solidariedade, esbarrando na piedade, atravessando o canal da incredulidade e ancorando no benefício da dúvida.
— Nossa… Isso deve ser bem ruim… quero dizer… uau… acho que não sei o que dizer.— Sophie esboçou um sorriso.
— Você acredita em mim?
Kristen suspirou.
— Por que eu não acreditaria? Por que você inventaria uma coisa dessas?
— deu de ombros. — Eu acho que acredito, por que não…? — baixou os olhos e Sophie continuou.
— Eu preciso te dizer mais uma coisa.
Kristen a encarou e alguma coisa em seu olhar fez Sophie imaginar que Kristen sabia o que ela iria lhe dizer.
— Eu tenho visto coisas que, eu acho, tem a ver com você — os olhos azuis intensos de Kristen tornaram-se quase transparentes. — Eu acho que alguém quer lhe fazer mal, Kristen. Você sabe me dizer por que ou quem seria? — Kristen piscou rápido a repetidamente.
— O que? Não. Não faço a menor ideia.
— Não precisa responde agora, acho que ainda temos tempo. Mas eu gostaria que você pensasse seriamente nisso. Não é brincadeira, Kristen — disse, pegando as pequenas mãos dela entre as suas. — Eu sinto. Eu vejo. Eu sei. Tem um perigo muito, muito eminente à sua volta e eu não posso fracassar com você como…
Por um instante, ambas ficaram em silêncio.
— Como o que? Você não está achando que a sua amiga, ela…
— Eu não estou achando. Eu tenho certeza. Adrian foi assassinada por uma pessoa extremamente perigosa, cruel, mesquinha, manipuladora e…
— Nossa… calma, Sophie. Você está me assustando.
— Desculpe, Kristen, mas se não fosse sério, eu não estaria aqui arriscando a ser chamada de maluca. — Kristen baixou os olhos. — Kristen, seja sincera… No fundo, você sabe que está em perigo, não sabe?
Kristen desviou o olhar, fingindo observar um grupo de crianças que passava em seus patinetes se deliciando em sua inocência. Baixou os olhos novamente para os prórios dedos cruzados sobre os joelhos. Não disse nada.
— Olha, Kristen — insistiu —, se tem uma coisa que eu aprendi neste minha vida louca, é que ninguém foge do passado. Você pode achar que ele está enterrado, mas se aquilo que você enterrou não estava resolvido — Sophie balançou a cabeça —, ele vai voltar. Vai sair da sepultura, abrir caminho entre a terra, fazendo sulcos com suas garras e virá atrás de você. Sedento de algo maior do que a morte, algo…
— Pára! Eu já entendi — falou, levantando-se e acariciando os braços como se sentisse frio sob o sol que ainda exibia o seu pleno poder bem acima da linha do horizonte, embora já fossem mais de nove da noite.
Sophie se levantou atrás dela.
— Kristen, desculpe… — puxou-a delicadamente pelo braço — mas é isso o que eu sinto, o que eu vejo, o que eu sei, e não é bom. Nem para mim nem para você.
— Como você pode dizer que sou eu? Você me vê?
— Não, mas eu sinto.
— Você pode estar sentindo tudo errado, não pode? Será que o perigo não está atrás de você e não de mim? — as duas se olharam por alguns segundos até que Kristen a abraçou forte. — Eu sinto muito, Sophie. Eu sinto muito… você não merece passar por essas coisas. Nossa, que pecado… — Sophie sorriu, ligeiramente.
Mais tarde, elas foram a uma pizzaria na esquina da rua onde Kristen morava. Era um local pequeno e bem iluminado, com uma TV grande pendurada à parede. Passava um daqueles programas de auditório que Anne se divertira assistindo nos últimos dias. Sophie bem que tentou acompanhar Anne assistindo ao programa, mas não conseguiu, sua mente estava sempre ocupada demais com os vários assutos pendentes. Sentiu saudades de Anne de uma maneira quase física.
Olhou para Kristen e percebeu o mesmo interesse ingênuo pela tela. Sorriu para si mesma. Não contara tudo a Kristen. Não contara sobre a verdadeira história de Adrian ou sequer falara sobre Ashley. Não contara, nem menos, sobre os estudos que Nancy prometeu investigar. Não havia contado nem um quinto da verdade e Kristen já pareceu assustada. Coitada.
Comeram a pizza em silêncio e, no caminho para casa, Kristen lhe disse que teria que sair cedo na manhã seguinte, mas que Sophie deveria ficar á vontade. Ela voltaria na hora do almoço e poderiam fazer algum passeio, se quisesse.
Depois de se acomodar no sofá e de se despedir de Kristen, Sophie fechou os olhos na penumbra da sala. Ouviu quando a porta do quarto de Kristen se fechara e sentiu o cansaço pesar em suas pálpebras. Virou-se de lado no sofá, olhando a TV desligada pregada à parede à sua frente. Parecia uma janela fúnebre para um lugar misterioso onde, àquela hora, criança não podia entrar. Um lugar proibido e instigante, como as festas de Alice. Fechou os olhos e tentou imaginar como seria a festa de amanhã. A quantas festas como aquela Adrian teria ido em sua breve vida? Nunca mais iria. Nunca mais faria tantas coisas. Nunca mais iria sorrir, nunca mais faria surgir as covinhas no rosto, novamente. Nunca mais tudo. A morte era o fim. A morte poderia ser um alívio, uma salvação e não um castigo.
Abriu os olhos, rapidamente, sentindo-se invadir por aquela onda, novamente. A morte era boa demais para Ashley. Sophie não queria que ela morresse. Ashley tinha que viver, continuar vivendo na sua escuridão, no seu sofrimento, na sua maldade. Ashley teria que experimentar do próprio veneno e Sophie se encarregaria disso. Bastava que Paul lhe falasse sobre os resultados e…
Eu juro, Adrian, que ela vai sofrer.
Estes foram seus pensamentos, segundos antes de adormecer.

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