13 Reasons Why

A tão falada série do Netflix está gerando polêmica. Uma jovem de 17 anos comete suicídio e deixa para trás uma série de fitas K7 (sim, aquelas que usávamos na década de 1980) gravadas com as 13 razões pelas quais ela decidiu acabar com a própria vida. Mais especificamente as 13 pessoas que a levaram a tal atitude. As fitas são enviadas a todos os envolvidos e se inicia um processo de culpa, indiferença e revolta que revela, pouco a pouco, o caráter de cada um.
A direção da série é fantástica, ao estilo de How to Get Away with Murder (se você ainda não começou a assistir, vale a pena). Passado e presente se fundem em 13 episódios de uma hora de duração.
Alguns dizem que a série é perigosa porque glamoriza o suicídio em jovens cuja personalidade é mais frágil. Não vejo desta maneira. Pessoas de personalidade frágil não precisam do incentivo de uma série de TV para cometer qualquer ato contra si mesmo. O tão falado e atual desafio da Baleia Azul ou o Jogo do Desmaio (que também esteve em moda) são muito mais perigosos e reais do que a série.
Infelizmente, o suicídio entre os jovens é uma realidade, assim como é nos adultos. No Dia Mundial do Suicídio, 10 de setembro, a OMS divulgou, em 2016, um índice assustador: uma pessoa se mata a cada 40 segundos, no mundo.
Enquanto os adultos ainda levam em consideração as consequências da sua morte para os filhos (e o que muitas vezes o impedem de cometê-lo), o jovem não sente a mesma ligação com os pais. O sofrimento que os pais vão viver pelo resto de suas vidas não pesa na decisão dele. O que vale, muitas vezes, é o efeito devastador que isso vai causar naqueles que o machucaram e este é o maior perigo por ser, no fundo, o maior desejo, também.
O mais importante da série é um alerta, principalmente aos jovens, das consequências do bullying.  Enquanto para uns é divertido humilhar as pessoas publicamente para se sentir superior ou popular (principalmente no âmbito escolar), para outros é uma queda vertiginosa no abismo da depressão. E, uma vez estando lá, nada mais faz sentido. A série também trata do estupro, da conivência com o mesmo e da diferença entre o consentimento do sexo e o abuso. O tema foi igualmente tratado em outra série, Switched at Birth.
“13 Reasons Why” também mostra a importância da comunicação entre pais e filhos; que os jovens confiem nos pais ao invés de temer as consequências de uma conversa franca. Os professores não ocupam um papel importante na série, ao contrário, são negligentes, o que também é um alerta ao mundo acadêmico.
Enquanto a jovem Hannah sofre bullying na escola, repetidamente, ela tenta se erguer, tenta se relacionar com outras pessoas, mas se sente estagnada, não consegue expressar os sentimentos e a sua última tentativa de deixar o passado para trás é frustrada pela sua incapacidade de amar a si mesma.
Acredito que todos nós já vivemos algum tipo de bullying quando éramos estudantes, ou até mesmo dentro da própria família, mas os efeitos desta humilhação é infinitamente pior, hoje, graças à velocidade e à imensa repercussão nas redes sociais. Perde-se o controle de quem viu, quem leu, quem soube, quem compartilhou, quem “curtiu”. Parece que o mundo todo, agora, tem uma imagem negativa e suja de você.
Embora a série seja voltada para o público juvenil, o bullyismo, na vida real, é visto em muitas formas no mundo adulto, também. Quem sofreu sabe como é. Difamação constante, exposição da sua vida íntima e humilhação repetidas várias e várias vezes por pessoas que você antes confiava podem sim levar um adulto a ter os mesmos pensamentos da jovem Hannah. Acreditar na própria culpa (mesmo que ela não tenha tido nenhuma), sentir-se desvalorizada ao ponto de aceitar as humilhações como um castigo merecido, falta de amor próprio e, por fim, o único desejo de fazer a dor parar, de fazer a vida parar. Mas o adulto se conhece melhor, sabe dos seus valores, pensa que, inclusive, por mais que milhões de pessoas vejam ou leiam as mentiras sobre ele, no fundo, os únicos que importam são os seus verdadeiros amigos e as pessoas que verdadeiramente o amam e, para estes, a exposição não é nada mais do que um grande tiro no pé de quem o fez.
Não acho a série perigosa, acho um instrumento importante para se discutir o bullying, as suas consequências e, inclusive, como reagir a eles. Minha filha de 11 anos assistiu comigo a apenas um episódio depois que expliquei a ela toda a situação vivida por Hannah. Ela me disse “mãe, não acho que o que ela passou seja suficiente para se matar, tem outras maneiras de se lidar com isso”. Sim, filha, tem outras maneiras, mas quando a pessoa se sente tão sozinha ao ponto de não querer falar com ninguém sobre os próprios sentimentos seja porque ela acredita que ninguém vai entender ou porque ninguém vai se importar ou, pior ainda, porque todos vão dizer que a culpa é somente dela, fica bem mais difícil de suportar, por isso, estarei sempre aqui para você.
A tortura emocional do bullying, o abuso constante, a humilhação, a rejeição e a difamação causam marcas profundas. Eu sei disso.
É preciso sim discutir os efeitos devastadores desta prática desrespeitosa que hoje se tornou ainda pior. É preciso sim também falar sobre suicídio com os jovens, mas principalmente lhes mostrar que há outras maneiras de se lidar com o que quer que esteja acontecendo em suas vidas e que, mesmo quando eles acharem que não sobraram mais amigos ainda terão a nós, pais, que sempre vamos lutar por eles e os ajudar a passar por qualquer situação que seja. Eles nunca estarão sozinhos. Esta é a mensagem, inclusive na série.

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