“Ruffatada” no patriotismo

“O patriotismo é o último refúgio de um canalha”.

Esta famosa frase de Samuel Johnson (escritor, crítico e pensador inglês 1709/1784) ainda ecoa nos arrabaldes provinciais.

Dias atrás, Luiz Ruffato (jornalista e escritor brasileiro) testou sua sobrevida ao proferir o discurso de abertura da edição 2013 da Feira de Frankfurt. Pela reação de alguns colegas de ofício e das autoridades da comitiva oficial presentes ao evento, pode-se constatar que a mediocridade e a canalhice continuam pulsando vigorosamente nas entranhas do organismo nacional brasileiro.

Oh! Exclamaram os patriotas indignados! Como um convidado oficial, subvencionado com passagem e hospedagem paga pelo governo (todo canalha acha que recursos públicos são posses dos governantes) pode fazer uma desfeita ao seu país quando em representação no exterior? “Coisa feia!” Contestaram alguns imortais ornamentados que vivem rabeando solenidades do oficialato cultural.

”Traição!” Esbravejaram os patriotas de plantão em solo brasileiro. “Não era o local para se dar uma aula de sociologia(…)”Ele apresentou uma visão dura do País, mas senti falta do lado mágico e literário do Brasil”, advertiu a ministra da Cultura, presente na solenidade de abertura ao lado de autoridades alemãs (como Guido Westerwelle, ministro das Relações Exteriores) e brasileiras (como o vice-presidente da República à época, Michel Temer que se apresentou como poeta).

Ora, ministra,se a senhora deseja mais ‘magia e literatelice’ siga as normas oficiais e só convide oradores coniventes com o governo.

Se preferir pode ‘aparelhar’ a coisa nomeando um diplomata do departamento cultural do Itamaraty e torná-lo representante cativo em todas as solenidades culturais mundo afora.

Li a fala do Ruffato.

Ela é contundente na forma e no conteúdo e sincero na apresentação. Sua fala em nada fere a dignidade nacional, ao contrário, revela a grandeza do indivíduo que enxerga a realidade, critica e resiste, apesar de tudo.

Ela reverencia a autonomia e a ética e distingue o artista possuidor de um olhar arguto e atento ao seu tempo. Além disso, aponta para o divisor de águas que induz os honestos a falarem verdades e os borra botas a negá-las, expurgá-las e matar seus iguais em defesa da pátria.

A fala do Luiz Ruffato se impôs pela clareza e autonomia, coisa incomum em representações oficiais da cultura (participei de muitas) onde sobressai o imoral puxassaquismo.

Não sei em outras mas, em particular, essa fala do Ruffato me representa, sobretudo, porque desprovida da clássica chatice do oficialato cultural, desponta como uma fagulha de inteligência e insubmissão frente aos manjados conchavos da vida pública nacional.

Seu discurso acentua os pontos nevrálgicos que afligem a sociedade brasileira como a precariedade educacional e as desigualdades. Não há, de fato, nada de novo nos dados que aponta. Todos são conhecidos por aqueles que se interessam pelo país e são fartamente divulgados por órgãos da imprensa nacional e por organismos internacionais, como os índices de mortalidade infantil, assassinatos, estupros e etc.

Não há uma vírgula em seu discurso que seja uma revelação inédita sobre o Brasil que qualquer brasileiro letrado e honesto não saiba de cabo a rabo.

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