O YouTube e a ótima surpresa

Minha exploração pelos  streaming de vídeo em busca da produção para TV da peça “Marquesa  de Sade” , dirigida por Ingmar Bergman,foi frustrante.Streamings não agregam muitos filmes clássicos.
Recorri ao You Tube e encontrei. Melhor ainda! Encontrei um filme do Bergman, ainda inédito para mim.
Como já tinha assistido Madame de Sade, a reprise foi secundada pela minha curiosidade em assistir o filme ‘Vergonha’ dirigido por Bergman e lançado em 1968.

Boa surpresa!

A história desse filme é diametralmente oposta a dos famosos filmes do diretor sobre relacionamentos amorosos complicados, neuroses, crises conjugais em sets fechados de confortáveis apartamentos e casas elegantes, com personagens angustiados pela solidão e focados nos seus dramas interiores, tendo papos cabeça com a morte, todavia distantes dos grandes acontecimentos sociais, dos conflitos políticos, guerras e miséria ao redor.

Nada disso!

O filme é um cruel roteiro sobre a natureza humana e a impotência do indivíduo lançado repentinamente no meio de uma tragédia social em larga escala.

Não me surpreende que o cineasta da alma e dos complexos problemas da existência individual tenha sido fortemente mobilizado pelas ameaças de extinção da espécie humana. Na ocasião em  que realizou o filme pairava sobre o mundo a ameaça da Guerra Fria e o fim da humanidade.

O tenebroso sentimento geral de insegurança mundial, que teve inicio logo após o fim da Segunda Guerra Mundial se estendeu por longo tempo, até a queda do Muro de Berlim.
Por analogia imaginei o que faria Bergman, hoje, diante  da ameaça global da pandemia. Como registraria ele as sombrias perspectivas que se apresentam que levam a rupturas conjugais e  desdobramentos psicológicos surpreendentes, espraiados pela vida doméstica, com milhões de famílias confinadas e turbas desamparadas vagando pelo mundo, ao mesmo tempo que um a multidão de aflitos desafia as autoridades promovendo festas e aglomerações que revoltam os altruístas.
Vergonha é um filme tenso e assustador, um tanto tosco porque baseado numa narrativa neorrealista sobre um casal alienado, centrado nas suas inspirações melódicas, nos probleminhas domésticos,nas galinhas e coelhos e alheios à realidade entorno.

O casal de músicos que escolheu viver na roça mas não esperava que a realidade batesse a sua porta com tamanha violência e crueldade.

Os personagens, aparentemente apolíticos,  de repente veem sua paz matrimonial ser invadida por tropas militares de uma bizarra guerra civil que torna pacíficos cidadãos em potenciais inimigos dos dois lados em guerra.
Bergman escalou Liv Ullmann para ser a mulher amada por Max Von Sydow.
Ullmann, é um tipo raro de mulher que encarna no mundo quando Afrodite excitada faz voos rasantes sobre o planeta.

O cineasta escalou Max Von Sydow para ser o marido da lindona.

Von Sydow é aquele tipo de cara que faz um tímido caipira, com trajes em frangalhos, parecer  um embaixador cosmopolita de alma sensível, trajando fraque até para dormir e sonhar com  uma peça dos Concertos de Brandenburgo, sentado ao lado do Johann Sebastian Bach.
Ninguém melhor que o Max para tipificar o macho branco, dominante, porém covarde e mesquinho.
A guerra, como as pestes, tem o poder de trazer à tona os traços adormecidos do caráter profundamente submisso, cruel e mesquinho de muita ‘gente boa’.
Espreitar o abismo que separa o moralismo de aparência da autêntica virtude humana é a temática central do Bergman.

A linda Ullmann, é a virtude em carne e osso.

Já o soberbo Max, é o contraponto narrativo da ácida visão crítica, um tanto niilista do cineasta sobre as contradições da civilização moderna e o futuro da humanidade.

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