Maldade e Bondade


Esses dois vértices da moral são pilares da política.

Na vida pessoal, afetiva, familiar e comunal eles se manifestam de maneira menos exuberante do que na política.

Contudo, se esforce um pouco, evite lamentar, e admita; esses dois vértices da moral balizam todas as ações humanas, desde os primórdios dessa espécie, empenhada,aos trancos e barrancos, em criar regras de convívio social.

Quando o ambiente é propicio ou artificialmente manipulado, eles aparecem nítidos e reluzentes,em plena glória.

Maquiavel, foi um dos pioneiros na formatação do método que aplicava as duas manifestações da moral na condução dos assuntos referentes ao poder, foi incisivo nesse ponto.

Não foi o único, é claro, entre os modernos, foi um dos mais objetivos, no tocante ao protocolo que converteu os elementos da natureza humana na cultura política que se espraiou nas subsequentes modelagens de regimes políticos e perfis de Estado.

Os fatos recentes, no Brasil, revelam o quanto esses dois pilares da moral estão solidamente fincados na cultura política brasileira. Tentar ‘desvê-los’ ou negá-los é sintoma de cegueira social.

Desde os meus primeiros passos na política,que se estendeu depois em cargos públicos no poder executivo, tive a nítida noção de que esses dois vértices da moral, aparentemente inconciliáveis, eram as estacas das plataformas de campanha. Sem essas duas estacas um palanque não fica em pé e o candidato ‘puro’ virginal,afunda no lodo das banalidades,que qualquer pessoa comum tem pleno conhecimento.

A bondade e a maldade são multiformes.

Podem se manifestar em falas ou ações de formas diversas e serem registradas como eventos aparentemente bem definidos em testemunhos pessoais ou relatos da imprensa que visam sobretudo nutrir o senso comum de ‘bondades’, apenas bondades.

Uma das versões desses fatores também se manifesta no popular como coisas ‘gentis’ o que não significa que sejam nobres em essência. É a tal da hipocrisia!
Ela é muito útil para manter a ilusão de uma suposta e desejável harmonia entre poderes, que não está ali, mas, para o ‘bem comum'(sic) é melhor fingir que está.

Dito isso, passemos aos fatos.

As manifestações do 7 de setembro foram embaladas por empolgação autêntica e legítima de parte da sociedade, revoltada com as ‘maldades’ da Suprema Corte contra a liberdade de expressão, o arbítrio e a afronta à Constituição.

Todavia, um grande número de autoridades públicas, imprensa e oposição, tomaram para si o bastião da ‘bondade’ rotulando todos os manifestantes como massa uníssona antidemocrática.

Não ousarei tocar na contradição insustentável dos termos que, prepotentemente, rotulam manifestações populares, abraçadas por milhões de pessoas, tenham pauta única,hegemônica.

Até porque, é muito difícil apurar todas as demandas que levam tantas pessoas para as ruas. Talvez,por isso,uma fórmula simplória de definir posições é rotular todos-juntos e misturados como agentes antidemocráticos. Nem a maior ‘bondade’ do mundo pode abarcar tanta multiplicidade. Mas…

É fácil avaliar isso!

Eu não fui às ruas no 7 de setembro.

Tenho muitos amigos que não são bolsonaristas ou… antidemocraticos(sic) que foram.

Contudo, esses democratas convictos que foram a ruas no 7 de setembro para,conscientemente, expressar cidadania, criticar instituições por desvio de função e outras coisas mais, se tornaram ‘invisíveis’ para quem só enxerga ‘bondade’ em si mesmo.

Depois que a poeira abaixou e a catarse social amainou as paixões, posso ver com mais clareza as condições do cenário político do momento.

Na sua fala dirigida aos manifestantes concentrados na avenida Paulista,Bolsonaro ‘mordeu’ – de novo – seus desafetos.

Deu uma mordida mais cerrada no ministro Alexandre de Moraes.

Voltou para Brasília e, lá, em encontros com seus auxiliares e velhas raposas da política, decidiu ‘soprar’ a mordida que deu em Alexandre de Moraes e mostrar delicadeza com o STF.

Curiosamente, vi muitos comentários, inclusive de pessoas que admiro, dizendo que o Bolsonaro traiu parte do seu eleitorado ao voltar atrás e se desculpar.

É possível! Não tenho meios seguros para avaliar reações do eleitorado.

Desse imbróglio todo – crise – posso apenas refletir como uma ‘maldade’ se dissolve no ambiente político com um sopro de ‘bondade’.

Para se caracterizar melhor essa ‘troca’, o medo e o dinheiro são coadjuvantes poderosos. Compra-se com moeda pública o apoio de pessoas e entidades com a mesma desfaçatez com que se irradia o medo,para conter reações contrarias.

Ao longo da história, as trocas entre maldade e bondade, semearam o campo da política. Maquiavel, dixit. Até os dias de hoje esse método ainda tem consistência concreta.

Para finalizar.

Não gosto de prever o futuro.

Prefiro ver as consequências de atos e fatos para depois analisar.

Haverá muita coisa a se dizer sobre as consequências de uma convergência esquisita, que abre um leque heterogêneo de legendas partidárias, centrais sindicais, militância radical,veículos da grande imprensa e seu mantra “todos pela democracia’, gente da classe média e alta, dando forma a uma falange ‘unida’ para vencer um único candidato.

Tudo pode acontecer.

Até mesmo mesmo tropeços e quedas em abismos insondáveis.

Veremos!

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