Dostoiévski, Marques de Sade, Balzac, Sthendal etc

Se para um jovem curioso dos anos 60/70, as leituras de Dostoiévski, Marques de Sade, Balzac, Sthendal etc, descortinavam um mundo fantástico, que transcendia as fronteiras nacionais,em profícuo diálogo com os escritores brasileiros modernos, o encontro com Sexus,Plexus e Nexus, obras da trilogia ‘Crucificação Encarnada’ de Henry Miller, detonaram mais ainda os hormônios em combustão, o impulsionando a partir para explorar os mistérios do mundo e da vida a nossa frente, que os autores clássicos antes desbravaram.
Penso hoje, que de forma bastante curiosa, Miller foi para minha geração o escritor da conciliação.
Seus livros provocaram na minha roda de amigos um tipo de concordância sagrada. Algo como uma unanimidade respeitosa. Nem o mais inflamado provocador, que subia na mesa para desafiar para um debate os discordantes, comprovando por A + B que a literatura do Sade era vulgar e ruim, menos ousada que os panfletos eróticos do Zéfiro, cheio de mulheres peitudas dando para padres que, aos catorze anos, comprávamos clandestinamente no ‘mercado negro’ gerenciado pelo jornaleiro da esquina, achavam um antagonista pronto para polemizar quando se tratava de Miller.
Até mesmo os mais eruditos entre nós, que não se acanhavam em provocar disputas decretando que Balzac já era e Dostoiévski não está se sentindo muito bem, em relação aos livros do escritor norte americano, se mostravam tolerantes tipo; ‘me nego criticar o estilo direto da narrativa literária de Henry Miller’.
Enfim, entendo essa conciliação entre amigos da minha geração, no tocante não apenas à trilogia citada acima, mas a toda obra literária do Miller, como uma ética, melhor dizendo, uma cumplicidade.
Esboçar uma crítica à literatura do Miller, era como falar de nós mesmos.
O que dizer daquele cara fodido e teimoso?
Que só começou a escrever depois dos quarenta anos.
Levou porrada de todo lado. Se auto exilou em Paris, após deixar para trás a América e um emprego nos correios ‘cosmo demoníacos’ talvez achando que a mudança para a Cidade Luz,refúgio e abrigo dos ‘malditos’ geniais, poderia despertar nele o talento e lhe trazer o reconhecimento do Hemingway, o escritor compatriota de grande talento,cortejado pela imprensa progressista norte americana.
Porém, os sonhos de Henry Miller, não parecem corresponder a impulsividade do Hemingway, que se colocou na frente de combate ao lado dos revolucionários anti franquistas, bebeu todas, tomava porres homéricos, perdia a cabeça com frequência, esbofeteou um ‘camarada’ russo aliado, tudo isso e muito mais, enquanto lutava para a libertação da Espanha da tirania franquista e a consolidação de uma república socialista que não aconteceu.
Que tipo de artista se dispõe a partir para uma guerra civil em outro continente, como vanguarda do ideal internacionalista,se depois não consegue encontrar um editor para publicar um livro que vire ‘best seller’ por décadas?
Hemingway, esbanjava talento e testosterona, era tudo de bom e ruim. Era tudo isso mas não era apenas um tolo ou um pateta idealista.
Sonho por sonho, os do Miller não eram heroicos.
Eram de natureza pessoal, por isso, universal. Falando de si mesmo,falava para e por todos nós.
Ele devia sonhar em esbarrar com Rimbaud num cabaré da esquina em um bairro pobre da cidade e falar por horas a fio sobre o Tempo dos Assassinos, infiltrados nos dois lados de toda estúpida guerra civil e nas coisas ruins de um mundo difícil de encarar. Talvez, encontrar Balzac numa livraria.
Miller era um poeta que a realidade insistiu em frustrar até o ponto dela própria desistir de tentar. Para nós, Miller era um durão. Quantos talentos entraram em desespero, abandonaram seus anseios nas primeiras decepções e acabaram chorando, menos mal que espancando as esposas, únicas criaturas amorosas e receptivas que os abrigava nos braços depois do fracasso e frustrações .A realidade é dura para todos nós. Contudo, para os fortes e determinados, ela parece flexível. Há um ponto em que ela se curva.
Quando o talento é grande, a dedicação poderosa o ineditismo autoral original, a realidade se curva. Para esse tipo de gente tudo que possa acontecer não o faz abrir mão do desejo ardente de ser um artista. No caso do Miller, um escritor.
Um homem forjado nessa temperatura, experimenta na marra a dor de corno de subir a escada da casa de cômodos onde morava, latindo como um cão vadio, ouvindo os gemidos de gozo da amante trepando com o vizinho. Exorciza a dor e sai de lá maior, escrevendo e falando fluentemente trinta idiomas, que antes desconhecia.
Enfim, Henry Miller, era esse homem que admirávamos porque, talvez, parecesse demais com todos nós ou com tudo que a vida tem de real.
Ele nos era familiar. Representava tudo que queríamos como projeto de futuros artistas e, paradoxalmente, nos colocava diante do que mais temíamos que nos acontecesse de verdade, com toda intensidade, na vida adulta.

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