Desfragmentando fragmentos

Ainda que para muitas pessoas o debate sobre tendências políticas hoje em voga pareça estranho e complexo, no fundo ele é simples e cristalino.
Com a derrocada das ortodoxias ideológicas, o mundo se dividiu entre vertentes difusas e flexíveis de esquerda e direita.
É sintomático que nesse quadro, aparentemente confuso, alguns conceituados pensadores de esquerda façam questão de alertar seus leitores que suas críticas à esquerda não o torna um convertido de direita.
Por que esse alerta? Temem ser ‘cancelados’ pelos filisteus?
Também é sintomático, em tempo de posicionamentos dispares, ver ‘rentistas’, herdeiros de farta fortuna, confortável e seguro patrimônio e lucros crescentes, advindos dos fluxos do mercado financeiro,façam questão de se colocar como pessoas ‘sensíveis às causas sociais’ simpatizantes e apoiadores das vertentes de esquerda contra os ‘brutamontes do capitalismo.’
O que essa conjuntura nos revela?
Revela sobretudo uma absoluta discrepância, diria até um certo esnobismo virtuoso dos rentistas, com a realidade objetiva que muito os beneficia.
São ricos! Mas não se acham soberbos! Se acham sensíveis, conectados e inteligentes!
Portanto, acreditam merecedores do reconhecimento pelos parceiros de classe e dos seus seguidores por se mostrarem publicamente hostis à arrogância dos ‘brutamontes capitalistas’.
Todavia, essa atitude torna seus ganhos de capital mais autênticos e justos?
Seus lucros crescentes e a ‘mais valia’ do seu patrimônio fogem, então, aos métodos ‘desumanos’ do capitalismo vitorioso?
Ora, na selva capitalista, a eles – rentistas- cabe uma reserva ambiental especial, onde a pobreza e os pobres são vistos a uma distancia segura.
Por outro lado, é triste ver a inexplicável vergonha de alguns intelectuais que criticam os absurdos e abusos de uma esquerda indentitária, arrogante e antidemocrática, se dobrar à vaga ideia humanista dos ‘rentistas sensíveis’ sobre o que é bom e correto / errado e cruel, no ativismo social.
Contudo, o que ocorre de fato na realidade é que pensadores de esquerda, que manifestam algum preparo intelectual e continuam exercendo – ainda que comedida e envergonhadamente – críticas ao sistema político como um todo, seja ele no momento governado por forças conservadoras de direita ou esquerda, se mostram tímidos e inseguros em relação à ideologia que defendem.
A critica é o único atributo autentico das esquerdas.
Ao abrir mão da autocrítica, ela se torna desafortunada,superficial e irrelevante,como hoje percebemos.
Fazer coisas simples parecerem complexas, só acessíveis aos afortunados, é uma tática recorrente na camuflagem dos que detém poder econômico e prestigio social e querem ficar bem na fita.

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