“A especificidade da mulher”

Tempos atrás, mais precisamente quando a escritora J. K. Rowling, autora de ‘Harry Potter’, comentou sobre a especificidade da ‘mulher’ e recebeu uma saraivada de ofensas, manifestos de cancelamento e em seguida foi acusada de divulgar ‘uma mensagem transfóbica’, tudo indicava que o ‘novo normal’ estava em rota triunfante.

Na ocasião, comentei com uma amiga que tais manifestações marcavam, de fato, o início da autoflagelação das falanges ‘politicamente corretas’ e a subsequente antropofagia dos grupos progressistas. Disse eu: “Sempre que se recorre à censura, os censores findam por enforcarem uns aos outros. Hoje, ela recorda a nossa conversa dizendo :”Não deu outra!” .Contou uma história que se ajusta como luva ao meu comentário.

Ela participou da mesa, como minoria, de um debate na sua universidade sobre política de gênero. Num determinado ponto, a ‘maioria’, da qual discorda, em posição predominante definiria o texto final, como há tempos vem acontecendo. Contudo, ela se surpreendeu quando a maioria politicamente correta/progressista rachou ferozmente.

Uns censuravam a fala de outros e cancelavam os ‘trabalhos’ dos amiguinhos que deveriam ser apresentados no relatório final. Só não findou em sopapos entre ‘aliados’ porque havia plateia.

Uma coisa leva a outra. O artigo do João Pereira Coutinho, publicado na FSP, e a ilustração que escolhi para esse post se encontram aqui pois focam no mesmo assunto. Cada um a seu modo, em países distantes, já perceberam que a corda é forte o suficiente para que ‘progressistas e politicamente corretos’ em crise de histeria dominante, se enforquem uns aos outros, João Pereira Coutinho 👇“Parece que a revista inglesa Economist está preocupada com a “esquerda iliberal”. Uma preocupação que mereceu capa, editorial e matéria longa.

Segundo a revista, houve um tempo em que o liberalismo defendia o debate livre, a dignidade individual e a existência de governos limitados como condição de progresso. Não mais. Hoje, a “esquerda iliberal” está no mesmo nível da “direita iliberal”: sectária, intolerante, de uma pureza ideológica extrema —e ferozmente contra a liberdade de expressão.

Aliás, para explicar as raízes intelectuais do fenômeno, a Economist cita Herbert Marcuse e a sua concepção de “tolerância repressiva”. Fez bem. Para entender as guerras culturais do nosso tempo, o ensaio de Marcuse —“Repressive Tolerance”, de 1965— é o melhor ponto de partida. Dizia ele que o “mercado das ideias”, tão caro aos liberais clássicos, não passava de uma farsa. De que vale ter esse mercado quando ele serve para a promoção de ideias autoritárias que excluem as causas progressistas?

O progresso depende da exclusão de ideias dissonantes da arena pública. Caso contrário, os mais fracos não têm vez. Existe uma forma simples, e historicamente comprovada, de responder às teses de Marcuse: lembrando que as causas progressistas dos últimos dois séculos só foram possíveis pela existência de um “mercado de ideias” livre onde as posições mais heterodoxas puderam ser defendidas e escutadas.

A abolição da escravatura; os direitos das mulheres; a defesa cívica de minorias sexuais ou étnicas precisou desse espaço para florescer. Se os mecanismos de repressão que Marcuse e seus herdeiros propõem já existissem no passado, as senzalas ainda estariam lotadas, as mulheres ainda estariam em casa e as minorias sexuais ainda estariam no armário.Isso não é apenas uma constatação de fato.

É um aviso sobre o presente —e o futuro. No presente, o crescimento da censura iliberal —nas universidades, na mídia, nas artes etc.— permite questionar que tipo de causas não estão sendo escutadas; que tipo de injustiças não estão merecendo atenção; que tipo de violências permanecem na sombra porque a sensibilidade cultural dominante não tolera qualquer desvio da sua cartilha.

Será preciso lembrar que a sensibilidade cultural dominante dos últimos dois séculos defendia a escravidão, a inferioridade das mulheres e a discriminação dos LGBTQIA+?

Finalmente, há um aviso para o futuro. Os herdeiros de Marcuse acreditam que a repressão “em nome do bem” será sempre exercida por aqueles que estão do lado certo da história.Quanta ingenuidade!

Se a história ensina alguma coisa é que o “bem” é sempre circunstancial. E que aqueles que o defendem com instrumentos censórios estão apenas a criar as armas conceituais e até institucionais que poderão ser usadas contra eles.Parafraseando a frase de Lênin, nunca devemos vender a corda com que um dia seremos enforcados.”

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