Recados de Primavera


E ai? Onde vocês vão passar o Réveillon?
Sim, idolatradas e queridos. Perceberam que 2019 já foi para o limbo dos anos mais antigos do passado?
Com uma grande diferença! Este ano, por mais terrível, não vou escrever “que ele já vai tarde” e muito menos que 2019 conseguiu ser pior que 2018, como 2018 foi pior que 2017, 2016…
Não. 2019 também não foi para principiantes, mas, com toda a lama, teve um perfume de princípio. De que ainda não sei, mas teve. Talvez, perfume de gardênia, de bolero.
Sim. Como todo ano, teve Carnaval, teve futebol, teve novela, rotina, encontros, desencontros, um inverno infernal, esta primavera com calor de verão, nem uma gota de chuva; mil incêndios, dois mil absurdos. “O primeiro amor passou, o segundo amor passou, o terceiro amor passou, mas o coração continua”.
As pessoas estão viajando e eu no mesmo lugar. Umas não voltam mais, outras o mês que vem, junto com outro meu aniversário.
Essa velocidade do tempo é irritante ou um consolo? Estamos indo ou sobrevivendo?
Em setembro de 1980, Rubem Braga escreveu “Recado de Primavera”, uma carta de despedida para o amigo Vinicius de Moraes que acabara de partir, para sempre, em 9 de julho do mesmo ano.
É uma crônica daquelas que não cabem mais porque é um Brasil que não existe mais. “O País da Delicadeza Perdida”.
Rubem Braga começa por um singelo “Escrevo-lhe aqui de Ipanema para lhe dar uma notícia grave: A Primavera chegou. Você partiu antes. É a primeira Primavera, de 1913 para cá, sem a sua participação. Seu nome virou placa de rua; e nessa rua, que tem seu nome na placa, vi ontem três garotas de Ipanema que usavam minissaias”.
Meus caros Rubem e Vinicius. Não estou em Ipanema, mas seu falasse de garotas e minissaias, certamente seria acusado de assédio sexual, machismo e fascismo.
Aliás, sinceramente, eu não gostaria de estar na primavera árabe de Ipanema e, por incrível que pareça, nem no outono muçulmano de Paris. Estou quase é esquecendo o inesquecível.
Em 1980, as “violências primaveris” eram um vento Sudoeste com chuva e frio, ondas espumantes. 39 anos depois, é ou não outra Ipanema, no Afeganistão?
Em setembro de 1980, Rubem Braga ainda tinha a ousadia de falar que um tico-tico com uma folhinha seca de capim no bico era o sinal mais humilde da chegada da Primavera.
E o “Fazendeiro do Ar” ainda completava com touceira de samambaia, debaixo de uma pitangueira. Coisas tão antigas que só poderiam acontecer “no fundo da roça, talvez no tempo do Império”.
Com certeza para provocar o tarado Vinicius, Rubem conta que esteve em Blumenau, “onde cada mocinha loira é uma esperança de Vera Fischer”.
Depois avisa que vai “ao Maranhão, reino de Ferreira Gullar, cuja poesia você tanto amava, e que fez 50 anos”.
Como Vinicius e Tom Jobim, Rubem Braga e Ferreira Gullar já morreram. Os três primeiros há muito tempo, Ferreira, com muito mais de 50 anos, em 2016, aos 86.
Vera Fischer não é mais mocinha, loira, nem morreu, mas fez pior: sumiu.
O tempo vai passando, meus caros desaparecidos. Chega a Primavera não em Ipanema, mas, para rimar, em Barbacena; infelizmente, vazia da música e dos versos de Vinicius.
Hoje, por exemplo, acordei com uma sugestão do YouTube: a reprise do mais recente programa “Roda Viva”, com Michel Temer. Que diferença! Sinal e final dos tempos.
Rubem Braga se despede de Vinicius, assim “Eu ainda vou ficando um pouco por aqui – a vigiar, em seu nome, as ondas, os tico-ticos e as moças em flor. Adeus”.
PS: Eu ainda vou ficando um pouco por aqui – a vigiar, em meu nome, o micro-ondas, as girafas da Amazônia e as moças do próximo. Adeus.
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