Quem Invade Invasão Tem Cem Anos de Solidão

Estou sendo impunemente possuído pelo novo livro do meu amigo, Tonico Mercador, “O Invasor de Livros”.
Ainda estou na metade, mas sinto-me um sítio em Atibaia invadido por um tresloucado João Pedro Stédile.
Grande leitor praticante, Tonico teve uma invejável ideia, fingir-se de personagem e invadir seus livros favoritos e preferidos. A comparação inevitável ele mesmo faz, logo no primeiro capítulo: ao contrário dos personagens do filme “A Rosa Púrpura do Cairo”, de Woody Allen, onde os personagens escapam da tela e invadem a vida real, o Invasor de Tonico penetra livros.
E como um posseiro, penetra, conta a história e, às vezes, o final da história. Ainda bem que, até agora, não li nenhum livro citado por ele. Que vergonha, meu Deus!
Mas no oceano nada pacífico, mas atlântico, da literatura, cada um navega com o que tem. Uns de transatlântico, iates, barcos; outros de Titanic; alguns de jangada, boia ou canoa furada.
Agarrado a um pedaço de pau (madeira, mesmo, OK?), fico no meio do mar, como Robinson Crusoé ou Tom Hanks, em busca da Ilha do Tesouro perdida. Nadando contra a corrente, pedalando ondas, comendo algas, fugindo do petróleo e dos tubarões, eu chego lá…
Tonico Mercador certamente aprendeu, não nos livros, mas no cinema que, quando a gente viaja no tempo e/ou no espaço, não devemos interferir na história e nos acontecimentos. Sempre dá merda! Você tenta salvar alguém e mata outros cem.
Por isso Tonico, a quem sempre chamei de “Mercador de Ilusões”, mesmo tentado, fica na dele, só observando e fechando, cada capítulo, com frases lindas, frases de poesia querendo deflorar versos.
O Invasor tem até vontade de dar uns toques, umas mexidas, uns conselhos, palpites, mas sempre acaba respeitando seus mestres, os autores.
Felizes os ídolos de Tonico, fosse eu o Invasor, faria como o MST: invadia, estuprava, matava, bagunçava e plantava nada.
Ahhhhhhhh se eu invadisse “Romeu & Julieta”! Chuuuuuupa Shakespeare! Deixaria o bobo do Romeu envenenado e morto, pegaria o punhal, cortaria a roupa da Julieta e caía de boca na rima dela.
O Inferno da “Divina Comédia”, de Dante, viraria churrascaria. E ao diabo eu daria nome, endereço e WhatsApp de vários conhecidos…
E em “Dom Casmurro”, de Machado de Assis? É claro que Bentinho é corno, Capitu é uma vagaba com olhos de ressaca e Escobar é o Canalha. Eu chantagearia Capitu: “Vou querer também, senão eu conto para todo mundo…”.
Por falar em Canalha, eu invadiria todos os livros de Nelson Rodrigues, mas nestes eu mexeria em nada. Já sabendo quem come quem, quem trai quem, conhecendo as adúlteras e pecadoras, era só chegar e passar o rodo.
Calma gente, eu não meteria em livros só pensando em sexo… Será que acredito em mim?
Talvez! Seria interessante assistir, de camarote, reencarnar as mil vidas de “Noites Antigas”, de Norman Mailer.
Seria uma aventura, perder-me no Saara de “O Céu que nos Protege”, de Paul Bowles.
“Confesso que Vivi”, de Pablo Neruda… Viver tantas vidas no México, na Guerra Civil Espanhola, na União Soviética. Na companhia de Neruda eu poderia inclusive escrever a famosa paródia, “Confesso que Bebi”, principalmente na Índia, Ceilão e sei não, até mesmo no Sudeste Asiático.
Diplomata como Neruda era Vinicius de Moraes. De Vinicius, um bom livro a invadir seria apenas uma crônica: “Para Viver um Grande Amor”. Já estaria de bom tamanho, para quem se identifica tanto com sua “Dialética”.
No mais, eu invadiria todos os livros que falam de Paris, a começar por Ernest Hemingway e Henry Miller, aquele depravado!
De Paris eu pegaria carona na Geração Perdida, no Champagne e no jazz e iria até a Riviera Francesa, aprender a escrever “O Grande Gatsby”, com F. Scott Fitzgerald.
Bom, não quero ultrapassar as 104 páginas de Tonico Mercador. Qualquer dia volto a invadir suas ideias, como tenho certeza que ele vai relatar outras invasões.
Só para terminar, ao “Kama Sutra”, eu acrescentaria mais umas 69 posições, quer dizer, capítulos…

PS: O que eu faria se invadisse “O Alquimista”, do Paulo Coelho? Roubaria a receita da poção mágica dele que transforma merda em ouro, óbvio!

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