“Os inocentes do Leblon…”

Desde já, pedindo licença à cantora/compositora Marina Lima por usar um verso de sua linda música “Virgem”, como título do Editorial desta semana. Em contrapartida, fiz questão de incluir o vídeo da gravação original de 1987. Quem quiser, delicie-se com esta música que é a cara do Rio da nossa época (pré década de 60, 70)…

Na verdade, os INOCENTES DO LEBLON são a ponta de um iceberg, para usar um clichê. Outros bares, em outros bairros, tivemos o mesmo problema de comportamento, como na maravilhosa mureta da Urca abaixo, por exemplo.

Fonte: Google – Diário do Rio

E assim foi por, praticamente, todos os bares tradicionais do Rio de Janeiro, sejam na Zona Sul, na Zona Norte (muito pior), na Barra/Recreio e por aí seguem… aqui pertinho de casa (quase em frente, felizmente por um lado e infelizmente por outro), o bar da esquina esteve lotado durante todo o dia. Bom para o meu amigo dono do bar, que, indiretamente mantém os empregos e o serviço, além de nos dar segurança, alegrando nossos dias e noites, quando não passa da meia-noite… Ele respeita. Graças a Deus!!!

Foto: Google – O Globo – Roberto Moreyra

Acho que abrir os bares no Rio de Janeiro, em face da pandemia do coronavírus, é uma aberração do ponto de vista da responsabilidade social. Mas fechamos os olhos a outros ambientes de alta vulnerabilidade sanitária, como nossos meios de transportes públicos. Temos a capacidade de nos indignar seletivamente? Ou, com o perdão da palavra, somos hipócritas?

Por que criticarmos as absurdas aglomerações voluntárias, nos bares, e ignorarmos as, também absurdas, aglomerações compulsórias nos meios de transportes, sejam elas de metrô, Trem, BRT ou mesmo ônibus tradicional? Há motivações totalmente diferentes nos dois casos, não?

Tenho me perguntado como estará a consciência dos frequentadores (se é ela que existe) que fizeram este vídeo na quinta-feira passada, em frente a um bar, no Leblon, debochando da tragédia que estamos vivendo com a pandemia no Brasil? O vídeo foi exibido no Jornal da Band.

Que eles são pessoas insensíveis e incapazes de respeitar a dor do outro, já deu pra notar. A dúvida, agora, é saber se são capazes de sentir vergonha, um mínimo que seja. O país inteiro escutou suas vozes. Um pouquinho de arrependimento, talvez? Eles escutaram a própria voz, inúmeras vezes. Quem sabe o áudio faz às vezes de espelho?

Não há opção para o povo, o usuário dos péssimos transportes de massa… não, não pensem que estou sendo hipócrita “defendendo o pobre”. Não, eu, raramente, uso qualquer destes meios de transporte, primeiro porque estou mantendo o isolamento e, segundo porque prefiro a segurança do meu carro mesmo pagando uma “fortuna” de estacionamentos. O que eu quero dizer é que o usuário dos modais de transportes diários não têm opção. Não podem ficar esperando “o próximo” porque está cheio. Primeiro, porque “o próximo” vai demorar mais de meia hora (ou mais) para chegar; segundo, porque ele virá lotado também, e se ele não o pegar, chegará mais atrasado ainda ao trabalho, irritará seu chefe, que poderá usar este argumento para demiti-lo, dizendo que “é por causa da crise da pandemia”.

Variando um pouco o tema do Editorial, temos que valorizar, e muito, o esforço e trabalho dos profissionais de saúde que estão nos socorrendo… muitos já sucumbiram – por mortes ou por contaminação – mas os “sobreviventes” continuam a atender à população, dando tudo de si e muito mais. Dobrando turnos, substituindo colegas que estão impedidos de trabalhar, embora assintomáticos, muitas vezes com salários atrasados pela OS’s. Eles são quem nos salvam e nos livram desta doença… quando há uma morte, nunca é por culpa deles. Pode ter sido por falta de estrutura, insumos, falta de profissionais, mas nunca por negligência de qualquer um deles… devemos nossas vidas a eles… respeitemo-los… e muito!!!

Enquanto isso, multidões de irresponsáveis deleitam-se em noitadas diárias, em lugares públicos, totalmente descompromissadas com as regras mínimas e básicas de prevenção contra a doença. Ainda teremos por muito tempo entre nós a presença desse vírus avassalador. Temos que reavaliar nossa espécie no Brasil… deu ruim!!! Acho que por Darwin, nós, brasileiros, seríamos uma espécie a ser extinta.

A responsabilidade maior pelas aberrantes violações da responsabilidade social, mais do que aos frequentadores, no Rio de Janeiro, cabe ao prefeito Marcelo Crivella, que, com propósito, evidentemente político, autorizou a abertura dos bares em plena pandemia. Por outro lado. é injusto atribuir os infames acontecimentos apenas aos frequentadores do Leblon quando se sabe, como eu disse, que também se sucederam em outros bairros. A parcialidade faz lembrar uma frase do famoso jornalista H. L. Mencken: “Imoralidade é a moralidade daqueles que estão a se divertir mais do que nós”.

Não desejo o mal de ninguém, porém a infecção desses protagonistas pelo coronavírus será um corretivo melhor do que os decretos e os processos em curso sobre essa matéria. Como disse um amigo meu, médico, que mora no Leblon: “te espero daqui a uma semana no hospital, e vou te atender, como a todos os outros”… (pausa para reflexão).

Abrem-se os bares. Os humanos, como muitas outras espécies animais, são gregários. O isolamento social é antinatural, sabemos disso.

Alguém esperava que os frequentadores mantivessem as máscaras e brindassem a dois metros de distância entre um e outro?

A distância entre a racionalidade e os escusos objetivos de alguns políticos é infinita.

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