"Entrei de gaiato no navio"…

Foto: MSC CRUZEIROS

Convite feito, convite aceito… Minha filhota decidiu participar de um minicruzeiro Rio-Ilha Grande-Ilha Bela, a bordo do MSC Fantasia, segundo informação, o maior navio de passageiros do mundo, com capacidade para 4.500 pessoas, saindo do Rio no dia 27/2 e retornando dia 2/3. Convite de filha já não se rejeita, ainda mais apoiado e incentivado pela mãe, que, atravessando um problema de saúde, precisava mesmo de um passeio para espairecer e amenizar os problemas.
Optamos pelo pacote “all inclusive”, já que eu não gosto de ficar fazendo contas e vendo preço das coisas que como e bebo. De cara eu já perderia o valor de um pacote, haja vista que ela não bebe uma gota de álcool, e o pacote teria que ser unificado por cabine. Já tive que pagar dois pacotes all inclusive, sabendo que um era de graça pra eles. Além disso, optamos por uma cabine com varanda, para curtir melhor os momentos na cabine.
Tudo certo, pago, confirmado e marcado. O embarque estava marcado entre 14 e 16h, já que a partida seria às 18h. Nossa operadora, no entanto, nos garantiu que poderíamos e deveríamos embarcar às 12h para que pudéssemos aproveitar mais um dia no navio.
Daí, no dia 27, 4a feira, às 10h da manhã, saímos de casa, num táxi rumo ao Porto Maravilha. Chegar lá já foi um parto. Trânsito horroroso na Via Binário, infernal, mas normal e diário, segundo o taxista, por conta de um sinal mal sincronizado na Av. Venezuela. Levamos 1h30 para chegar ao Armazém 5, ponto de despacho de bagagem, porém o embarque seria no Armazém 3.
O Porto Maravilha, não tem nada de maravilha. Nem para quem chega e nem para quem sai. Primeiro ponto: não há como chegar de carro nos Armazéns, por conta dos trilhos do VLT que passam, eles sim, beirando os Armazéns.Quem entra num VLT com bagagens enormes?
O outro lado da rua fica interditado para os passageiros atravessarem com suas enormes malas, já que os táxis nos deixam no quarteirão seguinte. Ah, sim, há um guarda municipal que impede os táxis de pararem para “despejar” os passageiros, com seu talãozinho de multas à mão. Nosso taxista subiu numa calçada e teve que simular um problema no carro para nos desembarcar, isso após umas duas voltas tentando chegar ao tal Armazém 5, perguntando, descobrimos o local “menos longe” (desculpem a expressão) de onde deveríamos embarcar.
Atravessamos umas duas avenidas (boulevards) com pessoas indo e vindo, com malas e suas traquitanas. Chegamos finalmente ao Armazém 5. Rápida e ordenadamente fomos atendidos no despacho das bagagens e ainda ganhamos, por sermos idosos, um “selo vermelho de prioridade no embarque”.
Caminhamos mais ou menos uns 500m até chegar ao Armazém 3, onde se daria o embarque. Bem, ao chegarmos, antes do meio-dia, encontramos uma multidão, sentada, em pé, aboletada em qq coisa que se pudesse apoiar. Um banheiro masculino e um feminino (com fila). Um bar, onde se vendia pão de queijo, água e refri.
Olhei e pensei, oba, vou pegar uma água. Dirigi-me ao bar e me deparei com uma fila que sem qq exagero tinha mais de 50 pessoas. Desisti e voltei ao local onde o grupo se concentrava. Para encurtar a história, só fomos fazer o check-in às 13.30h, e isso porque tínhamos prioridade, porque minha filha, meu genro e meus netos não tinham esta prioridade e ficaram esperando… todo mundo reclamando horrores.
A bordo, fomos conduzidos à nossa cabine e nos instalamos. Fomos ao deck superior para observar o embarque dos outros passageiros e a vista do centro do Rio. Olhamos para baixo e a fila de embarque dava voltas e mais voltas. Nesta hora ficamos felizes por sermos idosos…

Foto: Valter Bernat

Bem, embarque terminado às 19h. A partida às 18h já tinha ido pras cucuias. Ao reclamarmos nos foi dito que a culpa era do Porto Maravilha que libera apenas uma escada para embarque por navio, não importa o tamanho e/ou a procedência. Por quê? Ninguém soube responder. Note-se que não havia outro navio ancorado.
Já que não tínhamos almoçado, nos dirigimos ao restaurante indicado para um lanche/almoço/jantar, dependendo de que horas tinha chegado. Para nós era almoço. Lotado. Parecia que as 4.300 pessoas se dirigiam ao mesmo restaurante na mesma hora… bandejão, buffet… tudo bem, afinal era o dia de estreia e com a confusão do embarque, se admitia.
A loucura do embarque nos foi explicada (apenas a quem ia reclamar na recepção) que o navio tinha capacidade para 4.500 passageiros, mas que, normalmente, ele navega com, no máximo, 3.000, mas que devido ao preço barato (?) e à época, véspera de carnaval, eles chegaram a 4.300 passageiros. Ocorre que a tripulação é planejada para os 3 mil passageiros e que a legislação brasileira, não permite contratações temporárias, por navio internacional, por menos de 30 dias, logo eles não puderam contratar pessoas para completar o suficiente para atender, a contento, o total de passageiros embarcados.
Resumindo, raríssimo encontrar alguém que nos pudesse informar qualquer coisa. Uma Torre de Babel. Os funcionários de diversas origens, falavam idiomas ininteligíveis. Havia, pelo menos 2 garçons indianos e 4 orientais, não sei distinguir a origem, que só entendiam algumas palavras em inglês. Pra mim foi bom porque exercitei bastante meu inglês. Ponto positivo pra mim…
Os elevadores 4 ou 5 torres, com 4 elevadores cada uma, pareciam que tinham vontade própria, pois só paravam quando queriam. Se queríamos subir, não paravam, se queríamos descer, idem… solução? Apertam-se os dois botões e entramos no elevador não importando o sentido do mesmo. Passeamos bastante de elevador… e subimos e descemos bastantes escadas por não ter saco pra ficar esperando. Quando ele finalmente parava, estava lotado… absurdo total.
Bem, fomos dormir cedo, após o jantar, no mesmo restaurante, que teve o mesmo menu do almoço/lanche/jantar que tínhamos comido. Lotado! Quase meia hora para se conseguir um prato de comida. Bebida era assim: pedia-se e esperava, esperava… dali a uns 10 minutos chegava, normalmente, errada.
Pedi um vinho, servido em taça. Fraco, mas bebível… Fomos conhecer o navio, de escada evidentemente.
Fomos às piscinas, uma coberta e com água clorada e outra descoberta. A descoberta era aquecida e a coberta, de água salgada. Àquela hora, lindas e calmas.
Combinamos de encontrar o grupo no dia seguinte às 9h na piscina descoberta. Parece brincadeira, mas ao chegarmos no deck da piscina nos deparamos com as áreas todas ocupadas, mesas, cadeiras e… piscinas… era mais ou menos do tipo: entre e fique. Não dava pra se mexer. Desistimos e fomos procurar um bar para comer alguma coisa e pedir uma bebida… mas qual, os bares dos decks das piscinas tinham filas quilométricas. Você tinha que passar o cruise card e pegar uma talão para ir ao balcão pedir. O mesmo cara que pegava seu pedido era quem o preparava, daí você imagina alguém que quisesse uma caipirinha, ou um drink. Enquanto isso, aqueles que queriam apenas uma água estavam esperando… loucura.
Nos decks das piscinas (15o e 16o andares) o calor era absurdo. Primeiro porque na piscina aberta, a água era aquecida e as laterais do navio eram de blindex, não permitindo que o calor se dissipasse e resfriasse a água. Na piscina coberta, com água salgada e fria, ao seu redor tinham uns 4 ofurôs com água a 37 graus, o que gerava um calor absurdo para quem não estava dentro da piscina. Caímos fora dali o mais rápido possível.
Fomos rodar o navio à procura de um lugar calmo, para que pudéssemos sentar, conversar, comer e beber alguma coisa. Não encontramos. Onde havia lugar para sentarmos, não havia bar. Onde havia bar, estava cheio, ou seja, também infrutífera a tentativa.
Voltamos à cabine para mudarmos de roupa já que não conseguimos ir à piscina. Já eram quase 2h da tarde e resolvemos ir almoçar. Onde? No 14o andar, deck da piscina. Único restaurante aberto para almoço. Resultado? Lotado… como assim? Se a piscina estava lotada e os bares lotados, como podia o restaurante estar lotado também? Mas estava.
Encaramos o bandejão novamente, com o mesmo cardápio, mudando apenas o formato da massa. Comemos e fomos para a cabine descansar.
Lá pelas 17h procuramos fazer um lanche. Aonde? No mesmo restaurante do deck da piscina. Lá fomos nós, mas ainda estavam servindo o almoço. A opção era almoçarmos de novo ou nada… optamos por nada e resolvemos esperar o jantar num outro restaurante, cujo nosso turno estava marcado para às 19.30h.
Desta vez fomos premiados. Restaurante de comida mediterrânea, lindo, requintado, com um atendimento vip. O garçom Mário, de  El Salvador, simpaticíssimo e sua colega Denise, uma baiana adorável. Conhecemos 3 casais que jantaram conosco nos 3 dias de viagem. Ótimas pessoas, todos jovens para nós, mas nos aturaram numa boa. Afinal um ponto positivo. Vinhos bons, tanto os brancos quanto os tintos e ainda com espumantes e rosés.

Foto: Valter Bernat

Conversamos no jantar sobre o pacote “all inclusive”. Concluímos que era fácil pra eles oferecerem este pacote, porque: o turno do almoço/jantar era de 1h30, no máximo. Daí você consumia apenas umas duas ou três taças de vinho, porque o outro turno iria começar. Durante o dia, você não tinha opção, a não ser encarar os bares das piscinas lotados e sem conseguir consumir nada… se eu bebi 2 taças de vinho no almoço e 2 no jantar já foi de bom tamanho… zero nos intervalos por absoluta falta de local de serviço. Um whisky? Impossível por absoluta falta de serviço.
Não vou falar nada sobre os outros dias porque foram exatamente iguais, salvo um passeio ou outro à Ilha Grande, que não fomos, ou à Ilha Bela, debaixo de chuva, tudo se repetiu e sempre com muita gente reclamando.
No último dia, 6a feira, fomos informados de que deveríamos comparecer ao teatro para receber as “instruções de desembarque”. Explicaram tudo, entendemos metade e fomos rodar a noite no navio após o jantar com nossos novos amigos.
O top das instruções era: liberar a cabine às 7h30 da matina. O café da manhã era de 7 às 9h. Deveríamos estar às 10h no ponto de encontro escolhido por eles, de acordo com o andar e número da cabine. As malas enormes nos acompanhavam com dificuldade porque as rodinhas não combinam com o carpete e se recusam a rodar facilmente. O primeiro grupo desembarcaria às 8h e o nosso seria às 10h.
Para encurtar esta longa história, nosso desembarque se deu às 11h com um enorme sacrifício de carregar malas com roupas que nunca foram usadas porque a “Noite do Comandante” foi cancelada pelo excessivo número de passageiros, sem local para todos estarem. A “Noite do Branco”, marcada inicialmente para às 21h, foi transferida para meia-noite, devido ao atraso no jantar. Não fomos! O mesmo aconteceu com o “Festa de Carnaval”. Uma das malas era quase só para roupas temáticas ou especiais para estas noites.
Desembarcamos debaixo de chuva. Ônibus foram colocados à disposição para o desembarque, mas era insuficientes e a fila de espera enorme. Decidimos descer as escadas carregando as malas e andarmos quase 1km até o armazém onde fica a Imigração.
Amigos, ao sair da Polícia Federal – Imigração – chovendo, um monte de pessoas oferecendo serviço de táxi. Ótimo pensei eu, mas todos queriam cobrar “no tiro”. Quase 100 ou 150 reais para ir do Porto ao Maracanã. Não aceitei. Fomos à rua, debaixo de chuva, atravessamos os trilhos do VLT e fomos esperar um táxi para nos levar de volta pra casa. Por sorte conseguimos um vazio.
Ao chegar em casa, falei: “de volta à casa… de onde nunca deveria ter saído”… para este evento, é claro.
Digo e aconselho a todos. Não caiam neste conto de minicruzeiros, pelo menos em navios do porte do MSC Fantasia. Conversamos com várias pessoas no navio que já tinham feito cruzeiros pelo mundo todo e todos foram unânimes em dizer que nunca tinham visto um tão ruim como este. “este foi o pior da minha vida”… era o que mais ouvíamos…
Sei que não é usual a minha coluna/editorial ser uma historinha do dia a dia, mas eu precisava desabafar e vocês foram escolhidas minhas vítimas, ok? Me desculpem…
No fim disso tudo, uma vantagem: fiquei sem ver TV, ouvir rádio ou ler jornal durante 3 dias… ah, sim e sem internet também, já que o pacote “full premium de 2GB” que comprei, funcionava quando queria e somente em alguns locais do navio, às vezes,  no máximo a passos de cágado. Horrível!
Por isso, comecei, e termino, este loooongo desabafo com o verso da música Melô do Marinheiro, dos Paralamas: “entrei de gaiato no navio… entrei, entrei pelo cano”…

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