2019, o ano que não termina nunca

Imagem: Arquivo Google – TV Foco

Esperando que este ano termine logo, imediatamente se possível, lamentamos mais uma tragédia. Ricardo Eugênio Boechat, um dos mais premiados jornalistas, âncora e apresentador, nos deixou de uma forma brusca, sem nexo, difícil de acreditar. Houve uma comoção nacional com esta perda, só vista (por mim) na morte de Ayrton Senna, evidentemente, sem as manifestações públicas naquele tamanho, no desfile em carro de bombeiro, etc.
O meu amigo, jornalista Ricardo Boechat frequentava as nossas casas todos os dias, através do rádio, trazendo as notícias de forma clara, honesta e sempre com bom humor, sarcasmo e perspicácia. Sua coragem e sensibilidade eram características que o aproximavam de nós. Sua voz, era a nossa voz. Era de uma imparcialidade à toda prova e a maior constatação disso é que, após seu comentário às 7.30h da manhã, recebia inúmeras mensagens na rádio, via WhatsApp, emails, e SMS criticando-o, chamando-o de comunista vendido, ou de traidor, ou de petista, ou de bolsonarista e daí em diante. Ele simplesmente respondia explicando o seu comentário, esclarecendo-o ainda mais e desafiando aqueles que o classificavam com os adjetivos acima a se entenderem, pois como ele podia ser petista e bolsonarista? Mas se a crítica vinha com agressão, ele respondia no mesmo tom. Não deixava barato.
Acima eu falei em SMS, muitos podem ter estranhado, mas sim, ele dava no ar o seu telefone celular particular e recebia SMS de todo o país. O telefone tocava o dia inteiro, eram seus ouvintes, querendo dar opiniões, reclamar de um comentário e, na maioria das vezes, lhe passar notícias, que jamais ficavam sem apuração. Quando ele mesmo não podia apurar, passava para a equipe correr atrás e cobrava… e como cobrava!
Mesmo quando conseguia tirar uma férias, ou emendar um feriado, tinha “brigas” com a “Doce Veruska” porque ele se escondia no banheiro para ler e responder as mensagens que recebia, repassando-as para a equipe. Segundo ele, ganhava broncas de sua mulher por causa disso.
Não tinha papas na língua, em razão disso, tinha inúmeros processos contra ele. Sua “chefe”, Sheila Magalhães já se preparava e se antecipava quando ouvia um comentário que poderia dar processo e pedia: “separem este áudio pra mim porque sei que vem processo e precisamos nos preparar  com o Jurídico”. Tinha pra mais de 100 processos.
Nunca o Grupo Bandeirantes limitou ou interveio em seus comentários. Não que ele não permitisse. Ele tinha autonomia com a Direção e, lógico, também muito prestígio. Na bancada do Jornal da Band, muitas vezes, tinha que ler um Editorial da Direção da emissora, com o qual ele não concordava, mas o fazia com o maior profissionalismo, mas, no dia seguinte na Rádio, falava sobre o que tinha lido, embora não concordasse.
Já há no ar um investigação do CENIPA e da Polícia Civil, porque suspeita-se que o helicóptero, além de não estar habilitado para transporte de passageiros, já estava com problemas na ida à Campinas, um percurso de 20 minutos ou de 1h de carro. Logo ele que fazia viagens loucas a trabalho, indo a qualquer ponto do Brasil, participar de palestras, seminários e, imediatamente após, voltava para São Paulo para estar a postos na bancada do Jornal da Band.
Ouvi da chefe dele, Sheila Magalhães, uma história de que certa vez ele tinha que estar em Curitiba às 7h da manhã e perdeu o último voo por conta do Jornal da Band. No dia seguinte, lá estava ele em Curitiba nos estúdios da Band de lá. A Sheila não entendeu como ele conseguira. Ele, com aquele jeito malandro disse: “ué, não era pra estar aqui às 7h? Eu perdi o último voo, não tinha outro, então eu vim de táxi”. E repassou-lhe um recibo do táxi de mais de mil reais. Era um obstinado pelo trabalho.
Ironicamente, seu último “trabalho”, foi participar de um seminário em Campinas, para falar sobre o seu sério problema de depressão que teve há algum tempo. Fez isso, como já tinha feito outras, a pedido da Sociedade de Psiquiatria, passando sua experiência para aqueles que ainda estão no caminho, sem receber um tostão por isso.
Perguntou ao Barão e à Carla Bigatto, seus diretos companheiros na rádio, quanto tempo levava de carro até Campinas. Ambos lhe responderam que no máximo uma hora. Ele, preocupado com o trânsito e com seu horário de chegada, optou pelo helicóptero, que foi providenciado pelos organizadores do evento.
Aqui vale um parabéns especial ao Eduardo Barão e à Carla, além dos demais, que estavam no ar, quando souberam da queda da aeronave e, com voz embargada e o choro contido, evidentemente, deram a notícia que jamais quiseram dar ou ouvir: “O nosso Boechat acaba de morrer, na queda do helicóptero que o trazia de Campinas para o prédio da Band em SP”. Isso porque ele queria ir almoçar em casa, com a sua doce Veruska e suas filhotas, Valentina e Catarina… infelizmente, quis o destino que isso não fosse possível.
Ele era tão especial que até sua morte foi inusitada. Alguém se lembra de algum helicóptero, com problemas para aterrissar, ter sido atropelado por um caminhão? No caso dele foi o vice-versa, ou seja, o helicóptero foi quem abalroou o caminhão de frente. Imagino o susto deste pobre motorista.
Um outro fato que me chamou a atenção foi a atuação daquela mulher – Leiliane Rafael. Dali, depois de retirar o motorista, ela ainda correu para o helicóptero e viu uma pessoa saltar do lado do passageiro, quando a aeronave já estava bem baixo e a seguir a aeronave caiu em cima dele, explodindo com o choque com o caminhão. Os funcionários da concessionária, agindo corretamente, não a deixaram chegar próximo devido ao risco de explosão, que aconteceu logo a seguir, tal qual nos filmes de Hollywood onde sempre o carro ou a aeronave explode logo após o salvamento da vítima. Desta vez não era ficção, era vida real e não houve tempo para o salvamento.
E o mais importante, esta mulher, heroína, não tinha a menor ideia de quem estava no caminhão ou no helicóptero, foi apenas solidariedade, vontade de ajudar a pessoa que estava ali, não importando quem fosse… Obrigado, Leiliane, pela sua tentativa, ela valeu para o motorista, mas infelizmente não foi suficiente para salvar o nosso Boechat e o piloto Ronaldo Quattruci.
Vale reproduzir aqui seu depoimento: Ao final da entrevista, Leiliane contou que se sentiu inútil por não ter conseguido salvar todos, e que só soube de quem se tratava, quando ela estava prestando depoimento na delegacia, horas depois. “Só soube que era o jornalista porque na delegacia tinham muitos repórteres, e eles é que me contaram que era o seu Ricardo”.
Posteriormente, ficamos sabendo que esta mulher sofre de uma doença rara, Malformação Arteriovenosa (MAV), possivelmente agora ela conseguirá obter um melhor tratamento para sua enfermidade e, quem sabe, sua cura. Ele está lá em cima e pode ajudar.

Imagem: Arquivo Google – Maceió | 7 Segundos – Sete Segundos

Eu recebi a notícia através do meu amigo Tuty, já que estava tirando uma soneca pós-almoço. Chocou-me de tal maneira que não consegui conter o choro, a sensação de perda, e aquela outra sensação que muitos também tiveram e ainda têm: “como serão minhas manhãs daqui pra frente”?
É preciso ressaltar o alto senso de profissionalismo de toda a equipe da Band (RJ e SP) por manter a rádio no ar, da forma que conseguiam… a rádio ficou fora do ar por alguns minutos.
Perdem a imprensa, o país, sua família e nós, amigos e companheiros de todas as manhãs na BandNewsFM e à noite na bancada do Jornal da Band.
Vá com Deus, meu amigo. Lá em cima você encontrará gente muito boa. Muita gente de Brumadinho (166 mortos e 192 desaparecidos, que você fazia questão de incluí-los nos mortos devido ao tempo já decorrido do evento), mais as 6 pessoas vítimas do temporal no Rio, os 10 anjos rubronegros que o ajudarão a se sentir melhor, quem sabe chamando-o para uma pelada e uma cantora muito especial, a quem ele adorava, atriz, diretora, produtora e violinista, a nossa Bibi Ferreira.
Veja a charge que o Maurício Ricardo fez, homenageando o nosso carequinha de todas as manhãs e os anjos do Flamengo. Parabéns Maurício!
http://www.oboletim.com.br/wp-content/uploads/charge-Mauricio.mp4
Por aqui fica a saudade e o nosso egoísmo por querê-lo sempre aqui conosco… e, principalmente, nosso compromisso de cobrar a apuração destes fatos e fazer os culpados pagarem, na forma da lei mas, como sempre dizia o Boechat: “temos que parar de punir os CNPJ’s, precisamos penalizar os CPF’s.
Obrigado por tudo, amigo Boechat!
PS.: 1) Como todos os passos do funeral – velório e cremação- foram realizados em São Paulo, seus amigos daqui do Rio encomendaram uma missa de Sétimo Dia, a ser realizada amanhã (16/2) aqui no Rio de Janeiro, cidade que ele amava, às 9h, na Igreja Santa Mônica, no Leblon, seu lugar preferido no Rio, que fica na Av. Ataulfo de Paiva, 527 – Leblon, Rio de Janeiro.
2) Seu grande e particular amigo Paulo Marinho, compadres, encomendou uma estátua do nosso Boechat ao mesmo artista que fez a do Zózimo e pretende, colocá-la, se assim a Prefeitura do Rio permitir, perto de seu amigo de tantos anos, Zózimo Barroso do Amaral, na orla do Leblon.

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