Mudanças no Mundo do Vinho

Imagem de Arek Socha por Pixabay

Há uma grande expectativa entre os apreciadores de vinho, no Brasil, por conta da assinatura do acordo comercial entre o Mercosul e a Comunidade Europeia.

Teria chegado, finalmente, a nossa hora de adquirir vinhos fantásticos a preços menos extorsivos que os praticados atualmente?

Especialistas neste mercado preferem adotar uma postura mais conservadora. O ato de assinar este acordo ainda não garante nada, é preciso que haja uma ratificação, por parte de todos os envolvidos. Para isto acontecer, deverão ocorrer diversas mudanças em inúmeros setores para que os produtos sul americanos, vinhos inclusive, possam se enquadrar às normas europeias e vice-versa.

Estas adequações não serão imediatas e alguns aspectos, como a redução das tarifas, podem levar cerca de 12 anos para serem zeradas.

Acima de tudo, no nosso país, é preciso que haja uma profunda mudança de mentalidade, por parte de produtores e de governantes: não podemos continuar a gerir nossos negócios pensando unicamente no escopo individual. Simplificando, o que é bom para um, pode não ser bom para todo o resto.

Esta é a mentalidade em voga no nosso setor de produção de vinhos. Os principais órgãos reguladores, que deveriam se preocupar com os aspectos técnicos de produção de uvas e vinhos, preferem servir de lobistas para interesses de poucos (e grandes) produtores ou servir de trampolim para uma carreira política.

Nosso vinho é difícil de ser produzido devido a certas condições climáticas. Mesmo assim, com muita tecnologia, estamos atingindo um bom nível, mas ainda longe de nossos vizinhos, Uruguai, Chile e Argentina.

Ainda não percebemos que, fora deste domínio, estão mudando, profundamente, vinhos e consumidores.

Há um importante marco: a aposentadoria do grande crítico norte-americano, Robert Parker.

Coube a ele criar, através de seus comentários, um estilo de vinho que dominou o mercado por algumas décadas. Vinhos intensos, marcados por muita fruta e madeira presentes.

Saiu de cena no momento que o mercado cansou deste tipo de vinho. Suas ideias e seu paladar refletiam a cultura da América do Norte, baseada no homem branco de raiz caucasiana.

O grande legado de Parker não foi o seu estilo de vinho, mas a enorme popularização que ele proporcionou à nossa bebida favorita.

Novos mercados se abriram para as vinícolas, principalmente no Oriente. O corolário imediato é o surgimento de Enólogos, Sommeliers e Críticos de outras origens que não caucasiana. E isto muda absolutamente tudo.

Sensacional!

Agora o nosso querido vinho precisa atender a outros paladares: de africanos, filipinos, chineses, coreanos e japoneses…

Imaginem, por um instante, o quanto isto é fundamental. Cada cultura destas pode ser representada por sua gastronomia específica, que difere, muito, da nossa. Isto implica em introduzir novos aromas e paladares.

Um enólogo chinês, por exemplo, mesmo que produza um vinho em Bordeaux, vai trazer um novo e diferente viés para os nossos sentidos.

Um Sommelier negro pode aumentar o leque de ofertas num restaurante se optar por indicar algumas escolhas pessoais, calcadas na sua história de vida. Esta refeição pode se tornar muito interessante!

Acrescente mais uma mudança: o consumidor também está diferente, e são eles que vão pagar a conta.

Há uma grande discussão sobre o que poderá acontecer com os famosos “vinhos icônicos”, que simplesmente não estão mais vendendo como antes.

Seus preços atingiram patamares estratosféricos.

Os novos e jovens consumidores não são mais aqueles Yuppies que adoravam ostentar. São mais comedidos e se preocupam mais com a origem, de qualquer coisa que vão consumir, do que uma fama napoleônica…

Podem, a qualquer momento, não consumir mais vinhos, simplesmente por que não querem, ou não acham mais que isto seja importante.

Este grupo foi quem alavancou a onda dos vinhos naturais. Tem tudo a ver com a cabeça deles: é mais importante como são produzidos do que o resultado final. É quase como uma consciência coletiva, interligada eletronicamente pelas redes sociais. Filmam, fotografam, comentam e aprovam, ou não, tudo que comem ou bebem.

Não será nada fácil acertar com esta turma.

Vamos precisar de toda a ajuda possível desta nova sopa cultural do mundo dos vinhos.

Saúde e bons vinhos!

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