Borgonha para os Reis, Champagne para as Duquesas, Bordeaux para os Cavalheiros.

Este provérbio francês, anônimo, faz uma curiosa classificação entre os três maiores vinhos de França:

– Os Pinot, da Borgonha, estariam acima de todos;

– Os Champagne, só para o público feminino;

– Os cortes Bordaleses, seriam para os homens comuns.

Temos um ditado, por aqui, que é bem semelhante, e nos permite fazer uma deliciosa analogia:

“O Sol é para todos, a Sombra, só para os eleitos”.

Questionável é afirmar quem está sob a luz do Sol ou não. Os mais atentos certamente inverteriam a ordem dos vinhos e colocariam alguns “Chateau” acima de qualquer “Domaine”.

Então, o que realmente faz um vinho virar um ícone, um cult wine, o objeto de desejo daqueles que tudo se permitem?

Alguns fatos históricos colocaram os vinhos bordaleses em evidência: a classificação organizada por Napoleão e, antes disto, o consumo desenfreado pela corte inglesa. Leonor da Aquitânia, uma das mulheres mais poderosas de sua época, era proprietária de vários vinhedos em Bordeaux e foi esposa do Rei Henrique II da Inglaterra que também era o Rei Luís VII de França.

Os vinhos da Borgonha têm sua fama intrinsecamente ligada à sua qualidade. Isto se originou durante a incorporação destas terras pela França e a mudança de propriedade que passa das mãos da Igreja Católica para particulares, que vão formando os conhecidos Domaines.

Estes duas denominações resistem ao tempo. Nas lojas, se quisermos um Bordeaux, buscamos por um Chatêau, se a opção for Borgonha, procuramos por um Domaine.

Existem, por outro lado, rótulos em diversos países que, também, se tornaram famosos.

Barca Velha, em Portugal e Vega Sicilia, na Espanha são bem conhecidos nossos. Na Península Ibérica, as marcas são mais conhecidas que os produtores. Só para ilustrar, a Casa Ferreirinha produzia o Barca (agora é a Sogrape) e o Vega é homônimo de sua vinícola.

Na Itália, Barolos, Amarones e Brunellos são reconhecidos pelos seus produtores (Pio Cesare, Pieropan, Soldera…), o que nos dá uma outra pista para o caminho da fama: quem elabora estas preciosidades?

O Continente americano seguiu, por esta rota, com adaptações, para carimbar seus ícones. Por exemplo, alguns vinhos norte-americanos levam uma dupla assinatura, a do Enólogo e a do vinhedo. O famoso e disputado vinhedo, To-Kalon, produz, entre outros o sempre desejado Opus One. A simples sugestão de que as uvas procedem deste lugar torna-se um indicativo poderoso.

Olhando para a realidade sul-americana, o sobrenome Catena Zapata está sempre entre os melhores vinhos argentinos e do mundo. Entretanto, esta primazia é disputada, palmo a palmo, com outros nomes como Zuccardi, Vigil, Ricitelli (a lista é grande…), não descartando dois estrangeiros que ajudaram a moldar estes vinhos: Rolland e Hobbs.

Muito difícil separar seus vinhos de seus sobrenomes.

No Chile é parecido, com a ênfase caindo mais para as vinícolas do que seus enólogos/produtores. A Concha y Toro tem vinhos entre os mais importantes do mundo, alguns em associação com grandes produtores franceses (Almaviva, Don Melchor, Carmim de Peumo).

Lá se percebe outra disputa acirrada: Errazuriz, Lapostole (os donos são franceses), Undurraga, Cousiño Macul… E não podemos esquecer as vinícolas de garagem que fazem um sucesso indiscutível.

Incansável busca pela alta qualidade.

Temos nossos cult wines bem brasileiros também. O Lote 43, da Miolo, certamente entra em qualquer lista de vinhos importantes, assim como o Storia, da família Valduga. Entre os espumantes, Cave Geisse (Mario Geisse é chileno) é a nossa referência.

A estes nomes podem se juntar vários outros: Dal Pizzol, Salton…

Adotamos em nosso país a estratégia dos italianos: o nome do produtor é quem vai indicar a qualidade do vinho. Uma garantia.

Na sua próxima compra, desvie seus olhos do rótulo e avalie os outros parâmetros, como os citados neste texto.

Saúde e bons vinhos!

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