Rituais

Dentre as cenas mais terríveis veiculadas diariamente pela TV, fiquei pensando no desespero das pessoas que queriam ver, pela última vez, o corpo de um ser amado, no caso, um pai, pranteado por seu filho. Ele explicava que ninguém mais o tinha visto nas duas semanas que passara internado e que agora tinham sido notificados de sua morte…

Quantos não terão ido e ainda irão exatamente nas mesmas condições, sem direito a féretro, velório, ainda que muito ricos e influentes – marcante a frase da filha do Presidente de um grande banco, dizendo: “Tão rico, tão influente  e desesperado tentando encher o peito de ar, que é grátis, mas sem conseguir, ainda que estivesse no melhor hospital  do país e atendido pelos melhores médicos..”

Entretanto, pela regras deste momento, ninguém pode acompanhar seu ente querido nem nos hospitais, nem no enterro, caso morram de COVID-19.  Os corpos são levados sem acompanhamento, sem féretro e até sem as roupas separadas para essa ocasião…

Houve o relato de um motorista de carro funerário a quem entregaram as roupas para que o cadáver fosse vestido com elas. Muitos mortos, como na Itália, foram escoltados por caminhões do exército para cemitérios fora da cidade onde viviam, por falta de lugar para enterrá-los…

Dentre os povos, os judeus têm um ritual relacionado com a morte, que é longo, incluindo objetos religiosos, lavagem do corpo, o envolvimento em uma mortalha, uma reza específica para os mortos, sendo, só então, enterrados, nunca às sextas-feiras após o nascimento da primeira estrela e nem aos sábados.

Lembro de ter voltado de sepultamentos e observar o céu azul, o sol brilhando, as pessoas em seus afazeres, os carros pelas ruas… Particularmente, no enterro de minha avó, num tempo em que ainda se acompanhava o carro funerário até “a última morada”, eufemismo para cemitério – houve um séquito longuíssimo. Mandava a boa educação que ninguém o interrompesse, sendo inclusive permitido atravessar os sinais vermelhos. Lembro-me que as pessoas, vendo aquela extensão infindável, começaram a buzinar, irritadas com o tempo que estavam perdendo…

Hoje, quando comumente não há mais séquitos e todos se encontram no cemitério, ainda fico pensando que a vida continua apesar da tristeza, do desaparecimento de alguém, quer seja  benquisto ou não.

De repente, nossa premência para nos desvencilharmos de rituais “muito demorados”, nos coloca, indistintamente, diante de muito tempo disponível para tudo, inclusive prantear nossos entes queridos. Em princípio, poderíamos seguir um enterro, ir a um velório, mas nada disso nos é permitido.

Aqui, onde a mortandade só se inicia, ironia das ironias, os mortos são levados sozinhos por um carro funerário até o local/cemitério escolhido pelos parentes e entregues aos coveiros que vão colocar uma identificação sobre cada uma das covas.

E, como andam muito cansados de cavar o dia todo, durante toda a semana – sim, porque há profissões que sequer são lembradas – e a deles é uma à qual sempre se deu pouca ou nenhuma importância – podem, eventualmente, colocar a placa de identificação com garranchos em tinta preta no túmulo errado e, se você for ao cemitério é possível que vá rezar para o morto errado. Ironia das ironias…

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