Maravilhosa Doris


Sua qualidade como cantora e atriz paira muito acima dos críticos e dos modismos.
Há quem menospreze Doris Day. Em especial quem conhece pouco ou quase nada de sua longa, extraordinária carreira, tanto na música quanto no cinema. Em especial entre aquelas pessoas de narizinho empinado que dizem adorar “cinema de arte” e detestar “cinema americano”.
Azar deles.
É forçoso admitir, no entanto, que dois momentos da carreira de Doris Mary Ann Kappelhoff acabaram a identificando com coisinhas bobas – o que permitiu que se espalhasse, para os afoitos, ou simplesmente pouco informados, uma imagem um tanto negativa. Um desses pontos foram seu papéis como virgem imaculada, firme, estoica, em comediazinhas românticas da Universal a partir de 1959. E outra foi a extrema, exagerada divulgação da gravação que ela fez da canção “Che sera, sera”.
Esses dois fenômenos colaram em Doris Day uma imagem de mulher um tanto ingênua, naïve, bobinha.
Nada mais distante da verdade.
Como mostra o maravilhoso início do texto sobre Doris Day no livro International Dictionary of Films and Filmmakers – Actors & Actresses, assinado por George Walsh:
“Se em sua aposentadoria ela alguma vez pondera sobre esses assuntos, Doris Day deve ocasionalmente se divertir. Tendo por várias vezes sido ridicularizada como a heroína vazia em comédias musicais não muito respeitáveis da Warner nos anos 50, ou como a perpétua virgem nas sofisticadas comédias sensuais da Universal nos anos 60, Doris Day agora se vê a vítima de uma mudança completa de visão. Agora o senso comum é de que ela pode ter sido uma atriz talentosa e subestimada que trabalhou em filmes de maior complexidade do que, à época, eles pareciam. Já os admiradores de Doris Day nunca precisaram de pretextos.”
O “agora” a que o autor se refere era meados dos anos 80 – o livro é de 1986. A forma como a crítica fala de Doris Day pode mudar de tempos em tempos. A qualidade de suas atuações, no cinema e na música, paira muito acima dos críticos e dos modismos.
***
Sim, de fato Doris Day ficaria famosérrima por seus papéis de virgem a toda prova, a partir de Confidências à Meia-noite/Pillow Talk. E o fantástico é que em 1959, o ano de lançamento do filme, ela, nascida em 1922, estava com 37 anos, e tinha uma longa, respeitável carreira como atriz, iniciada 1948, e como cantora, iniciada em 1940, quando portanto estava com inacreditáveis 18 aninhos, e gravou maravilhosas faixas como crooner da orquestra de Les Brown.
Sempre achei uma coincidência fantástica o fato de Doris Day ter estreado em disco como crooner de uma big band em 1940 – o mesmo ano das históricas primeiras gravações de Frank Sinatra como crooner da orquestra de Tommy Dorsey. E as gravações dela são bastante parecidas com as dele: há sempre um trecho instrumental longo abrindo cada faixa, até que, lá pelas tantas, entra finalmente a voz do/da crooner – perfeita, maravilhosa, como se fosse mais um instrumento da orquestra.
Seriam necessários 14 anos para que eles se reunissem diante das câmaras, o descendente de imigrantes italianos e a descendente de imigrantes alemães, em Corações Enamorados/Young at Heart, de 1954 – em que o nome dela aparecia antes do dele!
Em 1955, quatro anos antes de Confidências à Meia-noite e dois depois do gigantesco sucesso de Ardida Como Pimenta/Calamity Jane, ela havia interpretado a cantora de jazz Ruth Etting, famosa nos anos 20 e 30, quando gravou mais de 200 canções, e foi teúda e manteúda de um gângster. Naquele filme Ama-me ou Esquece-me/Love me or Leave Me, contracenou com James Cagney, o mais perfeito gângster do cinema americano até os anos 60. (A foto acima é um still publicitário desse filme.)
E a interpretação dela de “Ten Cents a Dance”, com uma grande orquestra, é espetacular. A cantora, a narradora da canção, é uma taxi girl, uma dançarina de boate, dessas que cobram dez centavos pela dança. “Dez centavos a dança, isso é o que me pagam. Dez centavos a dança; dândis e durões, durões que rasgam meu vestido. Das 7 à meia-noite eu ouço a bateria, o saxofone toca alto, os trompetes arrebentam meus tímpanos. Os clientes pisam no meu pé. Tudo de que você precisa é um tíquete; vamos lá, garotão, dez centavos a dança.”
Não há nada, absolutamente nada menos virginal, inocente, naïve do que isso.
No ano seguinte, 1956, fez o principal papel feminino na versão americana de O Homem Que Sabia Demais, em que Alfred Hitchcock refez seu próprio filme da era inglesa; ali, interpretava a esposa do americano tranqüilo que, sem que nem por quê, se vê envolvido num complô internacional – e, pelos truques do mago do suspense e do marketing pessoal, ela própria acabou cantando no filme a canção “Che sera, sera”, e então passou a ser conhecida pelas gerações mais novas como algo chegado a um brega. Coisa que ela jamais havia sido e jamais seria.
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A partir de Confidências à Meia-noite, mais Já Fomos Tão Felizes (1960), Volta Meu Amor (1961), Carícias de Luxo (1962) e várias outras, virou piada pronta dizer que Doris Day depois de velha virou virgem. Mas resumir Doris Day a atriz de comediazinhas românticas em que interpretava virgens irredutíveis é um erro absurdo – ou ignorância pura e simples. Na verdade, Doris Day é uma das mais brilhantes e completas artistas do cinema e da música que não tiveram seu talento perfeitamente reconhecido.
Basta lembrar de sua interpretação como a americana que se casa com um inglês e se vê perseguida e aterrorizada por um estranho na Londres cheia de fog no excelente A Teia de Renda Negra, lançado em 1960 (na foto abaixo), entre uma comediazinha romântica e outra.
E, para quem só a identifica como cantora de “Che sera, sera”, nem é mais necessário comprar o espetacular CD duplo The Complete Doris Day with Les Brown, com 42 belíssimas gravações. Basta ir à internet.
Descanse em paz, Doris. Dê um abraço no Frank e no Rock por nós.

13/5/2019
Filmes de Doris Day no 50 Anos de Filmes:
Êxito Fugaz/Young Man with a Horn (1950)
No, No, Nanette/Tea for Two (1950)
Paris em Abril/April in Paris (1952)
Corações Enamorados/Young at Heart (1954)
Ama-me ou Esquece-me/Love me or Leave Me (1955)
O Homem Que Sabia Demais/The Man Who Knew Too Much (1956)
Confidências à Meia-Noite/Pillow Talk (1959)
A Teia de Renda Negra/Midnight Lace (1960)
Já Fomos Tão Felizes/Please Don’t Eat the Daisies (1960)
A Espiã de Calcinhas de Renda/The Glass Bottom Boat (1966)

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