A rua é do povo

É bom tomar cuidado com quem procura defeito em manifestação de rua.

“A praça é do povo como o céu é do condor”, escreveu o poeta. A rua não tem dono, a rua é do povo, é de quem vai para ela se manifestar.
Quando se planeja uma manifestação de rua, não dá para exigir carteirinha disso ou daquilo – e isso seria uma absoluta estupidez, uma arrematada imbecilidade. Em qualquer manifestação há de tudo – ainda bem! Há os de bom-senso, há os um pouco extremados, há os extremadíssimos. Há quem defende um ideário completamente diferente daquele da maioria, da imensa maior parte dos que foram às ruas.
Participei de todas as manifestações de rua contra o PT, contra Dilma, contra a corrupção monumental que tomou conta do governo e das estatais durante o período petista. De todas – das menores às mais extraordinariamente fantásticas. As de 15 de março, 12 de abril, 16 de agosto e 13 de dezembro de 2015 – até as maiores de todas as manifestações políticas da História deste país, as de 13 de março de 2016, que superaram as das Diretas já. Das quais, aliás, participei também – de todas as que houve em São Paulo.
A campanha pelas Diretas já foi talvez o melhor exemplo de frente ampla da História brasileira. Cabia de tudo nos palanques – e, obviamente, nas ruas, nas praças. Dos direitistas da antiga UDN aos comunistas do PCB e do PCdoB, passando, é claro, pelo PT, o partido que seria contra a vitória de Tancredo Neves sobre Paulo Maluf no colégio eleitoral, contra a participação no governo de união nacional pós-Collor de Mello, contra o Plano Real, contra a Lei de Responsabilidade Fiscal.
Estive ao lado de petistas nas manifestações contra Collor de Mello. De petistas, comunistas, socialistas, social-democratas, liberais, gente dos mais diversos credos políticos.
E foram grandes festas, todas aquelas grandes manifestações – as anti-ditadura, as anti-Collor de Mello, as anti-PT & Lula & Dilma & Ladroeira Ampla Geral e Irrestrita.
Nessas gloriosas jornadas de 2015 e 2016, havia sempre um bando defendendo o que chamavam de “intervenção militar”. Um dos vários carros de som na Paulista era ocupado por esse grupo – e a visão daquilo ali era chocante: pessoas fantasiadas de soldados, em roupas de campanha, aquelas coisas para combate na selva, defendendo a volta da ditadura militar.
As grandes manifestações anti-PT não se confundiram, no entanto, com a histeria daquele pequeno grupo – pequeno mesmo, se comparado ao tamanho total da multidão.
Vale a mesma coisa nas manifestações de rua desta quarta-feira, 15 de maio, a favor da educação e contra os cortes de verba para as universidades federais. Sim, lá estavam os petistas e seus cupinchas do PCdoB, do PSOL, lá estava a CUT, com suas bandeiras vermelhas e seus patéticos apelos por Lula livre, mais palavras de ordem contra a reforma da Previdência.
Não poderia ser de outra forma. Era obviamente de se esperar que o PT se imiscuísse na manifestação a favor da educação. Mas a presença de gente do PT e CUT falando em Lula livre, abaixo a reforma da Previdência, não empanou o brilho de uma grandiosa manifestação a favor da educação e contra os cortes na educação e contra o governo Bolsonaro de uma maneira geral.
Exatamente da mesma maneira que a presença de radicais, de loucos, insanos, de uma direita radical, babante, raivosa, não empanava o brilho das manifestações anti-PT.
É simples assim. Simples demais. Só não vê quem se tornou cego, seja pelo anti-petismo radical, seja pelo bolsonarismo – que, de resto, já é radical por definição.
Muita gente, mas muita gente mesmo chiou e continua chiando nas redes sociais contra as manifestações deste 15 de maio, dizendo que é coisa do PT. Dizendo, como Jair Bolsonaro disse nos Estados Unidos, que são idiotas úteis servindo de massa de manobra.
Ele provavelmente queria dizer inocentes úteis – só que, idiota como é, confundiu os termos.
É triste, mas a verdade é que, pela reação das pessoas às manifestações deste 15 de maio, traça-se uma divisão nítida, clara.
Quem é contra manifestações a favor de educação está de um lado. Está do lado do governo Jair Bolsonaro.
O que significa dizer que está, hoje, do lado contrário ao da maior parte dos brasileiros.

15/5/2019
A foto do alto é do Largo do Rosário, centro de Campinas, e é de autoria de Luciano Claudino / Agência O Globo.
Da foto logo acima, da Avenida Presidente Vargas, até a Candelária, no Rio de Janeiro, não pude identificar o autor.

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