Um tempo na Cinelândia

Com tempo sobrando para começar uma reunião no centro, me sento num banco de praça na Cinelândia e me ponho a observar a vida que me vai passando.

Ao meu lado uma senhora fora do peso, com uniforme cinza e o olhar parado num tempo que provavelmente ficou no passado, e de súbito, eu tb, me volto no tempo com o passar do bonde de moderna forma, mas com a velocidade e o sino de um século que já morreu.

Sentado em outro banco, está um negro, também, de uniforme, e com fone nos ouvidos, que marca o ritmo da música que ouve, com um forte pisar dos pés contra o chão e um balançar de cabeça que me faz lembrar negros de New Orleans, em pleno gozo. Pedestres transitam, alguns a passos largos, e outros, indiferentes ao tempo, simplesmente, bordejando pela cidade.

Curiosa essa mistura entre o afoito compromissado e o bafejado pela desocupação e quase uma baiana indolência.

A fauna humana e muito diversa, e como um caleidoscópio, vai se armando e desarmando em diferentes e dinâmicos cenários. Fico tal um voyeur à espreita de uma indiscrição, de uma janela indiscreta que se movimenta e reage.

Aos poucos a hora de almoço vai avançando e as pessoas vão diminuindo em minha volta, o vento sopra mais forte e refresca minha pele que agradece feliz.

Para na minha visão, um burro sem rabo, puxado por uma imensa barriga e uma cabeça sem cabelos, que sua tal um porco e discute com seu burro, parecendo dizer a este, quão injusta é a vida. Meus olhos fogem dessa cena e observam 2 lindas mulheres, elegantes e altivas, que pisam essas calçadas com tanta leveza que parecem flutuar, quando me viro para poder melhor contemplar as donzelas, uma vassoura nervosa, na mão de um gari laranja me varre os pés e me diz num pedido de desculpas: se ainda não é casado, acabo de lhe tirar da forca. Se for casado, espero ter dado uma forcinha rumo ao salvamento. Mal tive tempo de dizer algo, e ele já havia partido.

Como toda praça, aqui também, tem um bêbado, que grita e xinga atá sua sombra, empurrando para longe quem vai passando na sua área.

Nesse breve tempo que me sentei, me senti um guia de informação, de tudo me perguntavam; como chegar em tal lugar, onde era a rua do destino, qual ônibus pegar, e a todos, eu apontava para minha vizinha de cinza,numa tentativa de lhe trazer de volta ao aqui e agora. Sem que eu esperasse ela ouve um ruído e me pergunta, me cutucando, se era um trovão.

Sorri no canto da boca e lhe disse que era meu estômago faminto, ela de pronto, me oferece seu lanche e diz estar sem fome, mas seu olhar continua sem brilho e sem vida, acorrentado em um triste lugar. Agradeço e digo que não terei tempo de comer. Nos olhamos numa cumplicidade típica de estranhos e ela rói a unha do dedo indicador, tosse 3 vezes, cospe pro lado, cospe de novo, se coça e parte, virando sua cabeça em minha direção num silencioso adeus.

Se passaram 40 minutos desde que me sentei e agora, o relógio me diz que chegou minha hora de levantar e ser mais um desses caminhantes desse deserto de asfalto ensandecido.

Cedo meu lugar na plateia a duas sirigaitas que chupam com volúpia seus picolés, e enquanto me afasto, escuto suas risadas de luxúrias ficando cada vez mais distantes, assim como eu, dessa luxúria que me deu inveja.

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