Espeço


DORRIT HARAZIM
é jornalista e colunista de O Globo

O poste, o país e o futebol

Não é preciso ser polvo para perceber uma certa analogia entre o caso Bruno, a Copa do Mundo de 2014 no Brasil e o poste do calçadão de Ipanema que desabou sob o peso de uma senhora que nele se apoiou, dois domingos atrás. Em graus variados de gravidade, os três apontam para falhas de estrutura gritantes do poder público nacional.

O presidente Lula zangou-se com o desairoso retrato do Brasil feito pelo secretário-executivo da Fifa, Jérôme Valcke, pouco após o encerramento oficial do Mundial na África do Sul. Segundo o dirigente esportivo francês, nosso Brasil-sede da próxima Copa está atrasado em quase tudo — na construção de estádios, aeroportos, estradas, sistema de comunicações e capacidade hoteleira. De resto, ironizou em estocada final, os trabalhos que consumirão R$33 bilhões vão bem.

A resposta presidencial veio em menos de 24 horas, uma oitava acima do tom original. Considerou que Valcke havia tratado a nação “como se fôssemos um bando de idiotas que não soubéssemos fazer as coisas nem definir prioridades”. Só que basta espiar um pouco mais para além da vitrine para constatar a profundidade do rombo e o tamanho do atraso. Por enquanto, o Brasil da Copa mais se parece com o poste de Ipanema — se mantém ereto, por ainda não ter sido posto à prova.

No caso do goleiro Bruno, ídolo maior da safra recente de jogadores do Flamengo e suspeito no assassinato e esquartejamento da ex-namorada Eliza Samudio, o poste já ruiu. Mas muito de suas entranhas apodrecidas permanece soterrado.

Difícil não se chocar com a lentidão das várias instâncias que tiveram em mãos o caso da jovem de 25 anos, grávida de cinco meses, que buscou proteção e amparo legal. Entre a terça-feira de outubro de 2009 em que ela adentrou o 3º Juizado de Violência Doméstica contando ter sido sequestrada e ameaçada pelo goleiro e a denúncia proferida contra Bruno por lesão corporal e cárcere privado, transcorreram oito meses. Prioridade zero, portanto.

Mais chocante ainda é constatar que esse mesmo inquérito só chegou a um desfecho judicial ao receber visibilidade e holofotes derivados do assassinato. Sem isso, talvez permanecesse enterrado nos escaninhos da polícia, da Justiça e do Ministério Público do Rio de Janeiro.

Também em Minas Gerais, onde se concentra a apuração do crime, vários postes em decomposição foram derrubados por acaso. Basta pegar como exemplo o caso do ex-policial civil Marcos Aparecido dos Santos, o Bola, principal suspeito de ter executado Eliza com as próprias mãos, a pedido do amigo Bruno. Sabe-se somente agora que, 15 meses antes, a Corregedoria da Polícia Civil mineira recebera denúncia da participação de Bola no assassinato, esquartejamento e cremação de dois homens.

Resta o time do goleiro Bruno, sustentado pelo fervor de uma torcida de 35 milhões de brasileiros. “O Flamengo não absolve os culpados mas não pode ser com eles condenado”, pleiteia em artigo o presidente do Conselho Deliberativo do clube, Sylvio Capanema de Souza. Faltou esclarecer por que Bruno continuou a treinar no campo rubro-negro, embora suspenso, quando já era o principal suspeito do assassinato de Eliza. Na ocasião, o atleta mostrou-se falante e à vontade com os companheiros de treino e encarou as câmeras com o applomb de um intocável.

Coube a Zico, o novo diretor-executivo recém-empossado, apontar para a ferida aberta. “Chegamos no limite. Gostaria que esse grupo entendesse isso”, advertiu. Referia-se à recente conquista do hexacampeonato que, a seu ver, contribuiu para que desvios de comportamento de outras estrelas do time tivessem sido tolerados.

Por extremo, o caso Bruno não pode ser tomado como indicativo de coisa alguma. Mas pode desencadear reflexão e ação. Algumas políticas da bilionária NBA (National Basketball Association), a liga de basquete profissional dos Estados Unidos cujos jogos são transmitidos para 42 países, talvez merecessem atenção.

Antes do início de cada nova temporada, uma safra de 60 jovens astros do campeonato universitário americano é recrutada para se incorporar ao idolatrado planeta NBA. Mas antes de poder vestir a camisa de um dos 30 times da Liga, precisam passar pelo Programa de Transição para Calouros. Criado 24 anos atrás, o programa de dias longos e tediosos, que rouba uma parte do verão do atleta, é obrigatório, com multa de US$20 mil a quem se ausentar e suspensão por cinco jogos a quem faltar. Visitas são proibidas e o uso do celular, regulamentado.

Essa imersão à la Dunga destina-se a preparar o atleta para as demandas, obrigações, armadilhas e seduções à sua espreita, a partir do momento em que vai fazer parte da elite esportiva do país. As sessões com psicólogos, consultores financeiros, advogados, veteranos da Liga, técnicos e dirigentes são divididas em categorias. Ensinam o que fazer com a súbita exposição na mídia, o inevitável assédio sexual, a enxurrada de dinheiro em conta, a pressão dos veteranos.

No universo do futebol brasileiro, as armadilhas são semelhantes. Em entrevista à repórter Débora Bergamasco, de “O Estado de S. Paulo”, concedida pouco antes da Copa do Mundo para a qual não foi convocado, o atacante Neymar, um dos “meninos de ouro” do Santos, recitou com convicção o catecismo dos famosos. Do alto de seus recém-completados 18 anos e salário beirando os R$100 mil, explicou que gostaria de ter um carrão.

— Mas você acaba de comprar um Volvo XC-60 — retrucou a repórter.

— É que eu queria uma Ferrari vermelha e um Porsche amarelo na garagem — esclareceu o jogador, que ainda usa aparelho nos dentes. Em compensação, desconhecia o nome dos candidatos a presidente e ainda não tinha tirado o título de eleitor.

Nascido e criado em família evangélica, o camisa 10 do Santos tem um pai zeloso que ainda o mantém em rédea curta. O poder de atração do pacote presença em eventos VIP-balada-sexo com loira-drogas está por toda parte. Na NBA, todos os jogadores dos 30 times sabem que serão testados quatro vezes por temporada, e várias outras durante as férias.

A Liga americana também montou um programa específico para quem está em final de carreira, às vésperas da temida aposentadoria. Na verdade, a iniciativa partiu da Associação dos Veteranos da NBA. “O importante é chegar no jogador dois anos antes, enquanto ele ainda recebe um polpudo salário e tem tempo de preparar o futuro. Antes que ele se meta em confusão”, diz Charles Smith, que assumiu o cargo de diretor-executivo em dezembro último. Planejamento financeiro e de carreira, educação continuada, prevenção de drogas e jogatina fazem parte do cardápio.

“Se não houver apoio, a queda costuma ocorrer já nos nove primeiros meses”, observa Smith. Isso porque nem todo ex-grande jogador pode se tornar técnico ou comentarista esportivo, e a maioria dos que penduram a camisa ainda tem 30, 40 ou até mesmo 50 anos de vida pela frente.

Trata-se, como diz Lula, de definir prioridades. Enquanto é tempo, acrescentaria Valcke.