Por que trocamos tanto de smartphone?

Adquirir um novo aparelho, mesmo quando já se tem um bom modelo, é algo comum. Precisamos pensar no que nos leva a tomar esse tipo de decisão.
Por Rodrigo Vieira
Nas redes sociais ou entre amigos, recebo com frequência perguntas sobre se vale a pena trocar um smartphone X por um Y. Em muitos desses casos, são trocas que julgo desnecessárias, porque o tal smartphone X ainda é bom – sem um defeito claro nele ou grande motivo evidente, é o que considero uma transação supérflua. Percebo que, entre os que curtem celulares, trocas desse tipo são comuns, e estou incluso no pacote. Uso o pretexto de que um novo aparelho sempre faz sentido porque trabalho com isso, mas certamente teria a mesma atitude se não trabalhasse. Por que tanta gente troca de smartphone nessas condições? Tenho algumas pistas.
A bola da vez
É evidente que cada um tem seus gostos individuais e, a partir deles, existe uma tendência para se investir em produtos relacionados. Mas, pensando em tempos recentes, de maneira geral, cada fase histórica tem um ou alguns produtos que se destacam como objetos de desejo, seja pela inovação ou pelo impacto que causam no cotidiano. Houve uma época em que TVs eram o centro das atenções, por exemplo. E os smartphones (ainda) são a bola da vez, num período em que as comunicações avançam de forma avassaladora.
As fabricantes sabem que precisam investir nisso, e assim têm feito. Somos bombardeados com novos produtos numa velocidade acima do que se consegue acompanhar. É válido notar que, há não muito tempo, era costumeiro que as grandes marcas lançassem uma nova versão de seus modelos principais por ano. Com grande influência dos chineses, esse ciclo se reduziu para 6 meses ou até menos, e hoje é comum que certos smartphones recebam atualizações antes mesmo que tenhamos nos familiarizado com a versão corrente.

Parece necessário
Esse ritmo frenético tem total relação com o que se chama de “obsolescência programada”. Em outras palavras, a intenção do fabricante de que seus produtos se tornem obsoletos ou não funcionais em um curto espaço, para que, assim, o consumidor opte por trocá-los. Ou seja, é preciso que um produto que poderia ser usado por cinco anos esteja defasado em um ou dois, criando nova demanda de compra.
A defasagem não precisa ser real e objetiva. É claro que uma bateria ruim, sistema operacional desprotegido ou desempenho limitado pesam um bocado na desvalorização de um smartphone. Mas isso também pode vir de aspectos menos palpáveis, ou seja, apenas da impressão subjetiva de que um modelo está ultrapassado, mesmo que por aspectos superficiais, como seu visual ou uma função mínima que lhe falte. O marketing das principais marcas está cada vez mais agressivo para transformar pequenos detalhes em grandes coisas, atrativas e necessárias: meio centímetro a mais de tela, câmera com alguns megapixels adicionais, traseira em um material diferente, tudo isso seria absolutamente dispensável num mundo em que não fôssemos bombardeados com tanta publicidade.
Somos superficiais? Talvez a questão seja mais profunda
O marketing não faria qualquer sentido se não houvesse um público receptivo. E há, seja por razões superficiais ou mais profundas. Num entendimento mais superficial, novos smartphones chamam atenção não só por suas especificações, mas também por funcionarem como símbolos de estilo, status e inclusão. É a ideia de que ter um aparelho recente proporciona a sensação de se estar atualizado, além de uma aparência de sucesso. Você já deve ter ouvido falar de profissionais que “precisam” de um telefone do ano para parecerem bem-sucedidos e impressionarem clientes em potencial. Ou mesmo histórias pitorescas de adolescentes que desejam algum lançamento para serem bem vistos em seus ciclos de amizade, ou por alguma paquera. Por vezes, aparências importam tão mais que funcionalidade que alguns aparelhos novos não despertam tanto desejo por parecerem visualmente com seus antecessores – um iPhone 8 seria passável para quem exibe um 6s que, dentro de uma capinha, é a mesma coisa.
Mas o que poderíamos interpretar como futilidade também encontra explicações mais profundas. Vivemos tempos em que a frenesi das redes sociais, dos modelos de sucesso e a explosão de informações gera impactos no bem-estar psicológico dos indivíduos. Os que apresentam algum nível de ansiedade ou insatisfações pessoais podem usar a compra de novos produtos como um recurso de desafogo, uma tentativa de se satisfazer mentalmente com um objeto de desejo, efeito esse que tende a ser breve, e não leva tempo até serem necessárias novas investidas. Isso casa perfeitamente com as já comuns estratégias de marketing que tentam associar produtos não a suas especificações, mas a ideais de estilo, de comportamentos bem vistos e de sucesso.
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Qual é a hora certa para trocar de smartphone?
Não devemos nos prender a explicação alguma. Falei apenas de possibilidades, e cada um deve avaliar se algo lhe cabe. Além disso, como disse Freud: “Às vezes, um charuto é apenas um charuto”. Em outras palavras, não precisamos refletir demais o tempo inteiro. Para quem curte smartphones, pode ser apenas divertido testar um modelo diferente e ver o que ele tem a oferecer.
Existiria, então, uma hora certa para se trocar de celular? Não cabe a mim impor regras à vida alheia, mas, aos que me fazem essa pergunta, costumo dizer que sim. Normalmente, um momento razoável é quando o seu aparelho atual já apresenta grande perda em capacidades importantes – tela danificada e com substituição cara, bateria que não dura, sistema operacional incompatível com certos apps ou processador antigo, que não dá mais conta das tarefas. Ou ainda, quando lançamentos trazem funções que lhes serão realmente valiosas no uso diário – um leitor biométrico que agilize o desbloqueio, câmera com um bom modo retrato para quem é entusiasta, ou que traga funções que facilitem alguma rotina de trabalho. Esse tipo de coisa, somado a um “precinho” mais camarada encontrado em alguma loja, me parece criar o momento propício. E não se enganem: estou escrevendo mas também sou público-alvo pra esses conselhos.
Fonte: Oficina da Net

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