Para que esse sangue no olho?


Os temas se atropelam e nos atropelam em timelines, smartphones, telas, páginas e ainda nas bancas de revistas. Em meio às purpurinas e à dança de corpos suados, penas, cores, máscaras e dentes abertos dos palhaços do Rio Vermelho, pulam também as imagens de uma privada de ouro chamada “América”, ofertada ao homem mais poderoso do mundo, Mr. Trump, pelo Museu Guggenheim de Nova York para decorar a Casa Branca.
Ecoam sons de vídeos da turma do MBL comemorando a condenação de Lula da Silva em Porto Alegre e os fãs do ex-sapo barbudo nunca na história da República postaram tanta coisa, disseram tanta coisa. Não há métricas para saber quem odeia mais e melhor. Os petralhas? Os coxinhas? Os esquerdopatas? O curral vip do liberalismo doriano? Os bolsominions? É uma vertigem de ódio ininterrupta, um vômito em verde e amarelo ou vermelho, mais, maior e melhor que o da mocinha do Exorcista.
Penico
Aliás, nesses tempos em que a atitude mais importante é ter um grande outro contra quem vomitar ódio a partir do sofá e atrás de uma tela com teclado, a mocinha do Exorcista já nos parece expelir apenas um mero sorvetinho inocente verde pálido, em tom pastel. A cada dia vemos uma Arca de Noé ideológica radical mais cheia de gente e assistimos de queixo caído e meio atordoados nossos melhores amigos e nossa família embarcando nela, por pura ignorância e estupidez, é preciso admitir.
A consciência política, a informação sobre o andar da carruagem, as engrenagens da realidade no chão da rua e a coerência se mostram inexistentes já na segunda frase, quando muito. Como Trump e seu penico de ouro são referências distantes demais e Lula já foi tido como mártir ou bandido da República, a depender do seu lado da arquibancada, as personagens da semana para alimentar a idolatria e o ódio foram a filósofa de esquerda Márcia Tiburi e o ativista de direita Kim Kataguiri.
Lobo mau
E aqui vai só um case do quanto ninguém está disposto a ver, ouvir, entender nada, a olhar um milímetro além do que já vem pronto e embalado para curtir ou odiar. Todo mundo que já amava Márcia a ama mais agora porque ela levantou de um estúdio onde comentava o julgamento de Lula quando viu que Kataguiri iria sentar à sua frente e comentar o mesmo tema. E quem já amava Kataguiri passou a amá-lo muito mais depois que ele entrou no estúdio, cumprimentou uma Márcia até então distraída sobre quem era aquele outro comentador, e reagiu com cinismo irônico após ela ter se dado conta de quem beijara e levantado possessa por detestá-lo. E vice-versa para quem odiava um ou o outro.
Márcia é uma intelectual e se coloca como filosoficamente do lado certo do mundo, enquanto, para ela, Kataguiri pertence à indecência e ao perigo. Concordando com ou discordando dela, alguém ouviu que, antes do seu antagonista entrar, ela referia-se ao juiz Gebran Neto como abjeto, um senhor que não dormiu, torturado e envenenado, porque ele estava votando pela condenação de Lula? Quando discordamos do outro, isso significa que esse outro só tem como opção ser abjeto ou torturado? Mas ninguém está disposto a refletir sobre nada. Os nossos estarão sempre certos porque nós os amamos e isso basta. Paradoxalmente, aplaudimos os amigos pelas mesmas razões pelas quais queremos matar os inimigos.
Moral da neo-história: quando Chapeuzinho Vermelho encontrar de novo o Lobo Mau fingindo ser a vovozinha, o diálogo será: “para que esse sangue no olho, vovozinha? Para te matar melhor, Chapeuzinho”. Nem o lobo tá mais interessado em comer gente. Até ele tá ocupado e obcecado demais apenas em odiar e matar, sem propósito nem fome. Ninguém quer mais perder tempo comendo, pois isso exige mastigar com os próprios dentes e digerir expelir. Queremos tudo mastigado, pronto para vomitar ou cuspir.

Notícias Relacionadas

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *