Se correr, o bicho pega

Os homens do mar seguem uma tradição: custe o que custar, eles socorrem os companheiros que, em outra em embarcação, estejam em dificuldade. É bonito e corajoso. No nosso tempo, tornou-se também perigoso.
Um pescador italiano, contrariando as determinações de seu país, salvou esse fim de semana cerca de 100 refugiados que, numa balsa, estavam prestes a se afogar. Encrencou-se com as autoridades da Itália, mas garante não se arrepender.

Não gosto de tocar no assuntos dos migrantes que colocam a vida em risco procurando um futuro melhor na Europa. Não gosto porque não vejo solução para tão imensa crise. Deixá-los morrer no mar? Impossível. Recebê-los com pompa e circunstância como quer a chanceler Angela Merkel? Impossível também. Além de existir uma rede de espertinhos que ganha fortunas por cada infeliz que coloca num barquinho de papel, os países europeus começam a sentir o impacto da entrada maciça de fugitivos da guerra e da miséria. Todo o sistema social – escolas, hospitais, segurança, etc – começam a sinalizar que, breve, entrarão em colapso.
Para completar, a maioria dos migrantes não facilita. Arraigados à própria cultura, da qual não pretendem abrir mão, já chegam tumultuando. Há meses, Portugal recebeu uma leva de resgatados e precisou virar de cabeça para baixo a organização do hospital no qual eles foram internados para os primeiros socorros. Enfermeiras e médicas na ala em que os homens foram colocados? Nem pensar. Refazer a escala de plantões de modo a não ofendê-los com a indesejada presença feminina provocou o caos no hospital inteiro.
Escrevo isso porque o pescador italiano comoveu-me com seu gesto de solidariedade. Mas sei que, a esta altura, os que foram salvos já devem estar complicando a vida italiana. O assunto também me veio à cabeça porque ontem, em Londres, um exilado da Eritreia atirou uma mulher e seu filho de oito anos diante de um trem. O menino morreu na hora, a mãe está em estado grave. Ainda não foi confirmado oficialmente, mas parece que o assassino tinha uma relação com a mulher que tentou matar. Ela o dispensou, ele a destruiu. A mesma lógica cruel que impediu o trabalho das médicas e enfermeiras portuguesas, jogou a inglesa sob as rodas de um trem.
O mundo está complicado demais, aterrorizante demais. Não dá para sermos politicamente correto ou acalentarmos ideias romanticas na nossa selva diária. O cotidiano virou isso: se correr, o bicho pega; se ficar, o bicho come.
Ô mundinho infeliz.

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