Cachupa

Suponho que inventaram o cozido, iguaria presente em quase todas as culturas do mundo, quando alguém descobriu que colocar um caldeirão com carnes e legumes para cozinhar no fogo da lareira dava, como se diz no Brasil, “um bom caldo” – em todos os sentidos.

A primeira receita portuguesa de cozido foi publicado no século XVII num livro assinado por Domingos Rodrigues, cozinheiro da corte de dom Pedro II (1648-1706). Na Espanha, porém, um texto do século VII revela como se faz uma olla podrida, bisavô do cozido nosso de quase todos os domingos.
Na Itália se chama boleto misto. Na França, pot-au-feu. Na Bélgica e Holanda, hutspot. Na China, hot spot. Na América do Sul hispânica, puchero. No Brasil e em Portugal, cozido. Há, ainda, diversos outros nomes e, entre eles, cachupa, o cozido das Ilhas de Cabo Verde, que fui convidada a provar e, acreditem, consegui sobreviver.
Opinião de quem já foi editora de gastronomia do jornal O Globo: a cachupa surpreende. É o mais rústico, o mais saboroso e o mais rico em ingredientes de todos os cozidos que comi – e já comi vários, em diferentes lugares do mundo. A cachupa só tem um senão: sua aparência é a de uma catástrofe ferroviária, você olha e não sabe o que é o quê.
Minha cachupa, comi-a em Sintra, Portugal. Foi preparada em uma panela enorme, que ocupava todo o fogão. Nela, ferviam todos os tipos de carnes e enchidos, milho em grão, feijões variados, verduras e legumes, entre eles, alguns que usamos no cozido brasileiro, mas não no lusitano: inhame, mandioca, batata doce e banana. A água que cozinhava os ingredientes se transformava, aos poucos, numa liga melada, com jeitão disgusting, mas incrivelmente saborosa.
Na primeira vez, servi-me com parcimônia. Além de não saber se aprovaria o paladar, temi encontrar naquela confusão de carnes um caboverdiano distraído, que tivesse caído na panela e morrido igual ao João Ratão, o noivo da dona Baratinha.
Provei e, ó, glória, que coisa mais gostosa. Sendo brasileira, não tenho o menor direito de comentar o visual da cachupa. Afinal, existe coisa mais feia e mais gostosa do que uma legítima feijoada carioca? A cachupa pertence ao mesmo time. Bonita, não é. Mas, em sabor, dá de mil a zero nos cozidos comportadinhos, nos quais as carnes e os legumes são elegantemente separados.
Claro, voltei ao panelão para me servir outra vez, já convicta de que ali não havia nenhum ser humano ensopado e que, acima de tudo, o excelente paladar merecia um repeteco. Enchi um prato e fartei-me. Jiboiei o resto do dia porque cachupa é igual à traição amorosa: dá a maior mão de obra para digerir. Na próxima vez, falo da cachupa, pretendo não exagerar.
Para me tornar ainda mais fã do cozido de Cabo Verde, que passarei a comer anualmente – desejo que os meus anfitriões entendam a indireta -, li que Germano de Almeida, escritor caboverdiano que ganhou o Prêmio Camões em 2018, afirma que, sem o Brasil, a cachupa não teria a mesma graça nem o mesmo sabor, já que o milho, utilizado generosamente na receita, é contribuição nossa.
Amo constatar o embaralhamento lusófono. Comidas, idioma, músicas, muitas culturas que remetem à uma só.
Costumamos não pensar nesse assunto. Mas o pequeno Portugal deixou o seu DNA em todos os continentes. Como degustar um cozido brasileiro ou uma cachupa sem lembrar das grandes navegações do século XV e XVI?
Ou seja, a mais típica iguaria de um pequeno arquipélago atlântico, além de deliciosa, nos remete à extraordinária beleza da História portuguesa. As caravelas e galeões iam e vinham misturando os usos e os costumes que encontravam pela frente. No panelão da cachupa, por exemplo, fervia da pimenta da Índia ao milho sul americano.
A tal da globalização é muito mais antiga do que supõe a nossa vã filosofia.

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