Tapa na cara

Imagem: Arquivo Google – Terra

A vida humana vale pouco no Brasil; se for negra e mulher, menos ainda. O Estado investe fortunas em maternidade, creche, escola, universidade, saúde, para formar um(a) cidadã(o), um pagador de impostos. E aí vem uma bala perdida, um motorista bêbado ou um marido ciumento, e vai-se todo o investimento feito com o dinheiro dos cidadãos. Nem se fala de compromisso ético, humanitário ou solidário, só o custo-benefício da vida de um brasileiro já justificaria uma outra visão do Estado. Não parece, mas a morte custa caro ao Brasil.

É o tema do novo grande livro de Patrícia Melo, em que, a partir de um tapa na cara, o primeiro de sua vida, a protagonista advogada decide abandonar o namorado, que até então era tudo de bom, em São Paulo, e ir para Cruzeiro do Sul, nos confins do Acre, para pesquisar as centenas de histórias de mulheres assassinadas por maridos e namorados rejeitados, abusivos, ciumentos ou paranoicos, ou por qualquer motivo banal — os índices mais altos do Brasil. E tudo começa sempre com um tapa na cara.

A partir de casos reais da Justiça de Cruzeiro do Sul, convivendo com o clima de faroeste da cidade, a advogada pesquisa processos e ouve testemunhas das histórias trágicas das mulheres que foram empilhadas no esquecimento e na impunidade, uma por capítulo, ao mesmo tempo em que vai passando por mudanças pessoais e enfrentando, com uma procuradora e uma jornalista, a cultura machista e violenta dos fazendeiros e dos donos do poder.

“Mulheres empilhadas” seria só (só ?) uma coleção de histórias escabrosas e revoltantes, sem a trama tecida por Patrícia a partir da morte de três playboys locais que haviam estuprado e matado uma indiazinha de 14 anos de uma aldeia vizinha e estavam impunes, para criar uma história de morte e mistério — uma de suas especialidades —que só se revela nas páginas finais.

O melhor é a metamorfose da protagonista, racional e moderna, na sua vivência com as velhas índias e seus mitos e magias ancestrais, em visões de beleza arrebatadora.

Fonte: O Globo – Edição Digital

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