O mestre e o gafanhoto

Rodrigo Rodrigues era o clássico gordinho simpático.

Há muito tempo não chorava tanto. Meu primeiro amigo perdido para a Covid-19, aos 45 anos. Amado pelo público esportivo, Rodrigo Rodrigues, com esse nome divertido que era sua cara e seu temperamento, foi muito mais do que um apresentador do SporTV, o mais original, simpático e carismático, sempre engraçado e inteligente. Seus colegas o adoravam. O comovente programa de homenagem da Sport TV teve colegas de Fox, ESPN, Esporte Interativo, UOL, de todas as concorrentes, unidas na dor da perda e na celebração de um ser humano exemplar. A capacidade de agregação era uma de suas grandes qualidades, ainda mais em tempos de ódio.

RR também era músico, guitarrista da sua banda, The Soundtrackers; o amor à música também nos aproximava. Não há notícias de quem tenha conhecido Rodrigo e não gostasse dele, era o clássico gordinho simpático que encantava à primeira vista. Ma non solo. Escreveu uma ótima biografia da Blitz e dois guias preciosos de Paris e de Londres.

Conheci Rodrigo com 20 anos, ainda estudante de Comunicação na Estácio, quando fui entrevistado por ele e uma colega para a TV Universitária. Gostei muito dele e começamos a trocar mensagens, ele passou a me chamar de mestre e se intitulou meu gafanhoto, como o discípulo do mestre de kung fu. E me tratava com o perfeito equilíbrio entre o respeito e a irreverência. Um dia, do nada, me mandou de São Paulo um lindo quadro pop de Tim Maia, que até hoje alegra minha sala.

Fez uma carreira única nos canais esportivos, porque sabia muito do mundo da bola, mas fazia comentários divertidos, na medida certa, com leveza. Era respeitado e amado pelo público. Mas, quando foi chamado pelo SporTV, consultou o mestre porque estava achando que falar de futebol o dia inteiro seria muito limitador. Não sei, respondeu o mestre, mas esse é o seu dom, divertir e alegrar as pessoas. Você é único, gafanhoto.
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Rodrigo é um exemplo de luz num tempo de trevas. Provou que vale a pena ser bom, desmentindo Nelson Rodrigues: nem toda unanimidade é burra.

Fonte: O Globo

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