É ruim, mas é bom


Mesmo muito ruim como literatura, é muito bom como pesquisa e informação sobre a vida de Caetano Veloso
A recém-lançada biografia de Caetano Veloso, de Carlos Eduardo Drummond e Marcio Nolasco, é muito ruim. Mas muito boa.
É ruim porque é muito mal escrita, pelo tempo que se perde com irrelevâncias e redundâncias, pela overdose de detalhes, pela prolixidade da linguagem, pelos trocadilhos com trechos das músicas, pelas tentativas de interpretação do pensamento de Caetano. As informações que interessam mesmo, que importam na narrativa, e elas são muitas e acuradas, caberiam em pouco mais da metade das páginas: o livro ficaria mais leve e melhoraria muito, pelo prazer e fluência da leitura.
Mesmo muito ruim como literatura, é muito bom como pesquisa e informação sobre a vida de Caetano. Foram inúmeras entrevistas e documentos de boas fontes, que poderiam resultar em um clássico nas mãos de Ruy Castro ou Joaquim Ferreira dos Santos. Mas ao menos informa correta e minuciosamente sobre a trajetória de um dos maiores artistas de nosso tempo e sua personalidade exuberante e polêmica. E já é muito.
Mas não é só a história que conta, mas como é contada. Às vezes é tão mal contada que você não a entende. Às vezes tem a secura e a chatice de um relatório acadêmico. Mas quando tentam “enfeitar” a história, o desastre é garantido.
Muito já foi escrito sobre Caetano, mas o melhor continua sendo mesmo o seu “Verdade tropical”, em que narra com sinceridade e estilo momentos importantes de sua vida. Suas memórias da prisão estão à altura de Graciliano Ramos.
Mas nessa biografia, que entristeceu Caetano pela forma como sua história foi contada, certamente estão muitas informações que ele próprio não sabia ou, apesar de sua memória prodigiosa, já havia esquecido. Sua infância feliz em Santo Amaro, sua juventude intelectual em Salvador. Sua consagração, e suas grandes polêmicas, em São Paulo. Sua vida de popstar no Rio de Janeiro. Nos palcos do mundo. Na experimentação permanente.
Parafraseando Tom Jobim, que disse que “viver em Nova York é bom, mas é uma merda, e viver no Rio de Janeiro é uma merda, mas é bom”, recomendo com entusiasmo um livro muito ruim sobre um artista muito bom.
Fonte: Blog do Noblat

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