As dores do atraso

Imagem: Arquivo Google – Wattpad

Amo o Rio de Janeiro. E Salvador e São Paulo. O Brasil inteiro. Por isso, estou com o coração partido e a alma dolorida, por minhas filhas, netos, bisneto, sobrinhos, minha mulher, meus colegas. Por todos os amigos e desconhecidos, e até por quem não gosta de mim. Me sinto quase culpado por estar feliz em Londres, às minhas custas, enquanto os brasileiros sofrem e lutam para sobreviver à insanidade que, como uma maldição, nos devasta corpo, alma e esperanças desde 2014.
Na Inglaterra, a tradição e o passado se harmonizam com o mundo moderno e as vanguardas tecnológicas, científicas e artísticas. Somos muito mais ricos em território, recursos naturais, quase tudo. O que os ingleses têm que nós não temos, além da história? Será a água? O álcool? Sim, eles também têm políticos sinistros, ladrões, corruptos, embora em menor número e voracidade. Mas ao menos não são toscos, grosseiros, intolerantes e ignorantes.
Conservadores são tão respeitados como socialistas. Falando em socialistas, hoje o Imposto de Renda para quem ganha mais de 200 mil libras por ano (pouco mais de um milhão de reais) é de 50%. E sem reclamar, porque o país passa por crise econômica e quer evitar uma recessão. Antes do governo Thatcher, que reduziu os impostos, com os trabalhistas no poder chegou a 90% da renda além de um certo limite.
No Brasil o atraso e a ganância não têm ideologia. Nem classe social ou escolaridade.
Na Inglaterra, os 10% mais ricos têm renda 13 vezes maior do que os 10% mais pobres, mas no Brasil a diferença é de 40 vezes. Alguém tem que pagar pelo melhor sistema de saúde pública da Europa, pelo sistema de educação e cultura que produz mão de obra qualificada e cidadãos civilizados que convivem e discordam na maior democracia europeia, mesmo sendo uma monarquia.
Sairia muito mais barato bancar uma família real do que uma república imperial à brasileira.
Fonte: O Globo – Opinião – Edição Digital

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