A distância que aproxima

Há coisas que você não diria ao vivo, mas diz para a tela.

Minha amiga, e respeitadíssima psiquiatra, foi cumprir a quarentena na sua casa na serra e passou a atender seus pacientes por Skype. Os resultados foram surpreendentes.

Separados pela distância, os pacientes se abriam mais, muito mais, contavam coisas terríveis, revelavam segredos, abriam o coração, e as sessões se tornaram muito mais produtivas.

Talvez pela sensação de que não falavam para uma pessoa de verdade, mas para uma imagem. E ouviam melhor a própria voz — que é a essência da psicanálise. Por se sentir seguro em sua casa, muito mais à vontade, o paciente está totalmente focado na imagem da analista, que está lá para ouvi-lo; o remoto é muito mais agradável, intimista e confiável que um consultório fechado. Há coisas que você não diria ao vivo, mas diz para a tela.

É o paradoxo da distância que, em vez de afastar, aproxima paciente e terapeuta, dando-lhes mais intimidade e confiança, em benefício de todo o processo. O remoto veio para ficar. Na volta ao “novo normal” ela vai atender dois dias no presencial e três por Skype. Não é “melhor”, é diferente. E eficiente.

Outro dia fiz uma palestra para uma associação de jovens presidentes de empresas que seria no Copacabana Palace mas foi on-line. Foi minha primeira vez, mas uma das melhores que já fiz. Em vez de chegar duas horas antes, ficar no camarim tentando me concentrar com gente puxando papo, ter que ir bem vestido, de blazer, fiz de casa, com meu uniforme de trabalho: short, camiseta e pé no chão.

Na cadeira em que trabalho há dez anos, olhando o mar, seguro e à vontade, é claro que tinha que ser melhor. Vou trocar todos os convites para palestras por remoto. Porque ficam muito melhores.

No lançamento de meu novo livro planejo escapar da abominável “noite de autógrafos”, um castigo para os amigos, e fazer uma de “autógrafos virtuais”, tipo selfies remotas, e papos com os leitores na fila virtual.

Bola fora: na semana passada enchi a bola da série “El presidente” como se fosse da Netflix, mas é do Amazon Prime Video.

Imagem: Google – Pipoca na Madrugada (meramente ilustrativa)

Fonte: O Globo – Edição Digital

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