O Périgord (Dordogne): a terra dos 1001 castelos

O Périgord sempre povoou minha imaginação: região dos mil e um castelos (é o que dizem…), de cidadezinhas lindas, de grutas neolíticas, de jardins elaborados e de culinária deliciosa (é a terra do fois-gras e das trufas). No meio de florestas e entrecortada pelo rio Dordonha (La Dordogne), é lugar para se visitar sem pressa, porque há muito para ver e curtir. Sem contar que fica há 2h de carro a leste de Bordeaux, uma cidade que por si só já valeria a viagem.
Fizemos um roteiro e levamos um grupo pelo sul da França, em setembro de 2015, até chegarmos a Bordeaux. Foi uma viagem maravilhosa!
• O que é o Périgord?
Pra gente começar a entender, vamos aos mapinhas:

Nova divisão da França, a partir de 2016. Aqui estão as 13 regiões no continente europeu. E mais 5 regiões ultramarinas.

A partir de 2016 a França passou a ser dividida em 18 regiões (anteriormente eram 27), sendo 13 no continente europeu (incluindo a ilha da Córsega) e 5 regiões ultramarinas (Guiana Francesa, Guadalupe, Martinica, Mayotte e Reunião). Cada uma das regiões é dividida em departamentos.

Região da Aquitânia-Limousin-Poitour-Charentes. Agora já aparece o departamento da Dordogne ou Périgord
(Foto: commons.wikimedia.org)

A Dordonha (Dordogne) é um departamento da região da Aquitânia-Limousin-Poitou-Charentes. Ela é dividida em 4 partes: Périgord Noir (Negro – por causa de suas densas florestas de carvalhos e pinheiros), Périgord Vert (Verde – por causa de seus vales verdejantes), Périgord Blanc (Branco – por causa do calcário existente na região) e Périgord Poupre (Vinho – por causa de sua extensa produção vinícola).

Mapa da divisão da Dordogne ou Périgord. O que vai nos interessar neste post é o Perigord Noir (Preto), onde Sarlat é a capital
(Foto: www.maisonsvialot.info)

O nome Périgord vem do tempo em que a região era habitada pelos gauleses. A região era habitada por 4 tribos, e “4 tribos” na língua gaulesa era “Petrocore”. Daí a origem do nome Périgord. Então, para simplificar, Dordogne e Périgord são a mesma coisa. Dordogne é o nome administrativo e Périgord foi herdado dos gauleses ancestrais e mantido até hoje.
Parece difícil de entender… e é! Confuso, não? Mas vale qualquer esforço de atenção porque este, na minha opinião, é o departamento (Dordogne ou Périgord)) mais bonito da França. Eu sei que vou causar polêmica, mas o Périgord Noir em especial é espetacular.
Você junta tudo o que falei no primeiro parágrafo deste post e mais uma paisagem idílica e um clima razoavelmente ameno, e é bem capaz de você me dar razão…
A esta altura, os leitores já devem estar rolando o texto para verem as fotos, acertei? Um pouco de paciência, peço a vocês, acho que vale a pena…
• História resumida do Périgord:
A França já era habitada desde os tempos pré-históricos. No Périgord não foi diferente: a gruta de Lascaux, próximo à Sarlat, é um bom exemplo desta ocupação, pois suas pinturas são de 16.000 a.C.. Aliás, vou ter que fazer outro post para mostrar Lascaux, Jardins de Marqueyssac e Rocamadour, senão vocês, leitores, vão ficar exaustos de tanta explicação.
A região do Périgord se tornou próspera ao final do séc. 8 sob o reinado de Pepino, o Breve e de seu filho Carlos Magno.
Na Idade Média, a região passou por várias invasões normandas e depois sofreu com a Guerra dos Cem Anos, entre França e Inglaterra. Não foi um confronto ininterrupto, mas uma série de disputas que incluíram várias batalhas. E Sarlat, em especial, ficou no meio do caminho entre as pretensões dos dois reis inimigos.
Sarlat voltou a ser próspera nos séculos 16, 17 e 18, mas depois disso estagnou por muito tempo, só recuperando vitalidade há cerca de 30 anos quando estradas foram construídas, e assim aumentou a interação com a cidade.
Por causa dessa estagnação, seu acervo arquitetônico foi mantido intacto, sem suas construções terem sido demolidas ou alteradas. Com a lei que o governo francês promulgou em 1962 permitindo que cidades históricas recebessem ajuda financeira para serem restauradas, Sarlat recuperou a beleza de suas fachadas antigas. Como sempre digo, tudo tem um lado bom na vida! Sarlat estagnou mas por isso se preservou. Voilá!
• Principais cidades: Sarlat, Beynac-et-Cazenac, La Rocque Gageac, Domme – as 3 últimas fazem parte da lista dos Mais Belos Vilarejos da França:
1 – Sarlat la Canéda, ou melhor Sarlat, é a capital do Perigord Noir. Com seus 10 mil habitantes, é uma das mais bem preservadas cidades medievais/renascentistas da França. Possui mais de 60 construções listadas como patrimônio mundial da Unesco, o que é muito pelo seu tamanho. Passear por suas ruas de pedestres no centro histórico é uma deliciosa sensação de volta ao passado.
Sarlat é uma excelente opção de pernoite para se conhecer as outras cidadezinhas – Beynac, La Rocque Gageac, Domme, todas à beira do rio La Dordogne – que ficam a menos de meia hora de carro na direção sul. E também é ponto de partida para se visitar a Gruta de Lascaux e o vilarejo de Rocamadour, mas isto é assunto para outro post, vocês já sabem.

Sarlat: a prefeitura foi construída no século 17 mas a sua fachada é do século 18
(Foto: Mônica Sayão)
Sarlat e a torre de sua catedral
(Foto: Mônica Sayão)
Sarlat e sua famosa feira de rua aos sábados. Boa demais!
(Foto: Mônica Sayão)

A feira de rua aos sábados é um acontecimento na cidade. Vem gente de outros lugares e ela se estende pelas ruas principais do centro histórico. É fantástica! A parte de alimentação fica ao longo da Rue La Liberté (rua da prefeitura) e termina por volta das 13h. Frutas, queijos, embutidos, pães artesanais e principalmente todo tipo de fois-gras fazem a alegria do povo em geral, e de nós turistas, que adoramos esses encantos da França! Há outra feira bem pertinho, mas só de roupas e que se estende pela rue de la Republique, durando o dia todo.

A Maison Boéte (à esquerda), casa do século 16, em estilo renascentista francês, é destaque em Sarlat
(Foto: Mônica Sayão)

Detalhe da porta da Maison Boéte, em Sarlat. Amei!
(Foto: Mônica Sayão)
A Tour Saint Bernard, mais conhecida como a Lanterna dos Mortos, foi construída no século 12, mas sua origem e motivação continuam um mistério
(Foto: Mônica Sayão)

Sarlat e seu centro histórico
(Foto: Mônica Sayão)
Sarlat e mais um recanto
(Foto: Mônica Sayão)
Sarlat: cidade cheia de detalhes
(Foto: Mônica Sayão)
Sarlat: são muitos recantos, meio escondidos, mas sempre gratas surpresas
(Foto: Mônica Sayão)

Onde ficar:
– Plaza Madeleine Hotel: excelente localização e muito bom hotel no geral.
www.plaza-madeleine.com
– Hotel La Verperie: se você está de carro e não se importa de caminhar 5 a 10min para chegar ao centro histórico, o La Verperie é uma opção de ótimo custo-benefício, restaurante excelente e uma sensação de “estar no campo”.
www.laverperie.com
Onde comer:
– restaurante do Hotel La Verperie: acabou sendo minha opção de todos os jantares, de tão bom que era.
www.laverperie.com
– restaurante Les Jardins d´Harmonie: é no centro histórico e seu ambiente é lindo. A comida é elaborada, sofisticada e super gostosa.
www.lesjardinsdharmonie.com
2 – Beynac-et-Cazenac: É um lindo vilarejo de pouco mais de 500 habitantes, situado ao longo do rio La Dordogne. e que se estende pela colina onde está o castelo do século 13. O castelo medieval, que sempre pertenceu à família Beynac, foi tomado pelo rei Ricardo Coração de Leão em 1189. Lá permaneceu por 10 anos, até sua morte. Ricardo ficou no castelo porque estava em guerra com Castelnaud, outro vilarejo, com outro castelo quase em frente à Beynac, só que na outra margem do rio. Este fato histórico dá a dimensão da importância da região nos tempos medievais e explica a quantidade de castelos, a maioria ainda existentes. Infelizmente, não há visitação pública ao castelo de Beynac, pelo menos não em 2015.
Beynac-et-Cazenac é bem pequena. Há algumas lojinhas de souvenirs e uns poucos restaurantes e cafés. Mas é puro charme!

Beynac-et-Cazenac: a cidadezinha tem a parte alta, do castelo, e a baixa que se desenvolveu ao longo do rio La Dordogne
(Foto: Mônica Sayão)

A maior atração de Beynac é seu castelo, lá em cima
(Foto: Mônica Sayão)
Ir a Beynac e não chegar perto do castelo é quase como ir a Roma e não visitar o Vaticano, “licenças poéticas” à parte! Disseram-me que era fácil ir a pé, mas sabe-se lá? Resolvi que o grupo deveria ir no nosso micro-ônibus, e foi uma escolha acertada, eu garanto. O entorno do castelo é um vilarejo lindinho, que, definitivamente, parece ter parado no tempo.

O entorno do castelo de Beynac é um charme e muito bucólico.
(Foto: Mônica Sayão)
Mais do visual do entorno do castelo de Beynac
(Foto: Mônica Sayão)
O castelo sob outro ângulo
(Foto: Mônica Sayão)
O castelo visto de mais um ângulo. Lindo!
(Foto: Mônica Sayão)
Vista do rio La Dordogne a partir do castedo de Beynac. Só nesta foto vejam quantos castelos, grandes ou pequenos
(Foto: Mônica Sayão)

3 – La Rocque Gageac: outro vilarejo de aproximadamente 500 habitantes, também à beira do rio La Dordogne, está a 15 min de carro de Beynac-et-Cazenat. Tão lindo quanto seu vizinho, e também espremido entre o rio e a colina logo atrás, vale muito a visita.

Um passeio de barco nas “gabarres” pelo rio La Dordogne é um clássico
(Foto: Mônica Sayão)
La Rocque Gageac se desenvolveu ao longo do rio também, só que mais espremida pela montanha de rocha logo atrás
(Foto: Mônica Sayão)

O Chateau de La Marlatrie, no fundo da foto acima, é uma construção do século 19, “moderna” se comparada com os castelos medievais da região. Se fosse genuinamente antiga não seria construída na parte baixa do vilarejo, e sim no ponto mais alto por medida de proteção. É usado para hospedagem ou eventos.

Chateau de la Marlatrie é uma opção para quem quiser alugar um “castelo” como hospedagem
(Foto: Mônica Sayão)

3 – Domme: mais uma encantadora cidadezinha do Périgord Noir, que pertence à lista dos mais belos vilarejos de França. Diferentemente das 2 vilas anteriores, Domme foi construída no século 13 sobre um platô de 150m de altura, que se debruça sobre a planície do rio La Dordogne. É uma antiga “bastide” – cidade fortificada – a única da região que ainda conserva suas muralhas. As 3 entradas na cidade ainda existem: a Porte de Bos, a Porte de la Combe e a Porte de Tours, também do século 13, que é a mais bem preservada. Aliás, a Porte de Tours serviu de prisão dos Cavaleiros Templários no século 14, enquanto aguardavam seu julgamento. Os prisioneiros deixaram grafites nas paredes da prisão. Uma vez que se chega à praça principal, a Place de Halle, lá estão a igreja paroquial, a prefeitura (La Marie) e o mercado coberto (Le Halle) com impressionante trabalho de marcenaria. Domme tem cerca de mil habitantes. Passear por suas ruas é prazer garantido: cafés, lojinhas de souvenirs e de delícias da região, arquitetura medieval e renascentista bem preservadas, lindas vistas da planície abaixo, cavernas de estalactites, tudo isso é encantador.

Domme localiza-se sobre um platô
(Foto: Mônica Sayão)
Melhor lugar para se apreciar a vista fantástica
(Foto: Mônica Sayão)
Vista do rio La Dordogne a partir de Domme. Muito lindo!
(Foto: Mônica Sayão)
Igreja de Notre Dame de Assomption, construída no século 16, no lugar de um santuário destruído anteriormente. Ao lado, a singeleza da prefeitura de Domme (La Marie)
(Foto: Mônica Sayão)

O mercado coberto (Le Halle) fica na praça central de Domme.
Sob o mercado estão as grutas da cidade que durante a Guerra dos Cem Anos serviram de esconderijo e proteção para os habitantes. Podem ser visitadas
(Foto: Mônica Sayão)
Porte de Tours, a entrada original melhor preservada atualmente em Domme. Aqui os Cavaleiros Templários ficaram presos por anos no século 14
(Foto: www.perigordnoir-valleedordogne.com)

Olha eu aí em frente ao hotel Esplanade de Domme
(Foto: M. Clara Ribeiro)

Onde dormir e comer:
– Hotel L’Esplanade é o melhor da cidade. Decoração típica francesa, jardins bonitos, quartos com aquela magnífica vista do rio La Dordogne, e além disso um ótimo restaurante – bom demais!
www.esplanade-perigord.com
Antes de terminar, gostaria de avisar que meu próximo post será direto de Paris, onde estarei a partir deste fim de semana. Continuarei com meus posts quinzenais, e vocês também poderão acompanhar um pouco desta minha viagem no Instagram e Facebook.
E também gostaria de dizer que levarei um grupo para passar o carnaval no México, visitando a capital e suas coloridas e surpreendentes cidades coloniais – quem se interessar, pode me contactar pelo email que está nos meus posts.
Até a próxima…

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